Bandeira verde e amarela, política externa made in USA
No palanque, a bandeira é verde e amarela; no plano de Flávio, os EUA são o parceiro número um, o Brics fica em xeque e os minerais vão à mesa.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

O plano de governo que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem três parceiros prioritários: Estados Unidos, Argentina e Israel. Segundo o portal ND+, o texto não menciona o Brics nem o Mercosul. No comício, a bandeira é verde e amarela. Na política externa, o selo é “made in USA”.
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, não temos nada contra os Estados Unidos. A aliança com o Ocidente faz parte da tradição da direita brasileira. O problema não é ter os EUA como parceiro. É tratar o Brasil como fornecedor, e não como sócio.
O roteiro de um ano
Os fatos se acumulam desde março. Em 28 de março, na CPAC, a conferência anual da direita americana, no Texas, Flávio apresentou o Brasil como saída dos EUA para a dependência da China em terras raras. Terras raras são metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa.
Em 26 de maio, na Casa Branca, prometeu ao presidente Donald Trump parcerias de longo prazo nesses minerais, com “investimento protegido”. No dia seguinte, levou o mesmo recado ao secretário de Estado, Marco Rubio, segundo a CNN Brasil. Também pediu que os EUA classificassem o PCC e o CV como grupos terroristas.
Em 3 de junho, disse que consideraria tirar o Brasil do Brics, segundo o Poder360. O Brics é o grupo de grandes economias emergentes do qual o Brasil é fundador. Sair dele seria abrir mão de uma mesa onde o país fala com peso próprio.
Em 12 de setembro, o Estado de Minas revelou um documento de 22 páginas com a marca “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign”. Batizado de “Prosperity Partnership”, propunha uma aliança mineral com os EUA, mudanças nas regras de mineração e investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões. O autor, André Marinho, do Novo, diz que foi um exercício pessoal e que o material nunca foi enviado.
Patriotismo de palanque
Nada disso apaga a imagem mais incômoda. Em julho de 2025, Flávio agradeceu a Trump, no X, por uma tarifa de 50% contra produtos brasileiros. Depois disse à CNN Brasil que se arrependeu e apagou a postagem.
Um patriota pode errar. Mas o erro diz algo sobre o reflexo. Diante de uma punição estrangeira ao próprio país, o primeiro gesto foi agradecer a quem puniu.
O documento de setembro vai na mesma linha, ainda que o autor o trate como exercício pessoal. Ele mostra que, no entorno da campanha, alguém desenhou o futuro mineral do Brasil a partir de Washington. E o Estado de Minas não registrou resposta de Flávio ao material.
Não é só a esquerda que vê o problema. Renan Santos, do Missão, partido de direita, disse sentir “asco” e “ojeriza” por Flávio. Segundo o site Muita Informação, também afirmou que ele faria do Brasil uma engrenagem americana. Renan liberou seus eleitores no segundo turno.
O que é soberania para a direita
Soberania não é antiamericanismo. É negociar com todos a partir do interesse nacional.
O Brasil tem os minerais que os próprios EUA buscam para reduzir a dependência da China. Foi o próprio Flávio quem disse isso na CPAC. Quem tem esse trunfo nas mãos não precisa oferecer nada antes de sentar à mesa. Precisa, ao contrário, cobrar caro por ele.
A direita que acredita no Brasil deveria exigir exatamente isso: parceria com os EUA, sim, mas com preço, contrapartida e regra brasileira. O que Flávio mostrou até aqui foi o contrário. Ofereceu primeiro e perguntou depois.
Ninguém aqui pede que você goste de Lula. Pede-se apenas que a bandeira verde e amarela não sirva de fantasia para uma política externa escrita em inglês.
O que diz Flávio: O candidato apresenta a aproximação com os EUA como estratégica, com o Brasil como alternativa americana à China, segundo a CNN Brasil. Seu plano, segundo o Brasil de Fato, prevê mais processamento de minério no país, transferência de tecnologia e o Estado como regulador do setor.
Em 25 de outubro, o eleitor de direita escolhe mais do que um presidente. Escolhe se a soberania será um valor ou apenas uma camisa de campanha. A bandeira merece um candidato que a defenda também fora do país.
Fontes
- O programa de Flávio Bolsonaro não menciona Brics nem Mercosul — ND+
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Lula defende Brics na campanha e Flávio quer saída do Brasil do grupo — Poder360
- Terras raras: plano com marca de Flávio Bolsonaro prevê parceria com EUA — Estado de Minas
- Flávio Bolsonaro à CNN: me arrependi da postagem sobre tarifas de Trump — CNN Brasil
- Renan Santos critica Flávio Bolsonaro e libera eleitor do Missão no 2º turno — Muita Informação
- Quem vai controlar as terras raras do Brasil? — Brasil de Fato



