Flávio agradeceu a Trump pelo tarifaço, e depois apagou
Em julho de 2025, Flávio agradeceu a Trump no X pela tarifa de 50% contra o Brasil; depois disse ter se arrependido e apagou a postagem.

Em 9 de julho de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou o X para agradecer ao presidente americano, Donald Trump, pela tarifa de 50% contra produtos brasileiros. Depois, disse à CNN Brasil que se arrependeu da postagem e a apagou. O episódio foi registrado pelo SBT News.
A postagem durou pouco, mas o registro ficou. Ela mostra de que lado o hoje candidato à Presidência esteve no primeiro grande choque comercial entre Brasil e Estados Unidos nesta década. E esse lado não era o do exportador brasileiro.
O que estava em jogo
Tarifa é um imposto cobrado quando um produto entra em outro país. Uma tarifa de 50% torna o produto brasileiro muito mais caro para o comprador americano. Na prática, ela tira mercado de quem produz no Brasil.
O tarifaço não tinha motivação só comercial. Em 30 de julho de 2025, os EUA aplicaram sanções da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). No mesmo pacote, Trump vinculou a tarifa de 50% ao julgamento de Jair Bolsonaro, pai do senador, segundo a Universidade de Wisconsin–Madison. A Lei Magnitsky permite aos EUA punir estrangeiros com bloqueio de bens e de vistos.
Ou seja, um governo estrangeiro usou o comércio brasileiro como instrumento de pressão sobre a Justiça do Brasil. E o filho do réu agradeceu publicamente. A tarifa de 50% foi depois retirada, segundo o site Axios.
Na diplomacia, gestos assim têm peso. Um governo que pressiona outro país observa quem, do lado de dentro, apoia a pressão. O agradecimento de um senador, filho do ex-presidente, sinalizou a Washington que a tarifa tinha torcida no Brasil. Isso enfraquece quem precisa negociar em nome do país.
Quem pagou a conta
Quem sentiu o golpe foi quem exporta. O governo lançou em agosto de 2025 o Plano Brasil Soberano, com R$ 30 bilhões de crédito para os exportadores atingidos, segundo a Agência Brasil. Foi dinheiro público mobilizado para socorrer empresas de uma crise que não criaram. Crédito não devolve o mercado perdido, mas ajuda a empresa a atravessar a crise sem fechar as portas.
O caso da família não parou aí. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, foi condenado pelo STF em 16 de junho de 2026 a 4 anos e 2 meses de prisão por coação. Segundo a Agência Brasil, ele buscou tarifas e sanções americanas para interromper o julgamento do pai. A pressão de fora, portanto, não foi um gesto isolado de um único integrante da família.
Para o exportador, a lição foi dura. Num choque comercial, ele precisa saber que os políticos do próprio país estão do seu lado. Em julho de 2025, ao menos um senador deixou claro que não estava.
Um ano depois, o pedido inverso
Em julho de 2026, o roteiro mudou de sinal. Flávio foi aos Estados Unidos para uma audiência sobre tarifas, segundo a Band. Em 6 e 7 de julho, pediu ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) que suspendesse a nova rodada de tarifas, de 25%. E culpou o governo Lula pela cobrança.
O pedido não evitou a tarifa, que entrou em vigor em 15 de julho. E o eleitor não esqueceu o ano anterior. Para muitos, ficou difícil entender como o mesmo político agradeceu uma tarifa e, um ano depois, pediu a suspensão de outra. Uma pesquisa Quaest mostrou que 42% ficaram mais inclinados a Lula por causa das tarifas, contra 27% em relação a Flávio, segundo a Reuters.
O que diz Flávio: O senador disse à CNN Brasil que se arrependeu da postagem sobre as tarifas de Trump e que por isso a apagou. Em 2026, ao pedir a suspensão das novas tarifas, atribuiu a cobrança ao governo Lula, segundo a Band e a Reuters.
Arrepender-se é um direito, e Flávio exerceu o dele. Mas a política externa não se faz com postagens apagadas. Ela se faz com a postura de quem senta à mesa quando a pressão vem de fora.
Em julho de 2025, diante de uma tarifa contra o próprio país, o primeiro gesto do candidato foi agradecer. Quem pede o voto para negociar com Trump precisa explicar por que, na hora da pressão, ficou do lado de lá. O eleitor de 25 de outubro tem esse registro para pesar.
Fontes
- Flávio também agradeceu a Trump por tarifas em 2025 — SBT News
- Flávio Bolsonaro à CNN: me arrependi da postagem sobre tarifas de Trump — CNN Brasil
- US sanctions Brazil’s Supreme Court justice overseeing case against Bolsonaro — UW–Madison LADD
- Brazil election: Lula, Flávio Bolsonaro, Trump and the Amazon — Axios
- STF condena Eduardo Bolsonaro à inelegibilidade e 4 anos de prisão — Agência Brasil
- Flávio Bolsonaro chega aos Estados Unidos para audiência sobre tarifas — Band
- US tariffs shake up Brazil’s presidential race as candidates trade blame — Reuters via The Star
- Saiba quais são as medidas do Plano Brasil Soberano — Agência Brasil



