Opinião

Bandeira verde e amarela, política externa made in USA

No palanque, a bandeira é verde e amarela; no plano de Flávio, os EUA são o parceiro número um, o Brics fica em xeque e os minerais vão à mesa.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Militares da Marinha, de uniforme branco, perfilados na Praça dos Três Poderes diante do mastro com a Bandeira Nacional hasteada.
Cerimônia de troca da Bandeira Nacional na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em 4 de setembro de 2022.Foto: Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O plano de governo que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem três parceiros prioritários: Estados Unidos, Argentina e Israel. Segundo o portal ND+, o texto não menciona o Brics nem o Mercosul. No comício, a bandeira é verde e amarela. Na política externa, o selo é “made in USA”.

Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não temos nada contra os Estados Unidos. A aliança com o Ocidente faz parte da tradição da direita brasileira. O problema não é ter os EUA como parceiro. É tratar o Brasil como fornecedor, e não como sócio.

O roteiro de um ano

Os fatos se acumulam desde março. Em 28 de março, na CPAC, a conferência anual da direita americana, no Texas, Flávio apresentou o Brasil como saída dos EUA para a dependência da China em terras raras. Terras raras são metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa.

Em 26 de maio, na Casa Branca, prometeu ao presidente Donald Trump parcerias de longo prazo nesses minerais, com “investimento protegido”. No dia seguinte, levou o mesmo recado ao secretário de Estado, Marco Rubio, segundo a CNN Brasil. Também pediu que os EUA classificassem o PCC e o CV como grupos terroristas.

Em 3 de junho, disse que consideraria tirar o Brasil do Brics, segundo o Poder360. O Brics é o grupo de grandes economias emergentes do qual o Brasil é fundador. Sair dele seria abrir mão de uma mesa onde o país fala com peso próprio.

Em 12 de setembro, o Estado de Minas revelou um documento de 22 páginas com a marca “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign”. Batizado de “Prosperity Partnership”, propunha uma aliança mineral com os EUA, mudanças nas regras de mineração e investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões. O autor, André Marinho, do Novo, diz que foi um exercício pessoal e que o material nunca foi enviado.

Patriotismo de palanque

Nada disso apaga a imagem mais incômoda. Em julho de 2025, Flávio agradeceu a Trump, no X, por uma tarifa de 50% contra produtos brasileiros. Depois disse à CNN Brasil que se arrependeu e apagou a postagem.

Um patriota pode errar. Mas o erro diz algo sobre o reflexo. Diante de uma punição estrangeira ao próprio país, o primeiro gesto foi agradecer a quem puniu.

O documento de setembro vai na mesma linha, ainda que o autor o trate como exercício pessoal. Ele mostra que, no entorno da campanha, alguém desenhou o futuro mineral do Brasil a partir de Washington. E o Estado de Minas não registrou resposta de Flávio ao material.

Não é só a esquerda que vê o problema. Renan Santos, do Missão, partido de direita, disse sentir “asco” e “ojeriza” por Flávio. Segundo o site Muita Informação, também afirmou que ele faria do Brasil uma engrenagem americana. Renan liberou seus eleitores no segundo turno.

O que é soberania para a direita

Soberania não é antiamericanismo. É negociar com todos a partir do interesse nacional.

O Brasil tem os minerais que os próprios EUA buscam para reduzir a dependência da China. Foi o próprio Flávio quem disse isso na CPAC. Quem tem esse trunfo nas mãos não precisa oferecer nada antes de sentar à mesa. Precisa, ao contrário, cobrar caro por ele.

A direita que acredita no Brasil deveria exigir exatamente isso: parceria com os EUA, sim, mas com preço, contrapartida e regra brasileira. O que Flávio mostrou até aqui foi o contrário. Ofereceu primeiro e perguntou depois.

Ninguém aqui pede que você goste de Lula. Pede-se apenas que a bandeira verde e amarela não sirva de fantasia para uma política externa escrita em inglês.

O que diz Flávio: O candidato apresenta a aproximação com os EUA como estratégica, com o Brasil como alternativa americana à China, segundo a CNN Brasil. Seu plano, segundo o Brasil de Fato, prevê mais processamento de minério no país, transferência de tecnologia e o Estado como regulador do setor.

Em 25 de outubro, o eleitor de direita escolhe mais do que um presidente. Escolhe se a soberania será um valor ou apenas uma camisa de campanha. A bandeira merece um candidato que a defenda também fora do país.

Fontes