EUA miram o Pix porque o Banco Central também o opera
O USTR aponta conflito no Pix, que o Banco Central regula e opera. O Itamaraty responde que o sistema não exclui empresas estrangeiras.

Em 1º de junho de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) concluiu que práticas brasileiras são passíveis de retaliação. O Pix entrou na lista. Segundo o órgão, o sistema de pagamentos instantâneos dá tratamento preferencial ao próprio sistema público, em prejuízo de empresas americanas.
O ponto central é o duplo papel do Banco Central (BC): ele regula o sistema e também o opera. Para entender a disputa, vale saber o que é o Pix e o que cada lado afirma.
O que é o Pix
O Pix é o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo BC. Ele funciona para todos desde 16 de novembro de 2020, depois de um piloto restrito em 3 de novembro, segundo a Agência Brasil. Com ele, o dinheiro passa de uma conta a outra em segundos.
Para pessoas físicas, a transferência é gratuita. Segundo o site Meu Tudo, o BC confirmou essa regra em 2023.
O que o USTR aponta
Segundo a análise da Thomson Reuters sobre a notificação do USTR, o órgão vê conflito de interesse no duplo papel do BC. Esse arranjo, segundo o USTR, leva a regras de participação obrigatória e de exibição para certas instituições financeiras. Há também regras de taxas que favorecem o Pix.
O comunicado oficial, de 1º de junho, fala em serviços de pagamento eletrônico e em políticas que favorecem o campeão nacional do setor. Em 15 de julho, o governo americano confirmou uma sobretaxa de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros. A medida tinha início previsto para 22 de julho, segundo a Exame.
A resposta de Brasília
Em 1º de julho, o Itamaraty entregou ao USTR uma resposta de 29 páginas, assinada pelo chanceler Mauro Vieira. Segundo o Jornal de Brasília, o texto diz que o Pix está “longe de excluir empresas estrangeiras”.
O documento também afirma que a conduta apontada “não é direcionada especificamente a empresas dos EUA em razão de sua origem”. Diz ainda que a Seção 301 “não autoriza o USTR a impor sanções meramente porque discorda das escolhas políticas de outro país soberano”.
Em 16 de julho, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, respondeu em coletiva. Ele afirmou: “Fica evidente que a argumentação realmente passa por uma tentativa de inventar alguma lógica para a aplicação de tarifas.” Segundo ele, o volume do cartão de crédito cresceu 150% depois do Pix.
O que diz o Banco Central: Galípolo afirmou que o BC seguirá oferecendo o Pix como gratuito, seguro e instantâneo. Segundo ele, os argumentos dos EUA servem para justificar tarifas. Fonte: coletiva de 16 de julho, segundo o Mercado&Consumo.
O que mudou em outubro
Em julho, a Exame relatou os pedidos americanos na negociação: tarifa zero para bens industriais e químicos, abertura do setor automotivo e limites a investimentos de terceiros países em minerais críticos. O Pix não aparece nessa lista.
Em 8 de outubro, o ministro Márcio Elias Rosa disse que o Brasil exige reciprocidade estrita em três temas. São eles a abertura dos mercados químico e automotivo, o controle sobre minerais críticos e a interferência externa no Pix. Segundo a Correio Braziliense, a reportagem não detalha essa interferência.
Ou seja, o Pix aparece na pauta de reciprocidade do próprio Brasil. Não encontramos nova manifestação do USTR sobre o sistema em outubro.
O que fica em aberto
A economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics (PIIE), escreveu em 9 de junho que os EUA poderiam pedir a separação entre a propriedade do Pix e sua regulação. Essa é uma análise, não uma exigência oficial.
Rosa disse que espera, no início de novembro, os termos de referência americanos. Depois, o Brasil responderia com ofertas, segundo a Correio Braziliense.
Até aqui, as críticas formais do USTR miram as regras e a estrutura do Pix. O Pix segue como está. A questão para o cidadão é quem define as regras do sistema que o próprio BC criou e opera.
Como fizemos: Checamos o comunicado do USTR de 1º de junho de 2026, a análise da Thomson Reuters sobre a notificação oficial, a resposta do Itamaraty, declarações de Galípolo e a reportagem de outubro, acessadas em 22 de outubro de 2026. Não lemos a notificação do Federal Register na íntegra, por isso a citação sobre o Pix vem de análise secundária. Não enviamos perguntas ao BC, ao USTR ou ao Itamaraty nesta edição; as posições citadas são públicas.
Fontes
- Section 301 Determination on Brazil’s Unreasonable Acts, Policies, and Practices — USTR (acesso em 22/10/2026)
- USTR Section 301 action on Brazil, 25% tariffs proposed — Thomson Reuters (acesso em 22/10/2026)
- Brasil e Estados Unidos avançam em negociações sobre tarifas comerciais — Correio Braziliense (acesso em 22/10/2026)
- EUA queriam tarifa zero a setor automotivo e acesso a minerais críticos nas negociações com Brasil — Exame (acesso em 22/10/2026)
- Itamaraty defende Pix ao USTR e diz que negociação sobre etanol pode ser feita bilateralmente — Jornal de Brasília (acesso em 22/10/2026)
- Argumentos contra Pix são desculpas para criar “lógica” para tarifa, aponta Galípolo — Mercado&Consumo (acesso em 22/10/2026)
- Lula defende Pix público e adverte EUA — Istoé Dinheiro (acesso em 22/10/2026)
- Latest US squeeze on Brazil jeopardizes its financial autonomy — Peterson Institute for International Economics (acesso em 22/10/2026)
- Pix começa a funcionar no dia 3 de novembro para clientes selecionados — Bnews, com informações da Agência Brasil (acesso em 22/10/2026)
- Banco Central confirma que Pix continuará gratuito para pessoa física — Meu Tudo (acesso em 22/10/2026)
- Central Bank of Brazil.jpg — Wikimedia Commons (acesso em 22/10/2026)



