Opinião

"Deus, pátria, família", mas o irmão pediu sanções contra o Brasil

Eduardo foi condenado por buscar tarifas e sanções dos EUA contra o país, e Flávio agradeceu a Trump pelo tarifaço. Pátria, para a direita, é outra coisa.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Eduardo Bolsonaro, de terno cinza e gravata vinho, discursa diante de um microfone, com fundo escuro e luzes roxas.
Eduardo Bolsonaro, então deputado federal, discursa na CPAC 2025, em National Harbor, Maryland, nos Estados Unidos, em fevereiro de 2025.Foto: Gage Skidmore / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Em 16 de junho de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Eduardo Bolsonaro a 4 anos e 2 meses de prisão por coação. Coação é o uso de ameaça para interferir num processo judicial. Segundo a Agência Brasil, ele buscou tarifas e sanções americanas para interromper o julgamento do pai. O irmão do candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já tinha perdido o mandato de deputado em dezembro de 2025.

“Deus, pátria, família” é o lema que a direita repete nos palanques. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, levamos a sério cada uma dessas palavras. Por isso mesmo, não dá para aceitar que a palavra “pátria” seja usada por quem trabalhou para que outro país punisse o Brasil.

O que a família fez com a pátria

A pressão americana não ficou no discurso. Em 30 de julho de 2025, os Estados Unidos aplicaram sanções da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. É uma lei americana que permite bloquear bens e vistos de estrangeiros.

No mesmo pacote, o presidente Donald Trump vinculou uma tarifa de 50% contra o Brasil ao julgamento de Jair Bolsonaro, segundo a Universidade de Wisconsin–Madison. Ou seja, o comércio brasileiro virou instrumento de pressão sobre a Justiça do país.

E Flávio? Em 9 de julho de 2025, agradeceu a Trump, no X, pela tarifa de 50%. Depois disse à CNN Brasil que se arrependeu da postagem e a apagou, segundo a emissora e o SBT News.

Eduardo também não deu o assunto por encerrado. Segundo o Poder360, ele diz que vai atuar nos EUA para retomar as sanções contra Moraes se o irmão vencer. A condenação, portanto, não mudou o plano.

Quem pagou a conta foi o Brasil

A tarifa não atinge ministro do Supremo. Atinge quem produz e exporta. O governo teve de lançar o Plano Brasil Soberano, com R$ 30 bilhões de crédito aos exportadores atingidos, segundo a Agência Brasil.

Esse crédito saiu do bolso de todos os brasileiros, inclusive de quem vota na direita. Foi a conta de uma pressão que a família Bolsonaro buscou ou celebrou. Nenhum deles pagou essa fatura.

O agro, base de tantos eleitores de direita, sentiu o peso. Líderes do setor, ouvidos pelo O Globo sem se identificar, disseram que a estratégia de Flávio nos EUA foi “contraproducente”. Para eles, ela pôs a ideologia acima do campo.

Patriotismo não é bandeira no carro nem camisa amarela no comício. É defender o exportador quando um governo estrangeiro decide puni-lo.

Nesse teste, a família que repete “Deus, pátria, família” falhou duas vezes. Uma vez com o irmão que pediu as sanções. Outra com o candidato que agradeceu a tarifa.

Soberania também inclui o direito de um país julgar seus cidadãos pelas próprias leis. Pode-se discordar de uma sentença e recorrer contra ela. O que não se pode, em nome da pátria, é pedir que outro governo castigue o país inteiro até o tribunal mudar de ideia.

Admitir o que é verdade

Seria desonesto fingir que a política externa do governo atual está acima de crítica. Lula condenou a ação dos Estados Unidos na Venezuela e já relativizou a culpa da Rússia na Ucrânia, segundo a Gazeta do Povo. Muitos de nós discordamos disso, e com razão.

Mas discordar de Lula não obriga ninguém a aplaudir sanções contra o próprio país. Um conservador pode criticar o Itamaraty e, ao mesmo tempo, recusar quem chamou uma potência estrangeira para pressionar o Judiciário brasileiro. As duas coisas cabem na mesma cabeça.

Ninguém aqui pede que você goste de Lula. O que se pede é que a direita não entregue a palavra “pátria” a quem a usou contra o Brasil. Esse é o mínimo que se espera de quem diz amar o país.

O que diz Flávio: O senador disse à CNN Brasil que se arrependeu da postagem em que agradecia a Trump pela tarifa e que por isso a apagou. Sobre o julgamento do pai, ele o chama de “farsa” e defende uma anistia ampla, segundo o Correio Braziliense.

A direita brasileira tem nomes, valores e eleitores para vencer sem essa conta. Em 25 de outubro, votar pensando na pátria é lembrar quem pediu sanções contra ela. E quem, no dia em que o tarifaço chegou, preferiu agradecer.

Fontes