Geopolítica

Ormuz, Suez e Panamá: os gargalos do mar que pesam no Brasil

Quando um canal ou estreito trava, como Ormuz desde março de 2026, sobem frete, seguro e petróleo, e o custo chega a quem exporta e importa no Brasil.

Ilustração provisória e abstrata: globo de meridianos e paralelos cruzado por arcos de rotas, em roxo e dourado.
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 2 de março de 2026, a Guarda Revolucionária do Irã declarou fechado o Estreito de Ormuz, na saída do Golfo Pérsico. O anúncio veio depois de ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, iniciados dois dias antes, informou a Agência Brasil. Por ali passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo a cada dia.

O efeito chegou rápido ao preço. O barril do tipo Brent, referência internacional, saiu de cerca de US$ 70 antes dos ataques para US$ 119 na segunda semana de março. Os números estão em análise publicada no site The Conversation. Mesmo quem não compra petróleo do Golfo sente a alta, porque o preço é formado no mercado mundial.

O que é um gargalo

Gargalos marítimos são passagens estreitas por onde se concentra o tráfego de navios. Quando uma delas fecha ou fica perigosa, os navios esperam ou fazem rotas mais longas. Isso encarece o frete, que é o preço do transporte, e o seguro das cargas.

O Canal do Panamá liga o Atlântico ao Pacífico. O Canal de Suez liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, que termina no estreito de Bab el-Mandeb, entre o Iêmen e o Chifre da África. Na Ásia, o Estreito de Malaca, entre a Malásia e a Indonésia, é a passagem entre o Oceano Índico e o mar da China.

Quando Suez não é opção, navios entre Ásia e Europa contornam o Cabo da Boa Esperança, no sul da África. A viagem fica mais longa e mais cara.

O que já aconteceu

Os últimos anos mostraram esse efeito em cadeia. Entre 2023 e 2024, uma seca baixou o nível de água do Canal do Panamá e reduziu as travessias diárias. Ao mesmo tempo, ataques a navios no Mar Vermelho afastaram cargas de Suez.

Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), as travessias pelos dois canais caíram mais da metade até junho de 2024, em relação aos picos. A agência calculou que, se a crise persistisse, os preços ao consumidor no mundo poderiam subir 0,6% até 2025.

Por que importa para o Brasil

O Brasil depende do mar para vender e comprar. Soja, minério e petróleo seguem em grandes navios para a Ásia, e combustíveis e fertilizantes chegam do exterior. Tudo isso tem preço definido no mercado mundial, com o frete embutido.

Na crise de Ormuz, a instabilidade “encareceu fretes e seguros marítimos”, segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). O estudo foi divulgado em março pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e citou navios parados na costa de Omã e dos Emirados Árabes Unidos.

Em setembro, as exportações de petróleo do Golfo voltaram ao nível de antes da guerra em parte dos dias. O dado é da empresa Kpler, citada pela agência Reuters. Os ataques a petroleiros, porém, continuavam no início de outubro. Em 14 de setembro, uma reunião entre países do Golfo, Irã e Omã sobre a reabertura do estreito foi adiada, segundo a Agência Brasil.

O que diz a UNCTAD: No relatório Review of Maritime Transport 2024, a agência da ONU afirma que a mudança de rotas para fugir do Mar Vermelho e do Canal do Panamá aumentou custos, atrasos e emissões de carbono. O órgão também alerta para a vulnerabilidade das cadeias de suprimento quando esses pontos de passagem ficam sob pressão.

Os gargalos ficam longe do Brasil, mas o efeito chega ao porto, à lavoura e à bomba de combustível. Acompanhar Ormuz e o Mar Vermelho é acompanhar parte do custo de produzir e de consumir no país. Enquanto a navegação no Golfo não se normalizar, frete e seguro seguem como incógnitas para importadores e exportadores.

Fontes