Brasil exporta petróleo, mas o governo paga para importar diesel
Com o Brent perto de US$ 115, a subvenção de R$ 3,52 por litro ao diesel importado tem custo estimado de R$ 1,6 bilhão em 30 dias.

Nesta sexta-feira (23), o barril de Brent, petróleo de referência do mercado internacional, passou de US$ 115. É o maior nível desde maio, segundo o Jornal Económico, de Portugal. O mercado reagiu a notícias de que os Estados Unidos podem voltar a atacar o Irã, e a relatos de ataques a navios no Estreito de Ormuz.
O Brasil vive uma contradição. Em setembro, as vendas de petróleo bruto ao exterior subiram 77,3% em dólares, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Ao mesmo tempo, o país compra diesel de fora, e o governo paga para manter essa compra.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), 33% do diesel consumido no país é importado. Para garantir o abastecimento, o governo usa a subvenção, que é dinheiro público para reduzir o custo de quem importa. Em 13 de outubro, a Portaria nº 3.082 do Ministério da Fazenda somou R$ 1,40 por litro. O total para importadores subiu de R$ 2,12 para R$ 3,52 por litro, pelo prazo de 30 dias.
Quanto custa o litro no posto
Os levantamentos divergem porque usam métodos diferentes. A tabela reúne os três levantamentos disponíveis para o diesel S10, que tem até 10 partes por milhão de enxofre. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o preço do S10 subiu 21,29% em 12 meses.
Diesel S10 no posto, em R$ por litro Três levantamentos de setembro e outubro de 2026, com métodos diferentes
| Levantamento | Período | R$ por litro |
|---|---|---|
| Edenred Ticket Log | 1ª quinzena de outubro | 7,46 |
| ANP | 27/9 a 3/10 | 7,35 |
| TruckPag | 1ª quinzena de outubro | 6,94 |
Fontes: Edenred Ticket Log, via CNN Brasil; ANP, via Garagem360; TruckPag, via Cenário Energia. Elaboração: redação.
Quem paga a diferença
O ponto central é a defasagem: a diferença entre o diesel da Petrobras nas refinarias e o preço de importação, chamado de paridade. Segundo a Abicom, entidade que reúne importadores, a defasagem chegou a R$ 3,50 por litro em 19 de outubro, com o Brent a US$ 111. O valor quase empata com os R$ 3,52 da subvenção.
Na prática, o subsídio cobre quase toda essa diferença. Em 16 de setembro, a Petrobras afirmou que os “preços de venda da Petrobras para as distribuidoras permanecerão inalterados”. A estatal também importa. Segundo a Abicom, citada pela Reuters, ela responderia por cerca de 75% das importações de outubro, previsão da época.
Os recursos vão a importadores habilitados na ANP. Se a Petrobras estiver habilitada, ela também recebe. Em 20 de outubro, a deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) pediu informações ao Ministério de Minas e Energia. Segundo o Atlas Público, ela diz que a portaria não traz nota técnica e que a medida atinge primeiro as refinarias privadas.
O que diz o Ministério de Minas e Energia (MME): Segundo a Agência Gov, “o abastecimento de óleo diesel no mercado brasileiro no mês de outubro está garantido”. Não encontramos resposta pública do ministério às críticas da deputada até a publicação desta reportagem.
O que fica em aberto
Três prazos definem a conta. O segundo turno da eleição presidencial é em 25 de outubro. A subvenção vale até 11 de novembro, e a prorrogação ainda não tem data confirmada. No cenário-base do Goldman Sachs, a Petrobras mantém o preço do diesel até o fim do ano. O banco, porém, vê possível alta de até 50% depois da eleição.
Sem subsídio, o preço pode subir. O Goldman Sachs estima, em cenário extremo, alta de cerca de R$ 1,80 por litro. O petróleo caro favorece quem vende, e o Brasil vende mais. Mas o diesel depende de compra externa e de dinheiro público para não encarecer. Quando o subsídio acabar, o custo pode chegar ao consumidor.
Como fizemos: Usamos a pesquisa da ANP (27/9 a 3/10), o Índice Edenred Ticket Log (1ª quinzena de outubro), a TruckPag (1ª quinzena), a Abicom (19/10), a Reuters (16/9), os dados do MDIC para setembro (divulgados em 6/10), a Portaria MF 3.082, a nota do MME e o comunicado da Petrobras de 16/9, acessados em 23/10/2026. Não fizemos cálculos próprios. As fontes de preço usam métodos diferentes, por isso as mostramos lado a lado. Não conseguimos abrir as planilhas semanais da ANP, e o valor vem de reprodução em portal. Os preços projetados pelo Goldman Sachs não entraram, porque não batem com a defasagem da Abicom. Não enviamos perguntas à Petrobras, à Abicom ou ao MME; as posições citadas são públicas.
Fontes
- Agência Gov — notícia sobre a subvenção ao diesel importado, 13/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Metrópoles — Governo publica portaria com adicional de R$ 1,40 na subvenção ao diesel (acesso em 23/10/2026)
- Petrobras — Petrobras informa sobre preços de diesel (acesso em 23/10/2026)
- Garagem360 — Diesel já custa R$ 0,80 mais que gasolina após subir 21,3% em um ano (acesso em 23/10/2026)
- CNN Brasil — Preço do diesel dispara 6,67% em outubro e chega a R$ 7,20, aponta pesquisa (acesso em 23/10/2026)
- Cenário Energia — Diesel acumula alta de 20,1% em 2026, apesar de estabilidade em outubro (acesso em 23/10/2026)
- CNN Brasil — Abicom: diesel da Petrobras se aproxima ao subsídio com alta do Brent (acesso em 23/10/2026)
- Eixos — Diesel para de subir nas bombas, mas a defasagem já encosta no subsídio (acesso em 23/10/2026)
- Forbes Brasil — Defasagem de preços da Petrobras volta a elevar riscos na oferta de diesel no país (Reuters) (acesso em 23/10/2026)
- Folha PE — Balança comercial tem superávit de US$ 7,74 bilhões em setembro (Agência Brasil) (acesso em 23/10/2026)
- Jornal Económico — Petróleo atinge 115 dólares pela primeira vez desde maio (acesso em 23/10/2026)
- Metrópoles — Petróleo tem nova alta após ataque a sete navios no Estreito de Ormuz (acesso em 23/10/2026)
- BPMoney — Goldman vê diesel da Petrobras podendo subir até 50% após o 2º turno (acesso em 23/10/2026)
- Atlas Público — Coronel Fernanda pede ao Ministério de Minas e Energia dados sobre subvenção extra ao diesel importado (acesso em 23/10/2026)
- Wikimedia Commons — Posto de combustível Petrobrás.JPG (Moacir Ximenes, CC BY 3.0 br) (acesso em 23/10/2026)



