Documento com a marca da campanha de Flávio propõe aliança mineral com os EUA
A apresentação vazada 'Prosperity Partnership', de 22 páginas, propõe aliança mineral com os EUA, mudanças nas regras de mineração e até US$ 100 bilhões.

Em 12 de setembro, o Estado de Minas revelou um documento de 22 páginas com a marca “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign”. Batizado de “Prosperity Partnership”, o material propõe uma aliança mineral entre Brasil e Estados Unidos. Prevê ainda mudanças nas regras brasileiras de mineração e investimentos de US$ 50 bilhões a US$ 100 bilhões.
Segundo o jornal, o autor é André Marinho, do partido Novo. Ele afirma que a apresentação foi um exercício pessoal e que nunca foi enviada a ninguém. O Estado de Minas não registrou resposta da campanha de Flávio Bolsonaro ao material.
O documento não é programa de governo. O próprio autor o caracteriza como exercício pessoal, nunca enviado. Ainda assim, o vazamento expõe o que chegou a ser desenhado em nome da campanha: uma aliança mineral pronta, com valores, mudanças regulatórias e endereço em Washington.
O episódio revela, além do conteúdo, o método. No entorno da disputa presidencial, alguém desenhou o Brasil mineral a partir de Washington — e com números de dezenas de bilhões. O documento não é a política oficial da candidatura. Mas mostra o tamanho da aposta em jogo na reta final da campanha.
Um padrão que vem de março
O material não nasce no vácuo. Em 28 de março, na CPAC, a conferência anual da direita americana no Texas, Flávio ofereceu o Brasil como saída dos EUA à dependência da China em terras raras. Terras raras são os metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa. Em 26 e 27 de maio, na Casa Branca e com o secretário de Estado Marco Rubio, prometeu parcerias de longo prazo com “investimento protegido”, registrou a CNN Brasil.
O assunto ganhou peso na mesa comercial. Em 9 de outubro, segundo a Reuters, o acesso dos EUA aos minerais brasileiros virou um dos pontos mais difíceis do grupo de trabalho sobre tarifas criado em setembro. O que o próximo presidente decidir sobre esses minerais entrará na negociação comercial mais sensível do momento.
A aproximação com Washington ganhou outro capítulo em setembro. Segundo a CNN Brasil, o PT pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a apuração de um suposto custeio estrangeiro da campanha por meio da Rockbridge Network, grupo co-fundado por J.D. Vance. Não há prova de que dinheiro estrangeiro tenha chegado à campanha. Trata-se de uma suspeita levada ao tribunal pelo partido.
O que o candidato assumiu
O que Flávio efetivamente assumiu está no plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo levantamento do Brasil de Fato, o plano prevê mais processamento de minério dentro do Brasil, entrada de capital estrangeiro, transferência de tecnologia e licenciamento ambiental mais simples. No desenho, o Estado aparece como regulador, e não como dono.
O governo atual pôs a questão em lei antes da eleição. Em 16 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei prevê créditos tributários de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034. Prevê também um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões e um conselho que pode revisar aquisições estrangeiras de empresas do setor. A proposta nasceu no Congresso, de autoria de um deputado do União, partido de centro-direita, segundo o O Tempo. Na sanção, Lula criticou adversários que, em suas palavras, “caíram de joelho” aos EUA.
A diferença para o documento vazado está no desenho. A lei arma o Estado de contrapesos, com um conselho que pode revisar aquisições estrangeiras. O material de 22 páginas parte do outro extremo. Nele, as mudanças nas regras de mineração vêm embutidas na própria aliança com os EUA.
O que diz o autor do documento: André Marinho, do partido Novo, afirma que a apresentação “Prosperity Partnership” foi um exercício pessoal e que nunca foi enviada, segundo o Estado de Minas. O jornal não registrou resposta da campanha de Flávio Bolsonaro.
Ficam o documento de 22 páginas, o silêncio da campanha diante dele e o roteiro que o antecedeu. Mas, a nove dias do segundo turno, o eleitor que segue a política externa já viu o desenho completo. Há um documento com a marca da campanha. Há um candidato que prometeu parcerias de longo prazo da Casa Branca. E há a pergunta de fundo: quem escreve as regras dos minerais brasileiros, e com quem. A resposta começa a se desenhar no domingo, 25 de outubro, na escolha do próximo presidente.
Fontes
- Terras raras: plano com marca de Flávio Bolsonaro prevê parceria com EUA — Estado de Minas
- PT aciona STF para apurar suposto custeio estrangeiro à campanha de Flávio — CNN Brasil
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Brazil election to reshape trade with US, with tariffs and minerals at stake — Reuters via Internazionale
- Lula sanciona lei que cria política nacional de minerais críticos — JB
- Lula sanciona lei dos minerais críticos e critica adversários que ‘caíram de joelho’ aos EUA — O Tempo
- Quem vai controlar as terras raras do Brasil? — Brasil de Fato



