Comércio exterior

Flávio pediu à USTR que suspendesse a tarifa. O eleitor pendeu para Lula

Flávio foi a Washington pedir a suspensão das tarifas de 25% e culpou Lula; a cobrança entrou em vigor e, na Quaest, o tarifaço favoreceu o adversário.

Em sala com bandeiras dos Estados Unidos, J.D. Vance, de perfil, toma o juramento de Jamieson Greer, que ergue a mão direita ao lado da família.
O vice-presidente americano, J.D. Vance, dá posse a Jamieson Greer como Representante Comercial dos EUA, chefe do USTR, em abril de 2025.Foto: Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) / Wikimedia Commons (domínio público)

Em 6 e 7 de julho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez um pedido ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). Queria a suspensão das tarifas contra produtos brasileiros. O USTR é a agência que conduz a política comercial do governo americano. Flávio viajou aos EUA para uma audiência sobre o tema, segundo a Band, e culpou o governo Lula pela cobrança.

O pedido não funcionou. Em 15 de julho, as tarifas de 25% entraram em vigor. E o eleitor não aceitou a tese de que a culpa era do governo.

Segundo a Reuters, uma pesquisa Quaest mostrou que 42% dos eleitores ficaram mais inclinados a Lula por causa das tarifas. Só 27% disseram o mesmo de Flávio. A pesquisa mede inclinação, e não voto, mas a diferença de 15 pontos dá o tom: o tarifaço virou problema para quem foi a Washington.

Um pedido com histórico

À primeira vista, pedir a suspensão de uma tarifa contra o Brasil parece um gesto patriótico. É preciso reconhecer: o pedido, em si, ia na direção do interesse do exportador brasileiro. O problema está no histórico de quem pediu.

Um ano antes, em 9 de julho de 2025, Flávio agradeceu a Donald Trump, no X, pela tarifa de 50% imposta ao Brasil. Depois disse à CNN Brasil que se arrependeu da postagem e a apagou, segundo a emissora e o SBT News.

Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, foi além. Em 16 de junho de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou a 4 anos e 2 meses de prisão por coação. Segundo a Agência Brasil, Eduardo buscou tarifas e sanções americanas para interromper o julgamento do pai.

Com esse passado, o pedido de julho chegou ao eleitor com pouco crédito. A família que antes celebrava a pressão americana agora pedia que ela fosse suspensa. E atribuía a conta ao adversário.

Aliados e o agro também reagiram

A reação negativa não veio só da esquerda. Ronaldo Caiado (PSD), que hoje apoia Flávio no segundo turno, chamou de inaceitável o pedido de Flávio para adiar as tarifas, segundo o Estado de Minas. A crítica partiu de dentro da própria direita, e não de um adversário.

O próprio agro reclamou. Líderes do setor, ouvidos pelo jornal O Globo sem se identificar, chamaram a estratégia do candidato nos EUA de “contraproducente”. Disseram que ela pôs a ideologia acima do campo.

Para o produtor rural, a questão é concreta. Tarifa é imposto cobrado na entrada de um produto em outro país. Quando ela sobe, o exportador brasileiro perde preço e mercado. Campanha feita em Washington não muda essa conta no fim do mês.

Há uma lição para qualquer candidato. Quem vai a Washington discutir tarifas carrega consigo tudo o que disse antes sobre elas. E o eleitor, ao que tudo indica, também lembra.

A negociação continua

O tema não saiu da mesa. Brasil e Estados Unidos mantêm um grupo de trabalho sobre as tarifas. Segundo a Reuters, o acesso americano aos minerais brasileiros virou um dos pontos mais difíceis dessa conversa.

É aqui que a postura de Flávio pesa mais. Em maio, na Casa Branca, ele havia prometido parcerias de longo prazo em terras raras, com “investimento protegido”, segundo a CNN Brasil. Terras raras são metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa. Ele ofereceu a contrapartida antes mesmo de qualquer negociação oficial.

Na diplomacia comercial, quem entrega a carta antes do jogo perde poder de barganha. E nenhum oficial americano foi localizado oferecendo alívio nas tarifas em troca de minerais. Ou seja, a promessa foi feita, e a tarifa veio do mesmo jeito.

O que diz Flávio: Ao pedir a suspensão das tarifas ao USTR, Flávio atribuiu a cobrança ao governo Lula, segundo a Band e a Reuters. Sobre a postagem de 2025, disse à CNN Brasil que se arrependeu e a apagou.

A pesquisa Quaest deu a resposta que a pergunta original pedia. O eleitor olhou para o tarifaço e enxergou de onde veio a pressão, e quem a havia aplaudido. A dez dias do segundo turno, Flávio ainda tenta convencer que a conta é do outro lado. Os números de julho sugerem que o eleitor não comprou essa versão.

Fontes