Opinião

O Brasil não precisa escolher entre Washington e Pequim

Opinião: a China recebe quase 30% das exportações brasileiras, e a União Europeia cresce 30,7% com o acordo do Mercosul. Diversificar é o caminho.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Navio cargueiro de casco preto atracado em terminal do Porto de Santos, com guindastes e correias de embarque ao fundo.
Navio cargueiro atracado no Porto de Santos, em abril de 2024.Foto: Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Opinião. Este texto expressa a posição da Revista Soberania, e não é reportagem.

Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil vendeu US$ 84,6 bilhões para a China. Foi quase 30% de tudo o que o país exportou no período, que somou US$ 284,6 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

A conta desmonta a ideia de que o Brasil precisa escolher um lado. O país já vende para a China, para os Estados Unidos e para a Europa, em volumes grandes. O desafio é transformar essa diversidade em proteção, e não em tema de campanha.

Os números mostram mais de um mercado

As vendas aos Estados Unidos somaram US$ 27,46 bilhões de janeiro a setembro. Foi uma queda de 6,5%, segundo a Amcham Brasil, a Câmara Americana de Comércio, com base no Comex Stat, o sistema de estatísticas do comércio exterior do MDIC. No acumulado, o volume embarcado caiu 17,9%, enquanto o preço médio subiu 13,8%.

A União Europeia (UE) comprou US$ 44,17 bilhões do Brasil no mesmo período, alta de 20%. Desde 1º de maio, o acordo entre o Mercosul e a UE está em vigor de forma provisória. O Mercosul é o bloco que o Brasil forma com Argentina, Uruguai e Paraguai.

De maio a setembro, as exportações brasileiras para a UE subiram 30,7%, segundo dados apresentados pelo ministro Márcio Elias Rosa em 13 de outubro. Em nove meses, a Europa comprou cerca de US$ 16,7 bilhões a mais que os Estados Unidos. Diversificar não é slogan. É proteção contra a decisão de um único governo.

O mercado americano também mostra esse risco. Em setembro, os Estados Unidos compraram 44,44 mil toneladas de carne bovina in natura, ou seja, sem processamento industrial, do Brasil. É o maior volume já registrado, segundo a Secex. Com os produtos processados, o total chegou a 48,3 mil toneladas. Segundo a Brasil Agro, o salto veio de uma isenção temporária de tarifa anunciada pelo presidente Donald Trump.

O argumento de Flávio, e o risco de Pequim

O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, aponta três parceiros prioritários: Estados Unidos, Argentina e Israel. O texto também diz que o país vai negociar “com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos”. Segundo a Agência Brasil, o plano não cita o Brics nem o Mercosul na parte sobre parceiros.

O argumento da campanha tem base real. O plano diz que, nos últimos anos, as relações com Argentina, EUA e Israel foram “levadas ao limite do rompimento”. Em evento em Brasília, no dia 8 de outubro, Flávio disse que não vai escolher entre as potências, segundo a Bloomberg. A China, afirmou ele, seria tratada como os demais parceiros.

Nesse ponto, a campanha e esta revista concordam: o Brasil não deve escolher lado. A divergência está na prática. Um plano que cita a Argentina, mas omite o Mercosul, bloco de que a própria Argentina faz parte, não mostra como manter as portas abertas.

O risco de Pequim é real, e a oposição acerta ao apontá-lo. A soja é o principal produto vendido à China, segundo a Agrolink. Depois que o Brasil atingiu a cota anual de 1,1 milhão de toneladas, a China passou a cobrar 55% de tarifa extra sobre a carne bovina brasileira. As vendas de carne ao país caíram 93,5% no mês, segundo dados do MDIC citados pelo SBT News. A ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) resumiu o problema na GloboNews: “O agro que exporta tem uma relação com a China muito forte, porque ela é a nossa maior compradora.”

O que diz Flávio Bolsonaro: Em evento em Brasília, em 8 de outubro, disse que não vai escolher entre as potências e que seu lado será o povo brasileiro, segundo a Bloomberg. O plano de governo diz que o país negociará “com todos os que interessam ao Brasil”. A Revista Soberania não enviou perguntas à campanha; as posições são públicas.

O que fica em aberto

A eleição define quem governa a partir de 2027, mas a política comercial não começa do zero. O acordo com a UE está em vigor de forma provisória, e as tarifas americanas seguem em discussão. Quem assumir terá de negociar com os três grandes mercados ao mesmo tempo.

A resposta que os números sugerem não é escolher um lado. É vender a todos, com regras próprias, e reduzir a dependência de qualquer comprador único, seja ele Washington, Pequim ou Bruxelas. Vender mais para a Europa não significa vender menos para a China ou para os Estados Unidos. A soma dos mercados é o que protege o produtor brasileiro quando uma tarifa ou uma cota muda de um dia para o outro. Em 2026, o Brasil já mostrou que essa estratégia funciona.

Como fizemos: Usamos a balança comercial de janeiro a setembro de 2026, divulgada pela Secex (MDIC), e dados do Comex Stat e da Amcham Brasil sobre os Estados Unidos, acessados em 23 de outubro de 2026. Os valores para a China (US$ 84,6 bilhões) vêm de reportagem da Agrolink; não conseguimos abrir a base do MDIC diretamente. As participações (cerca de 30% para a China, 15,5% para a UE e 9,6% para os EUA) são nossos cálculos sobre o total de exportações. Não tentamos separar o efeito das tarifas de outros fatores, como o preço do petróleo e da soja.

Fontes