Na COP31, o Brasil deve defender dinheiro público para a Amazônia
Com o fundo florestal em US$ 7,3 bilhões, o Brasil deve levar a Antália uma tese simples: a floresta precisa de financiamento público e soberano.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Em 9 de novembro começa a COP31, em Antália, na Turquia. COP é a sigla de Conferência das Partes, o encontro anual dos países que assinaram a convenção climática da Organização das Nações Unidas (ONU). Este é um texto de opinião. Ele defende que o Brasil chegue à conferência com uma tese clara: a Amazônia precisa de dinheiro público e de regras que o país controle.
O teste mais concreto dessa tese é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, em inglês Tropical Forest Forever Facility (TFFF). Segundo a Mongabay, o fundo somava cerca de US$ 7,3 bilhões em setembro, contra a meta de US$ 10 bilhões até o fim de 2026. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, citou o mesmo valor, segundo a Climate Change News.
A floresta mostra por que o tema não pode esperar. O Deter, sistema de alertas de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), registrou 2.874 km² sob alerta entre agosto de 2025 e julho de 2026. A queda foi de 36,87%, o menor valor da série desde 2016, segundo a Agência Brasil.
A medição anual oficial, feita por satélite e chamada Prodes, aponta queda ainda maior. Segundo a Poder360, o Inpe estimou 3.335 km² de desmatamento na Amazônia no ciclo de 2026, 41,8% abaixo dos 5.731 km² do ciclo anterior. Até 22 de outubro, não encontramos o comunicado completo do Inpe, e o número vem dessa reportagem.
Quem paga e quem preserva
Quem mantém a mata em pé, na prática, são povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos produtores. Quem paga, até agora, são governos. A Noruega prometeu até US$ 3 bilhões, mas como empréstimo ao fundo, em dez anos, segundo a Climate Change News. O Brasil anunciou um aporte de US$ 1 bilhão, segundo a Mongabay.
O país já tem um modelo de doações com controle nacional. O Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), recebeu cerca de R$ 3,4 bilhões desde 2009, a maior parte da Noruega. Segundo a Poder360, o comitê que orienta o fundo foi desativado no governo de Jair Bolsonaro e retomado em 2023.
O argumento contrário e a resposta
O argumento contrário tem base. Em abril de 2025, a Global Forest Coalition e a Fundación Solón afirmaram que o fundo trata a floresta como ativo financeiro. Segundo a análise, o modelo assume retorno de 7,5% nos investimentos, e os pagamentos podem cair se esse retorno não vier.
O problema do tempo também pesa. Segundo a Climate Change News, especialistas acham improvável que o fundo pague países em desenvolvimento antes de 2028, e as contribuições de doadores perderam ritmo depois do começo. A promessa norueguesa depende de o fundo chegar a US$ 10 bilhões até o fim de 2026, e a Noruega não pode bancar mais de 20% do total.
A resposta do governo é que o fundo é global, e não só brasileiro. Com cerca de US$ 7 bilhões, segundo o ministro, fica mais fácil outros países considerarem a própria contribuição. O argumento tem lógica, mas não responde a quem decide o uso da floresta.
O que diz o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco: “É uma iniciativa global, não uma iniciativa brasileira”, em tradução nossa, segundo a Climate Change News em 29 de setembro de 2026. Ele disse que o Brasil propôs a primeira ideia, mas que hoje o fundo é global.
O problema não é aceitar capital privado. O problema é transformar a floresta em aplicação financeira, com pagamento que sobe e desce com o mercado. Soberania, nesse caso, é o país decidir quando, quanto e para quem o dinheiro vai, sem depender do retorno de um portfólio.
Na COP31, o Brasil deveria defender três pontos. Primeiro, parte do dinheiro em doação, sem depender de retorno de mercado. Segundo, pagamento direto a povos indígenas e comunidades locais acima do piso de 20% que o site do fundo prevê. Terceiro, governança com instituições brasileiras, como acontece no Fundo Amazônia.
A COP31 não vai decidir sozinha o destino da floresta. Mas o Brasil pode cobrar uma regra simples: o dinheiro para a Amazônia precisa ser público, previsível e sob controle nacional. Quem representará o país em Antália depende da eleição de 25 de outubro. A tese, porém, deveria valer para qualquer governo, porque a floresta não pode depender do humor dos mercados.
Como fizemos: Checamos valores do fundo em reportagens da Mongabay (24 de setembro de 2026) e da Climate Change News (29 de setembro de 2026 e 6 de novembro de 2025), na análise da Global Forest Coalition (abril de 2025) e na página oficial do TFFF, acessadas em 22 de outubro de 2026. Os dados de desmatamento vêm do Deter, segundo a Agência Brasil, e da estimativa do Prodes, segundo a Poder360 (16 de outubro de 2026); não encontramos o comunicado do Inpe. Os percentuais são os informados pelas fontes, sem cálculo próprio. Não houve contato direto com o ministério para este texto. Os valores do fundo são de setembro de 2026 e podem mudar.
Fontes
- Brazil confident new rainforest fund will reach $10bn donor milestone — Climate Change News (acesso em 22/10/2026)
- Norway pledges $3bn in boost for Brazil-led tropical forest fund — Climate Change News (acesso em 22/10/2026)
- Brazil’s tropical forest fund races to raise $2.7 billion before deadline — Mongabay (acesso em 22/10/2026)
- Brazil leads push for novel forest finance mechanism ahead of COP30 summit — Mongabay (acesso em 22/10/2026)
- Tropical Forest Forever Facility Report Raises Deep Concerns About Market Approach to Forests — Global Forest Coalition (acesso em 22/10/2026)
- Tropical Forest Forever Facility — site oficial (acesso em 22/10/2026)
- Desmatamento na Amazônia cai 36,87% no último ano — Agência Brasil (acesso em 22/10/2026)
- Desmatamento cai na Amazônia e no Cerrado em 2026 — Poder360 (acesso em 22/10/2026)
- Fundo Amazônia recebeu R$ 3,4 bilhões de doações em 13 anos — Poder360 (acesso em 22/10/2026)
- 2026 UN Climate Change Conference COP31 — UNCCD (acesso em 22/10/2026)
- Foto: Bruno Kelly / Amazônia Real, Wikimedia Commons (CC BY 2.0) (acesso em 22/10/2026)



