Geopolítica

Na CPAC, Flávio pediu que o "mundo livre" vigiasse a eleição brasileira

Depois do apelo no Texas, o candidato repetiu a embaixadores tese falsa que liga as urnas à Smartmatic; o TSE nega que a empresa forneça urnas ao Brasil.

O senador Flávio Bolsonaro discursa à tribuna do plenário do Senado Federal, em Brasília.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em discurso à tribuna do Senado Federal, em Brasília, em 1º de setembro de 2026.Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No dia 28 de março, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) subiu ao palco da CPAC, a conferência anual da direita americana, realizada no Texas. Candidato à Presidência, disse que o Brasil é a saída americana para a dependência da China em terras raras, os metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa. E fez um pedido: que o “mundo livre” vigiasse a eleição brasileira.

O Poder360 publicou a íntegra do discurso. Segundo o Metrópoles, a fala sobre terras raras revoltou a esquerda. Boulos e Lindbergh acusaram o candidato de oferecer recursos brasileiros em troca de apoio estrangeiro. A oferta tem endereço concreto. O Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, a segunda maior do mundo, atrás apenas da China, segundo o site MINING.COM.

O tema já está na mesa comercial entre os dois países. Segundo a Reuters, o acesso dos Estados Unidos aos minerais brasileiros é um dos pontos mais difíceis do grupo de trabalho sobre tarifas criado em setembro. Foi nessa mesa que o candidato escolheu fazer a oferta de campanha. E pediu, no mesmo discurso, que o exterior acompanhasse o resultado das urnas. O pedido não é abstrato: as tarifas americanas de 25% passaram a valer em 15 de julho.

Um roteiro que se repete

O apelo à vigilância externa não parou no Texas. Em 21 de julho, em almoço com embaixadores estrangeiros, Flávio voltou ao tema. Segundo o Metrópoles, ele afirmou que as urnas eletrônicas brasileiras estariam ligadas à Smartmatic, empresa de tecnologia eleitoral. E pediu observadores internacionais para a eleição.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirma que a Smartmatic nunca forneceu urnas ao Brasil. A campanha disse que o candidato confia no sistema eleitoral, mas não corrigiu a informação falsa, relatou o Metrópoles.

O roteiro é conhecido na família. O pai de Flávio foi tornado inelegível pelo TSE depois de reunião semelhante com embaixadores estrangeiros. O próprio candidato alterna ataques e recuos desde 2022, registrou o Jornal de Brasília. Naquele ano, disse que fraude não tinha acontecido, mas poderia ter acontecido. Em 2023, assinou proposta de voto impresso; em 2024, chamou o assunto de página virada. Em março, disse que só venceria a eleição se os votos fossem apurados corretamente.

A família já levou a causa ao exterior por vias mais duras. Em junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, a quatro anos e dois meses de prisão por coação. Segundo a Agência Brasil, ele buscou tarifas e sanções americanas para travar o julgamento do pai.

Soberania em disputa

A Constituição lista a independência nacional e a não intervenção entre os princípios das relações exteriores do Brasil. Um candidato que pede ao “mundo livre” que vigie a eleição do próprio país inverte essa ordem. Ao fazê-lo de um palco americano, transfere a um foro externo o selo de legitimidade do voto brasileiro.

O gesto também tem custo na negociação comercial. Quem apresenta a própria eleição como coisa a ser vigiada entrega ao interlocutor um argumento perigoso: o de que o resultado brasileiro é contestável — e, portanto, negociável. Na corrida pelos minerais, Washington já sabe o que quer do Brasil. O registro público do discurso mostra o que o candidato oferece: o país como alternativa a Pequim.

O segundo turno de 25 de outubro coloca a escolha diante do eleitor. De um lado, o candidato que pediu vigilância externa e ofereceu os minerais como ponte com Washington. Do outro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele afirmou, em 6 de setembro, que o Brasil “não será colônia de ninguém”. Dias depois, sancionou uma política nacional de minerais críticos, com um conselho capaz de revisar aquisições estrangeiras.

O que diz a campanha de Flávio: A campanha afirma que o candidato confia no sistema eleitoral brasileiro, mas não corrigiu a afirmação falsa sobre a Smartmatic, segundo o Metrópoles. Sobre a CPAC, o enquadramento da campanha é o de uma parceria com o “mundo livre”.

Para quem acompanha a política externa, o discurso do Texas é uma peça de campanha com valor de doutrina. Ele diz ao eleitor de 25 de outubro o que um eventual governo Flávio entende por soberania. Um país que se apresenta ao exterior como oportunidade mineral — e pede a esse mesmo exterior a vigilância da própria eleição.

Fontes