Comércio exterior

EUA miram o Pix porque o Banco Central também o opera

O USTR aponta conflito no Pix, que o Banco Central regula e opera. O Itamaraty responde que o sistema não exclui empresas estrangeiras.

Fachada do edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, com torre de concreto claro e blocos de vidro escuro sob céu azul.
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília. O BC regula e opera o Pix, ponto central da disputa com os EUA.Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 1º de junho de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) concluiu que práticas brasileiras são passíveis de retaliação. O Pix entrou na lista. Segundo o órgão, o sistema de pagamentos instantâneos dá tratamento preferencial ao próprio sistema público, em prejuízo de empresas americanas.

O ponto central é o duplo papel do Banco Central (BC): ele regula o sistema e também o opera. Para entender a disputa, vale saber o que é o Pix e o que cada lado afirma.

O que é o Pix

O Pix é o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo BC. Ele funciona para todos desde 16 de novembro de 2020, depois de um piloto restrito em 3 de novembro, segundo a Agência Brasil. Com ele, o dinheiro passa de uma conta a outra em segundos.

Para pessoas físicas, a transferência é gratuita. Segundo o site Meu Tudo, o BC confirmou essa regra em 2023.

O que o USTR aponta

Segundo a análise da Thomson Reuters sobre a notificação do USTR, o órgão vê conflito de interesse no duplo papel do BC. Esse arranjo, segundo o USTR, leva a regras de participação obrigatória e de exibição para certas instituições financeiras. Há também regras de taxas que favorecem o Pix.

O comunicado oficial, de 1º de junho, fala em serviços de pagamento eletrônico e em políticas que favorecem o campeão nacional do setor. Em 15 de julho, o governo americano confirmou uma sobretaxa de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros. A medida tinha início previsto para 22 de julho, segundo a Exame.

A resposta de Brasília

Em 1º de julho, o Itamaraty entregou ao USTR uma resposta de 29 páginas, assinada pelo chanceler Mauro Vieira. Segundo o Jornal de Brasília, o texto diz que o Pix está “longe de excluir empresas estrangeiras”.

O documento também afirma que a conduta apontada “não é direcionada especificamente a empresas dos EUA em razão de sua origem”. Diz ainda que a Seção 301 “não autoriza o USTR a impor sanções meramente porque discorda das escolhas políticas de outro país soberano”.

Em 16 de julho, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, respondeu em coletiva. Ele afirmou: “Fica evidente que a argumentação realmente passa por uma tentativa de inventar alguma lógica para a aplicação de tarifas.” Segundo ele, o volume do cartão de crédito cresceu 150% depois do Pix.

O que diz o Banco Central: Galípolo afirmou que o BC seguirá oferecendo o Pix como gratuito, seguro e instantâneo. Segundo ele, os argumentos dos EUA servem para justificar tarifas. Fonte: coletiva de 16 de julho, segundo o Mercado&Consumo.

O que mudou em outubro

Em julho, a Exame relatou os pedidos americanos na negociação: tarifa zero para bens industriais e químicos, abertura do setor automotivo e limites a investimentos de terceiros países em minerais críticos. O Pix não aparece nessa lista.

Em 8 de outubro, o ministro Márcio Elias Rosa disse que o Brasil exige reciprocidade estrita em três temas. São eles a abertura dos mercados químico e automotivo, o controle sobre minerais críticos e a interferência externa no Pix. Segundo a Correio Braziliense, a reportagem não detalha essa interferência.

Ou seja, o Pix aparece na pauta de reciprocidade do próprio Brasil. Não encontramos nova manifestação do USTR sobre o sistema em outubro.

O que fica em aberto

A economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics (PIIE), escreveu em 9 de junho que os EUA poderiam pedir a separação entre a propriedade do Pix e sua regulação. Essa é uma análise, não uma exigência oficial.

Rosa disse que espera, no início de novembro, os termos de referência americanos. Depois, o Brasil responderia com ofertas, segundo a Correio Braziliense.

Até aqui, as críticas formais do USTR miram as regras e a estrutura do Pix. O Pix segue como está. A questão para o cidadão é quem define as regras do sistema que o próprio BC criou e opera.

Como fizemos: Checamos o comunicado do USTR de 1º de junho de 2026, a análise da Thomson Reuters sobre a notificação oficial, a resposta do Itamaraty, declarações de Galípolo e a reportagem de outubro, acessadas em 22 de outubro de 2026. Não lemos a notificação do Federal Register na íntegra, por isso a citação sobre o Pix vem de análise secundária. Não enviamos perguntas ao BC, ao USTR ou ao Itamaraty nesta edição; as posições citadas são públicas.

Fontes