Da Casa Branca, a promessa de parcerias de longo prazo em minerais
Flávio prometeu a Trump parcerias de longo prazo em terras raras, com 'investimento protegido'; nenhum compromisso formal aparece no registro público.

Em 26 de maio, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou na Casa Branca como candidato à Presidência — e saiu com uma promessa de Estado. Segundo a CNN Brasil, ele se encontrou naquele dia com o presidente Donald Trump e, no dia seguinte, com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Ali, prometeu parcerias de longo prazo com os Estados Unidos em terras raras, com “investimento protegido”. Ele também pediu que os EUA classificassem como terroristas as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Terras raras são um grupo de metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa. O Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas, a segunda maior do mundo, atrás apenas da China, segundo o site MINING.COM. Na disputa entre Pequim e Washington por esses materiais, promessas brasileiras de longo prazo não passam despercebidas.
O interesse americano já tem fato concreto. Em 20 de abril, a USA Rare Earth fechou acordo para comprar a Serra Verde, de Goiás, por US$ 2,8 bilhões, segundo a Reuters. É a única mina comercial de terras raras do Brasil. O negócio inclui US$ 565 milhões de financiamento do governo americano. Toda a produção vai para um comprador apoiado pelos EUA.
Promessa sem cargo
Flávio não exerce cargo que lhe permita comprometer o país no exterior. Ainda assim, falou da Casa Branca, em plena campanha, e o registro mostra o que ofereceu: o Brasil como alternativa dos Estados Unidos à China, com investimento protegido. Não mostra contrapartida formal. Nenhum tratado ou compromisso oficial foi localizado. E nenhum oficial americano foi localizado oferecendo alívio de tarifas em troca de minerais.
O roteiro começou antes. Em 28 de março, na CPAC, a conferência anual da direita americana no Texas, Flávio já havia oferecido o Brasil como saída dos EUA à dependência da China. A visita de maio levou a oferta ao centro do poder americano.
O contexto comercial pesa. Em 15 de julho, entraram em vigor as tarifas americanas de 25%. Flávio tinha pedido ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês), em 6 e 7 de julho, que as suspendesse. Segundo a Reuters, o acesso dos Estados Unidos aos minerais brasileiros é hoje um dos pontos mais difíceis do grupo de trabalho sobre tarifas criado em setembro.
O tarifaço também virou eleição. Uma pesquisa Quaest verificou efeito político das tarifas: 42% dos eleitores disseram ficar mais inclinados a Lula por causa delas, contra 27% em relação a Flávio.
Ao agro, a viagem a Washington já custou crédito. Líderes do setor, ouvidos pelo jornal O Globo sem se identificar, chamaram a estratégia do candidato de “contraproducente” e disseram que ela pôs a ideologia acima do campo.
Promessa de candidato, porém, não assina tratado. Pela Constituição, o presidente celebra acordos internacionais, mas o Congresso precisa dar o aval. E o Senado aprova cada chefe de missão diplomática permanente. O que ficou registrado em maio não é um compromisso do Estado brasileiro. É a posição de um candidato diante de um governo que negocia com o Brasil de outro lado da mesa.
O plano de Flávio, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra a direção que ele escolheria. Segundo levantamento do Brasil de Fato, prevê capital estrangeiro, transferência de tecnologia e licenciamento mais simples no setor mineral — com o Estado como regulador, e não como dono.
O outro lado da mesa
O governo atual respondeu com regras, não promessas. Em 16 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei cria créditos tributários de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034. Cria também um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões e um conselho que pode revisar aquisições estrangeiras. Em 6 de setembro, Lula tinha dito que o Brasil “não será colônia de ninguém”.
O que diz Flávio: A viagem a Washington foi apresentada pelo próprio candidato como a oferta de parcerias estratégicas de longo prazo em terras raras. Na fala, o Brasil aparece como alternativa dos Estados Unidos à China, com proteção ao investimento, registrou a CNN Brasil.
A eleição de 25 de outubro não mudará o interesse americano — esse veio para ficar. Mudará quem negocia, em nome de quem e com que regras. Um presidente que chega anunciando “investimento protegido” antes da primeira reunião começa a negociação com o preço já estampado. A lei de minerais críticos mostra que o Brasil tem com que barganhar. A pergunta do segundo turno é se o próximo presidente vai usar essa margem de manobra — ou jogá-la fora antes de sentar à mesa.
Fontes
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- USA Rare Earth buys Brazil’s Serra Verde for $2.8 billion — Reuters via Investing.com
- Trump courts Brazil in rare earth supply push — MINING.COM
- Brazil election to reshape trade with US, with tariffs and minerals at stake — Reuters via Internazionale
- Lula sanciona lei que cria política nacional de minerais críticos — JB
- ‘Não seremos colônia de ninguém’, diz Lula em pronunciamento — Poder360
- Quem vai controlar as terras raras do Brasil? — Brasil de Fato
- Agro critica estratégia de Flávio nos EUA e vê senador perder espaço no setor — O Globo via Imirante



