Geopolítica

Documento com a marca da campanha de Flávio propõe aliança mineral com os EUA

A apresentação vazada 'Prosperity Partnership', de 22 páginas, propõe aliança mineral com os EUA, mudanças nas regras de mineração e até US$ 100 bilhões.

A cava em degraus da mina Serra N1, no complexo mineral de Carajás, no Pará.
Mina Serra N1, no complexo mineral de Carajás, no Pará, em foto de arquivo de fevereiro de 2016.Foto: IsabeleC / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 12 de setembro, o Estado de Minas revelou um documento de 22 páginas com a marca “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign”. Batizado de “Prosperity Partnership”, o material propõe uma aliança mineral entre Brasil e Estados Unidos. Prevê ainda mudanças nas regras brasileiras de mineração e investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões.

Segundo o jornal, o autor é André Marinho, do partido Novo. Ele afirma que a apresentação foi um exercício pessoal e que nunca foi enviada a ninguém. O Estado de Minas não registrou resposta da campanha de Flávio Bolsonaro ao material.

O documento não é programa de governo. O próprio autor o caracteriza como exercício pessoal, nunca enviado. Ainda assim, o vazamento expõe o que chegou a ser desenhado em nome da campanha: uma aliança mineral pronta, com valores, mudanças regulatórias e endereço em Washington.

O episódio revela, além do conteúdo, o método. No entorno da disputa presidencial, alguém desenhou o Brasil mineral a partir de Washington — e com números de dezenas de bilhões. O documento não é a política oficial da candidatura. Mas mostra o tamanho da aposta em jogo na reta final da campanha.

Um padrão que vem de março

O material não nasce no vácuo. Em 28 de março, na CPAC, a conferência anual da direita americana no Texas, Flávio ofereceu o Brasil como saída dos EUA à dependência da China em terras raras. Terras raras são os metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa. Em 26 e 27 de maio, na Casa Branca e com o secretário de Estado Marco Rubio, prometeu parcerias de longo prazo com “investimento protegido”, registrou a CNN Brasil.

O assunto ganhou peso na mesa comercial. Em 9 de outubro, segundo a Reuters, o acesso dos EUA aos minerais brasileiros virou um dos pontos mais difíceis do grupo de trabalho sobre tarifas criado em setembro. O que o próximo presidente decidir sobre esses minerais entrará na negociação comercial mais sensível do momento.

A aproximação com Washington ganhou outro capítulo em setembro. Segundo a CNN Brasil, o PT pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a apuração de um suposto custeio estrangeiro da campanha por meio da Rockbridge Network, grupo co-fundado por J.D. Vance. Não há prova de que dinheiro estrangeiro tenha chegado à campanha. Trata-se de uma suspeita levada ao tribunal pelo partido.

O que o candidato assumiu

O que Flávio efetivamente assumiu está no plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo levantamento do Brasil de Fato, o plano prevê mais processamento de minério dentro do Brasil, entrada de capital estrangeiro, transferência de tecnologia e licenciamento ambiental mais simples. No desenho, o Estado aparece como regulador, e não como dono.

O governo atual pôs a questão em lei antes da eleição. Em 16 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei prevê créditos tributários de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034. Prevê também um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões e um conselho que pode revisar aquisições estrangeiras de empresas do setor. A proposta nasceu no Congresso, de autoria de um deputado do União, partido de centro-direita, segundo o O Tempo. Na sanção, Lula criticou adversários que, em suas palavras, “caíram de joelho” aos EUA.

A diferença para o documento vazado está no desenho. A lei arma o Estado de contrapesos, com um conselho que pode revisar aquisições estrangeiras. O material de 22 páginas parte do outro extremo. Nele, as mudanças nas regras de mineração vêm embutidas na própria aliança com os EUA.

O que diz o autor do documento: André Marinho, do partido Novo, afirma que a apresentação “Prosperity Partnership” foi um exercício pessoal e que nunca foi enviada, segundo o Estado de Minas. O jornal não registrou resposta da campanha de Flávio Bolsonaro.

Ficam o documento de 22 páginas, o silêncio da campanha diante dele e o roteiro que o antecedeu. Mas, a nove dias do segundo turno, o eleitor que segue a política externa já viu o desenho completo. Há um documento com a marca da campanha. Há um candidato que prometeu parcerias de longo prazo da Casa Branca. E há a pergunta de fundo: quem escreve as regras dos minerais brasileiros, e com quem. A resposta começa a se desenhar no domingo, 25 de outubro, na escolha do próximo presidente.

Fontes