O Pix não pode ser moeda de troca com os Estados Unidos
Opinião: o Pix é infraestrutura do Banco Central usada por 86% dos adultos. Ele não deve entrar na negociação tarifária com os EUA.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Opinião. Este texto expressa a posição da Revista Soberania, e não é reportagem.
Em 1º de junho de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) apontou o Pix como alvo de uma investigação comercial. Desde então, o sistema de pagamentos do Banco Central (BC) virou assunto de negociação tarifária. O Brasil não deve aceitar essa lógica. O Pix não é moeda de troca.
O Pix é o sistema de pagamentos instantâneos do BC, em funcionamento desde 16 de novembro de 2020. Ele transfere dinheiro de uma conta a outra em segundos. Para pessoas físicas, o serviço é gratuito. Em agosto de 2020, ao anunciar a regra, o diretor do BC João Manoel de Mello disse que “o Pix será gratuito para pessoas físicas”, segundo a Agência Brasil.
Um sistema que chegou à rotina
Os números do próprio BC mostram o tamanho do sistema. Segundo o Relatório de Gestão do Pix, divulgado em agosto de 2026, houve quase 80 bilhões de transações em 2025. Esse total subiu 25,7% sobre 2024, e o valor movimentado superou R$ 35 trilhões.
Cerca de 148 milhões de pessoas físicas usavam o sistema em dezembro de 2025. Segundo o Movimento Econômico, que cita o relatório, isso equivale a cerca de 86% da população adulta. Não é produto de nicho. É infraestrutura de uso diário, da feira ao salário.
O argumento americano e a resposta
Washington vê outra coisa. Segundo o USTR, o BC é ao mesmo tempo regulador e operador do Pix, e esse duplo papel criaria conflito de interesse. O órgão também critica a gratuidade para pessoas físicas e o teto para as taxas cobradas de empresas. A investigação usa a Seção 301, instrumento da lei comercial americana para retaliar práticas consideradas desleais.
Essa crítica tem fundamento. Quem regula um serviço não deveria ter interesse em favorecer o que opera. O remédio para esse conflito, porém, está dentro do Brasil: transparência, controle público e regras iguais para todos. Tarifa imposta de fora não é o remédio.
Segundo o Congressional Research Service (CRS), serviço de pesquisa do Congresso dos EUA, alguns interessados americanos afirmam que o modelo prejudica concorrentes estrangeiros. Esse argumento merece resposta direta. Em 1º de julho, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) entregou ao USTR uma resposta de 29 páginas. Segundo o Jornal de Brasília, o texto diz que o Pix está “longe de excluir empresas estrangeiras”. Também afirma que a Seção 301 “não autoriza o USTR a impor sanções meramente porque discorda das escolhas políticas de outro país soberano”.
A economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics (PIIE), listou em 9 de junho a separação entre a propriedade e a regulação do Pix entre as exigências americanas. Ela lembra que o sistema foi criado para dar ao Brasil autonomia monetária e uma alternativa doméstica às redes estrangeiras de pagamento. Quem controla o Pix define as regras para quem o usa. Essa é a questão central.
O que fica em aberto
O Pix não é uma concessão a ser negociada, e o próprio governo já disse isso. Em 9 de julho, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou: “há temas sobre os quais não cederemos, como o Pix”. No dia 17 do mesmo mês, o presidente Lula resumiu a posição: “É público, é de graça e vai continuar assim”.
Em 8 de outubro, segundo a Correio Braziliense, Rosa listou três temas em que o Brasil exige reciprocidade: a abertura dos mercados químico e automotivo, o controle sobre minerais críticos e a interferência externa no Pix. Os termos de referência dos EUA ainda não chegaram. Rosa espera o documento no início de novembro.
Negociar tarifas é legítimo. Cotas, prazos e a abertura de mercados industriais podem ser discutidos. O Pix é outra coisa. É infraestrutura que a maioria dos adultos usa e que o Estado criou para todos. Entregá-la em troca de alívio tarifário seria trocar soberania por conveniência.
O que diz o Banco Central: Em 16 de julho, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que o argumento americano é “uma tentativa de inventar alguma lógica para a aplicação de tarifas”. Segundo o Mercado&Consumo, o BC seguirá oferecendo o Pix como gratuito, seguro e instantâneo.
Como fizemos: Checamos o comunicado do USTR de 1º de junho de 2026, a resposta do Itamaraty de 1º de julho (segundo o Jornal de Brasília), declarações de Galípolo, de Márcio Elias Rosa e de Lula, o Relatório de Gestão do Pix divulgado em agosto de 2026 (segundo o Movimento Econômico e o Portal Tela) e a Agência Brasil de 2020, acessados em 22 de outubro de 2026. Não conseguimos abrir as estatísticas do BC nem a notificação completa do USTR, por isso os números vêm de reportagens que citam o relatório; as matérias descrevem a base de usuários de formas diferentes, e usamos o dado de dezembro de 2025. Não enviamos perguntas ao BC, ao USTR ou ao Itamaraty; as posições citadas são públicas.
Fontes
- Section 301 Determination on Brazil’s Unreasonable Acts, Policies, and Practices — USTR (acesso em 22/10/2026)
- Section 301 Investigation into Brazil’s Acts, Policies, and Practices — Congressional Research Service (acesso em 22/10/2026)
- As the US targets Brazil’s payment system, Europe should pay close attention — Atlantic Council (acesso em 22/10/2026)
- Itamaraty defende Pix ao USTR e diz que negociação sobre etanol pode ser feita bilateralmente — Jornal de Brasília (acesso em 22/10/2026)
- Argumentos contra Pix são desculpas para criar “lógica” para tarifa, aponta Galípolo — Mercado&Consumo (acesso em 22/10/2026)
- Tarifaço: ministro diz que não cederá sobre Pix — SBT News (acesso em 22/10/2026)
- Brasil e Estados Unidos avançam em negociações sobre tarifas comerciais — Correio Braziliense (acesso em 22/10/2026)
- Lula defende Pix público e de graça após tarifa dos EUA — JB (acesso em 22/10/2026)
- Novo sistema de pagamentos do BC, Pix será gratuito a pessoas físicas — Agência Brasil (acesso em 22/10/2026)
- Chaves Pix chegam a 920 milhões e sistema movimenta R$ 35 tri em 2025 — Movimento Econômico (acesso em 22/10/2026)
- Pix movimentou mais de R$ 35 trilhões em 2025, aponta relatório do BC — Portal Tela (acesso em 22/10/2026)
- Latest US squeeze on Brazil jeopardizes its financial autonomy — Peterson Institute for International Economics (acesso em 22/10/2026)



