O Brasil não precisa escolher entre Washington e Pequim
Opinião: a China recebe quase 30% das exportações brasileiras, e a União Europeia cresce 30,7% com o acordo do Mercosul. Diversificar é o caminho.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Opinião. Este texto expressa a posição da Revista Soberania, e não é reportagem.
Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil vendeu US$ 84,6 bilhões para a China. Foi quase 30% de tudo o que o país exportou no período, que somou US$ 284,6 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
A conta desmonta a ideia de que o Brasil precisa escolher um lado. O país já vende para a China, para os Estados Unidos e para a Europa, em volumes grandes. O desafio é transformar essa diversidade em proteção, e não em tema de campanha.
Os números mostram mais de um mercado
As vendas aos Estados Unidos somaram US$ 27,46 bilhões de janeiro a setembro. Foi uma queda de 6,5%, segundo a Amcham Brasil, a Câmara Americana de Comércio, com base no Comex Stat, o sistema de estatísticas do comércio exterior do MDIC. No acumulado, o volume embarcado caiu 17,9%, enquanto o preço médio subiu 13,8%.
A União Europeia (UE) comprou US$ 44,17 bilhões do Brasil no mesmo período, alta de 20%. Desde 1º de maio, o acordo entre o Mercosul e a UE está em vigor de forma provisória. O Mercosul é o bloco que o Brasil forma com Argentina, Uruguai e Paraguai.
De maio a setembro, as exportações brasileiras para a UE subiram 30,7%, segundo dados apresentados pelo ministro Márcio Elias Rosa em 13 de outubro. Em nove meses, a Europa comprou cerca de US$ 16,7 bilhões a mais que os Estados Unidos. Diversificar não é slogan. É proteção contra a decisão de um único governo.
O mercado americano também mostra esse risco. Em setembro, os Estados Unidos compraram 44,44 mil toneladas de carne bovina in natura, ou seja, sem processamento industrial, do Brasil. É o maior volume já registrado, segundo a Secex. Com os produtos processados, o total chegou a 48,3 mil toneladas. Segundo a Brasil Agro, o salto veio de uma isenção temporária de tarifa anunciada pelo presidente Donald Trump.
O argumento de Flávio, e o risco de Pequim
O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, aponta três parceiros prioritários: Estados Unidos, Argentina e Israel. O texto também diz que o país vai negociar “com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos”. Segundo a Agência Brasil, o plano não cita o Brics nem o Mercosul na parte sobre parceiros.
O argumento da campanha tem base real. O plano diz que, nos últimos anos, as relações com Argentina, EUA e Israel foram “levadas ao limite do rompimento”. Em evento em Brasília, no dia 8 de outubro, Flávio disse que não vai escolher entre as potências, segundo a Bloomberg. A China, afirmou ele, seria tratada como os demais parceiros.
Nesse ponto, a campanha e esta revista concordam: o Brasil não deve escolher lado. A divergência está na prática. Um plano que cita a Argentina, mas omite o Mercosul, bloco de que a própria Argentina faz parte, não mostra como manter as portas abertas.
O risco de Pequim é real, e a oposição acerta ao apontá-lo. A soja é o principal produto vendido à China, segundo a Agrolink. Depois que o Brasil atingiu a cota anual de 1,1 milhão de toneladas, a China passou a cobrar 55% de tarifa extra sobre a carne bovina brasileira. As vendas de carne ao país caíram 93,5% no mês, segundo dados do MDIC citados pelo SBT News. A ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) resumiu o problema na GloboNews: “O agro que exporta tem uma relação com a China muito forte, porque ela é a nossa maior compradora.”
O que diz Flávio Bolsonaro: Em evento em Brasília, em 8 de outubro, disse que não vai escolher entre as potências e que seu lado será o povo brasileiro, segundo a Bloomberg. O plano de governo diz que o país negociará “com todos os que interessam ao Brasil”. A Revista Soberania não enviou perguntas à campanha; as posições são públicas.
O que fica em aberto
A eleição define quem governa a partir de 2027, mas a política comercial não começa do zero. O acordo com a UE está em vigor de forma provisória, e as tarifas americanas seguem em discussão. Quem assumir terá de negociar com os três grandes mercados ao mesmo tempo.
A resposta que os números sugerem não é escolher um lado. É vender a todos, com regras próprias, e reduzir a dependência de qualquer comprador único, seja ele Washington, Pequim ou Bruxelas. Vender mais para a Europa não significa vender menos para a China ou para os Estados Unidos. A soma dos mercados é o que protege o produtor brasileiro quando uma tarifa ou uma cota muda de um dia para o outro. Em 2026, o Brasil já mostrou que essa estratégia funciona.
Como fizemos: Usamos a balança comercial de janeiro a setembro de 2026, divulgada pela Secex (MDIC), e dados do Comex Stat e da Amcham Brasil sobre os Estados Unidos, acessados em 23 de outubro de 2026. Os valores para a China (US$ 84,6 bilhões) vêm de reportagem da Agrolink; não conseguimos abrir a base do MDIC diretamente. As participações (cerca de 30% para a China, 15,5% para a UE e 9,6% para os EUA) são nossos cálculos sobre o total de exportações. Não tentamos separar o efeito das tarifas de outros fatores, como o preço do petróleo e da soja.
Fontes
- Comércio entre Brasil e China bate recorde em 2026 — Agrolink (acesso em 23/10/2026)
- Exportações à UE crescem 30,7% após acordo com Mercosul — Mercado & Consumo (acesso em 23/10/2026)
- Navio cargueiro atracado no Porto de Santos - 2024 (foto) — Wikimedia Commons (acesso em 23/10/2026)
- Exportações de carne bovina do Brasil aos Estados Unidos batem recorde — Brasil Agro (acesso em 23/10/2026)
- Após cota de carne, exportações para a China caem 7,6% — SBT News (acesso em 23/10/2026)
- Lula e Flávio apresentam propostas distintas para política externa — Agência Brasil, via Diário do Grande ABC (acesso em 23/10/2026)
- Flávio Bolsonaro promete trabajar con EE. UU. y China: “no voy a elegir bandos” — La República, com despacho da Bloomberg (acesso em 23/10/2026)
- Tereza Cristina: se eleito, Flávio Bolsonaro terá de equilibrar relação com China e EUA — Diário do Grande ABC (acesso em 23/10/2026)
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), balança comercial e Secex (acesso em 23/10/2026)
- Comex Stat — estatísticas do comércio exterior, MDIC (acesso em 23/10/2026)
- Amcham Brasil — Câmara Americana de Comércio (acesso em 23/10/2026)



