Safra recorde depende de adubo importado; o Estado precisa investir
A importação de ureia caiu 21,5% até setembro, mas o Brasil segue dependente. Sem produção suficiente, o produtor do interior paga o frete e a guerra.
Comentário assinado. A posição expressa neste texto pertence ao autor e não representa necessariamente a linha editorial da Revista Soberania.

Em relatório de outubro, o Itaú BBA informou que o Brasil comprou 3,5 milhões de toneladas de ureia no exterior de janeiro a setembro de 2026. A queda foi de 21,5%, segundo a Revista Cultivar. À primeira vista, é boa notícia. Mas a dependência continua alta.
A ureia é um adubo nitrogenado, feito com gás natural. Em outubro, ela era negociada a US$ 470 por tonelada na condição CFR Brasil. Essa sigla significa custo e frete: o preço já inclui o transporte até o porto brasileiro.
Desde março de 2026, o conflito no Oriente Médio afeta o Estreito de Ormuz, passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o mar aberto. Antes da guerra, a via movimentava cerca de um terço da ureia comercializada no mundo, segundo a Forbes Agro.
Em 14 de outubro, o subsecretário-geral da ONU, Jorge Moreira da Silva, disse que a passagem de cinco navios por dia bastaria para manter o fluxo de fertilizantes. O plano da ONU não saiu do papel, porque Estados Unidos e Irã não fecharam acordo.
O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em março de 2022, previa reduzir de 85% para 45% a fatia importada até 2050, mesmo com a demanda dobrando. Mais de quatro anos depois, a meta parece distante.
Importar menos não é ter autonomia
Em 2021, a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) contou 39,2 milhões de toneladas importadas de um total de 45,8 milhões usadas no país. Foi cerca de 85%. Em maio de 2026, a Agência Brasil escreveu que o Brasil depende de importações para 85% a 90% dos fertilizantes que consome.
As fontes usam métodos diferentes, mas nenhuma mostra queda clara desde 2021. Além disso, a queda de 21,5% nas compras de ureia não prova autonomia. No primeiro semestre, a própria Anda registrou entregas de 19,02 milhões de toneladas, 5,4% a menos que no mesmo período de 2025. Importar menos, com menos adubo chegando ao produtor, indica aperto, não independência.
O argumento contra o investimento público
Há uma objeção séria, e ela precisa ser respondida. A Anda atribui a queda a fatores como o cenário geopolítico, a escassez de crédito, os juros elevados, os riscos de recuperações judiciais e o El Niño, fenômeno climático. Parte do problema, portanto, é financeira, e não só logística.
Outra objeção é que o investimento deve vir do setor privado, sem o Estado. Crédito caro é um problema real, e o Estado pode enfrentá-lo. Mas capital privado sozinho não resolve a questão de fundo.
O caso de Autazes, no Amazonas, mostra o outro lado. A Brazil Potash, empresa canadense, quer explorar potássio, um dos nutrientes do adubo, na região. Em relatório à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), ela diz que ainda não começou nenhuma operação de mineração. Também afirma que a concessão de lavra, o direito de minerar, não foi concedida.
Segundo a empresa, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) manteve as licenças estaduais em agosto de 2026. A ação do Ministério Público Federal (MPF) é de dezembro de 2016. Dez anos depois, a mina ainda não produz. Quem paga a espera é o produtor do interior, que compra adubo mais caro quando o frete sobe.
O fosfato mostra que o investimento privado pode funcionar. Em março de 2024, a EuroChem inaugurou em Serra do Salitre (MG) uma fábrica de adubos fosfatados, à base de fósforo, com capacidade de 1 milhão de toneladas por ano. Segundo a Reuters, isso equivale a 15% da produção nacional. Uma fábrica, porém, não muda sozinha a dependência.
A Petrobras, controlada pelo governo federal, mostra outro caminho. A Araucária Nitrogenados (Ansa), no Paraná, voltou a produzir ureia em 30 de abril de 2026, com capacidade de 720 mil toneladas por ano. Esse volume equivale a cerca de 8% do mercado, segundo a Agência iNFRA. As Fafen da Bahia e de Sergipe, fábricas de fertilizantes nitrogenados, também voltaram a operar em 2025 e 2026.
O que diz a Petrobras: A presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou: “nós vamos produzir 35% dos fertilizantes nitrogenados que o Brasil precisa”, segundo a Agência Brasil, em 14 de maio de 2026. A meta de 35% depende da nova fábrica de Três Lagoas (MS), prevista para 2029.
O Brasil não vai eliminar a dependência em um ano. Mas a meta de 2050 exige decisões agora, e não depois da próxima crise. A fábrica de fosfato mostra que o capital privado pode ajudar. A Petrobras mostra que o Estado pode agir com rapidez.
Adubo é insumo, mas também é questão de soberania. A safra recorde do país depende de navios, de preços lá fora e de licenças que levam anos. O Estado precisa usar a Petrobras, o crédito e o planejamento para encurtar esse caminho.
Como fizemos: Usamos a Revista Cultivar (14/10/2026), que cita o relatório de outubro do Itaú BBA, e a Anda, citada pela CNN Brasil (08/06/2022) e pela Cultivar (04/09/2026), acessados em 24/10/2026. Completamos com a Agência Brasil, o Correio Braziliense, a Forbes Agro, a Kpler, a Cenário Energia, a Agência iNFRA, a Notícias Agrícolas (com a Reuters) e o relatório da Brazil Potash à SEC, com dados até 13/08/2026. Não fizemos cálculos próprios, e deixamos de fora as contagens de navios por dia, que divergem entre fontes. Não localizamos o relatório original do Itaú BBA nem uma série anual da Anda sobre a fatia importada, por isso não comparamos a dependência ano a ano. Não enviamos perguntas à Petrobras, à Anda ou ao Itaú BBA; as posições citadas são públicas.
Fontes
- Revista Cultivar — Ureia avança e safras enfrentam mudanças na oferta e nos preços, 14/10/2026 (acesso em 24/10/2026)
- Revista Cultivar — Entregas de fertilizantes recuam 5,4% no primeiro semestre, 04/09/2026 (acesso em 24/10/2026)
- CNN Brasil — Importação de fertilizantes pelo Brasil aumenta 440% de 1998 a 2021, 08/06/2022 (acesso em 24/10/2026)
- Correio Braziliense — Governo lança plano de fertilizantes para reduzir importação dos insumos, 11/03/2022 (acesso em 24/10/2026)
- Agência Brasil — Petrobras retoma fábricas de fertilizantes para atender 35% da demanda, 14/05/2026 (acesso em 24/10/2026)
- Forbes Brasil (Forbes Agro) — Gargalo em Ormuz pode elevar preço de alimentos, alerta ONU, 14/10/2026 (acesso em 24/10/2026)
- Kpler — Fertiliser loadings persist as vessels look to navigate the Strait of Hormuz, 11/03/2026 (acesso em 24/10/2026)
- Cenário Energia — Petrobras retoma produção de ureia na Ansa e mira 20% do mercado nacional de fertilizantes, 30/04/2026 (acesso em 24/10/2026)
- Agência iNFRA — Petrobras retoma produção de ureia na Ansa, 30/04/2026 (acesso em 24/10/2026)
- Notícias Agrícolas — Eurochem inaugura fábrica de adubos fosfatos em MG com capacidade de 15% da produção nacional, 13/03/2024 (acesso em 24/10/2026)
- Brazil Potash Corp. — Form 6-K, relatório à SEC com dados até 13/08/2026 (acesso em 24/10/2026)



