Geopolítica

EUA aportam US$ 750 milhões em mina de terras raras em Goiás

O dinheiro é de Washington e vai comprar a produção inicial da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), agora controlada por empresa americana.

Vista aérea de Minaçu, em Goiás, com casas de telhado laranja, uma igreja em primeiro plano e o lago ao fundo, sob céu azul.
Vista aérea de Minaçu (GO), município onde fica a mina Pela Ema, da Serra Verde. A foto mostra a cidade, não a mina.Foto: EditorGoiano / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 24 de agosto de 2026, o governo dos Estados Unidos anunciou US$ 750 milhões para uma estrutura que vai comprar a produção inicial da mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás. O dinheiro vem do Departamento de Guerra, o Ministério da Defesa americano, no governo de Donald Trump.

Terras raras são elementos químicos usados em ímãs de motores, turbinas e equipamentos militares. Segundo a SBT News, a Serra Verde é a única empresa do país com operação comercial de terras raras em larga escala.

Em fevereiro, a Serra Verde anunciou um financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC), agência americana. Em abril, a empresa americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões.

Quem paga e quem compra

A compra foi paga com US$ 300 milhões em dinheiro e 126,8 milhões de ações novas da USA Rare Earth, segundo o Poder360. O aporte do governo americano fica separado do preço. Ele financia um veículo de propósito específico (SPV, na sigla em inglês). Esse veículo compra o carbonato misto de terras raras, um produto que ainda precisa ser separado em metais.

Dinheiro dos EUA ligado à mina de Minaçu Valores anunciados, em US$ milhões, 2026

Item US$ milhões Data
Aporte do Departamento de Guerra no veículo que compra a produção 750 24/8
Financiamento da DFC à Serra Verde 565 fev.
Linha de crédito de banco, em carta de compromisso 500 24/8
Compra mínima pelo governo americano, em cinco anos 300 24/8

Fontes: comunicado da USA Rare Earth à SEC (24/8/2026); comunicado da Serra Verde (fev./2026). Elaboração: redação.

As fontes não deixam claro se os US$ 565 milhões da DFC fazem parte do total de US$ 1,55 bilhão anunciado em agosto.

Onde fica o processamento

Segundo o Poder360, a empresa combinada vai unir a extração de terras raras pesadas, em Goiás, ao processamento, à produção de metais e à fabricação de ímãs. Essas etapas funcionam nos Estados Unidos, no Reino Unido e na França.

O texto não diz onde o material extraído em Minaçu será separado em metais. Essa etapa define quanto do valor da cadeia fica no Brasil.

Soberania em disputa

Em 11 de maio, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu análise sobre a operação. O pedido partiu do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que sustenta que a empresa passaria a controlar toda a produção nacional de terras raras, segundo a SBT News.

Em abril, representantes do governo federal criticaram a venda como ameaça à soberania, sem citar nomes, segundo o Poder360. No início de setembro, a venda foi concluída, um dia depois de o Senado aprovar o projeto de minerais críticos, segundo a Eixos. Em 16 de setembro, Lula sancionou a política nacional, que cria um conselho com poder de vetar e aprovar projetos, segundo a Gazeta do Povo.

Em 26 de maio, na Casa Branca, Flávio Bolsonaro disse que o Brasil seria “a única alternativa real à China para o mundo livre”. Segundo a SBT News, ele propôs uma parceria estratégica de longo prazo. A reportagem não registra compromisso de fornecimento aos EUA, nem declaração de Trump sobre o tema.

O que diz a USA Rare Earth: Em comunicado de 24 de agosto, o presidente-executivo do conselho, Michael Blitzer, agradeceu o apoio estratégico do governo americano e o financiamento ampliado. Não encontramos nota do governo federal brasileiro sobre a conclusão da venda.

O que isso significa

O dinheiro americano garante a venda da produção inicial a uma estrutura financiada por Washington. A mina continua em Goiás, mas o comprador da primeira fase e as unidades de ímãs citadas pela empresa ficam fora do país.

Ficam em aberto a análise do Cade, a aplicação da nova política à operação já concluída e o local da separação dos metais. As fontes consultadas não respondem essas perguntas.

Como fizemos: Usamos o comunicado da USA Rare Earth à SEC (24/8/2026), o comunicado da Serra Verde de fevereiro de 2026 (só o título pôde ser conferido) e reportagens do Estadão Conteúdo, Poder360, SBT News, Eixos e Gazeta do Povo, acessadas em 22/10/2026. Os valores da tabela são os divulgados, sem cálculo próprio. Não enviamos perguntas à empresa nem ao governo; as posições vêm de comunicados e reportagens públicas.

Fontes