Mercosul

Mercosul e Emirados seguem sem acordo assinado após cúpula de julho

Os Emirados pedem tarifa zero para petroquímicos e falam em concluir o acordo sem data; exportações do Brasil aos Emirados caíram 16,9% em 2025.

Três autoridades brasileiras sentadas à mesa de uma reunião do Mercosul, diante de uma parede de folhagem iluminada em verde, com a bandeira do Brasil em primeiro plano.
Delegação brasileira na reunião do Conselho do Mercado Comum do Mercosul, no Rio de Janeiro, em 6 de dezembro de 2023.Foto: Cadu Gomes / Vice-Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Desde julho de 2024, o Mercosul negocia um acordo de livre-comércio com os Emirados Árabes Unidos. O texto ainda não foi assinado. Na cúpula do bloco em Assunção, em julho de 2026, o ministro do Comércio Exterior emiradense, Thani bin Ahmed Al Zeyoudi, reafirmou o compromisso de concluir a negociação. Não houve prazo anunciado.

O nome técnico é Acordo de Parceria Econômica Abrangente (CEPA, na sigla em inglês). O objetivo é reduzir ou eliminar tarifas, que são os impostos cobrados sobre produtos importados. O acordo também pretende facilitar investimentos e serviços, segundo o Metrópoles. Segundo o ministro, o pacto iria além do comércio e trataria de segurança das cadeias de alimentos, transição energética e logística.

A data prevista para fechar o texto já mudou. A quarta rodada técnica foi realizada em Brasília, de 4 a 7 de novembro de 2025. Em abril daquele ano, a ministra de Estado para Cooperação Internacional dos Emirados, Reem Al-Hashimy, disse: “Estamos na fase final da negociação com o Mercosul”. Ela falou em fechar o acordo “ainda este ano”. Em fevereiro de 2026, a meta passou a ser assinar o texto na cúpula de Assunção.

Onde a negociação emperra

O principal ponto em aberto, segundo a CNN Brasil, é o pedido dos Emirados para zerar as tarifas do Mercosul sobre cerca de duas dezenas de produtos petroquímicos. Esses produtos são derivados do petróleo e do gás, usados na fabricação de plásticos e de outros materiais. A reportagem lembra que os países do Golfo são muito competitivos no setor, e que a indústria brasileira é especialmente sensível à concorrência externa.

Outro entrave é a regra de origem, que define de qual país um produto é considerado para pagar tarifa menor. Em março de 2026, o Correio Braziliense informou que a proposta exige ao menos 70% do processo produtivo nos Emirados. O receio, segundo um interlocutor do Parlamento do Mercosul, é de triangulação: produtos da Índia ou da Turquia entrariam no bloco com “tarifa zero”. O Correio também relatou que o conflito envolvendo o Irã dificulta o avanço das conversas.

Quanto o Brasil vende e compra

Em 2025, as exportações brasileiras para os Emirados somaram US$ 3,78 bilhões. A queda foi de 16,9% em relação a 2024, segundo dados do MDIC reunidos pela Agência de Notícias Brasil-Árabe (ANBA). Pelas contas da redação, o recuo equivale a cerca de US$ 770 milhões. O valor é pouco mais de 1% das exportações totais do país em 2025, de US$ 348,7 bilhões.

Frango, carne bovina e açúcar estão entre os principais produtos vendidos. Petróleo, ureia, enxofre e peças de aeronaves estão entre as compras, segundo a CNN Brasil. A ureia é um fertilizante usado na lavoura. O número de US$ 6,2 bilhões em comércio não petrolífero, citado pelo ministro emiradense, inclui todo o Mercosul, e não só o Brasil. Não conseguimos acessar o Comex Stat, do MDIC, para checar as importações brasileiras de 2025 vindas dos Emirados.

O que diz o governo brasileiro: Segundo o Palácio do Planalto, Lula e o presidente dos Emirados, Mohammed bin Zayed Al Nahyan, reafirmaram o interesse em aprofundar a parceria estratégica, em encontro de fevereiro de 2026, segundo o Correio Braziliense. Não enviamos perguntas ao Itamaraty para este texto.

O que isso significa

O comércio com os Emirados é pequeno para o Brasil, mas concentra produtos do agro e envolve a indústria química. Para o setor produtivo, a pergunta central é quanto da produção ficaria exposta à concorrência se as tarifas caírem. O Uruguai assumiu a presidência rotativa do Mercosul na cúpula de julho, segundo o Mundo Diplomático.

Até a data desta reportagem, não encontramos anúncio de assinatura, de nova rodada ou de prazo. O próximo passo depende de acertos sobre petroquímicos e regras de origem, ainda sem data pública.

Como fizemos: Usamos reportagens publicadas entre fevereiro e outubro de 2026, acessadas em 24 de outubro de 2026, além de um comunicado do Mercosul sobre o início das negociações em 2024. Os dados de exportação são do MDIC, reunidos pela ANBA em 16 de janeiro de 2026, e o total do país vem do próprio MDIC, divulgado em 6 de janeiro de 2026. A queda de US$ 770 milhões é cálculo nosso: US$ 3,78 bilhões equivalem a 83,1% do valor de 2024, ou cerca de US$ 4,5 bilhões. Não acessamos o Comex Stat, por isso não há dados de importação de 2025. Não encontramos dados públicos sobre a negociação posteriores a julho de 2026.

Fontes