Mercosul

Vizinhos parabenizam Lula, mas Milei silencia após a reeleição

Paraguai e Uruguai parabenizaram Lula, e Milei não. Dados de Brasil e Argentina mostram menos compras argentinas do Brasil em 2026.

Cinco chefes de Estado do Mercosul posam em um palco sob a estrutura branca do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em frente a um banner da cúpula.
Lula, Alberto Fernández, Santiago Peña, Lacalle Pou e Luis Arce posam na cúpula do Mercosul no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 2023. Foto de arquivo.Foto: Ricardo Stuckert / PR / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 25 de outubro de 2026, Lula foi reeleito presidente do Brasil com 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), teve 48,21%, segundo a apuração divulgada pela imprensa com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A reação dos vizinhos foi dividida. Paraguai e Uruguai parabenizaram o presidente. O argentino Javier Milei, que apoiou Flávio, ficou de fora.

Uma campanha com ataques

Milei defendeu a candidatura de Flávio em público. Em 25 de julho, discursou na convenção nacional do PL, em São Paulo, e atacou os “malditos esquerdistas”, segundo o Poder360.

No dia seguinte, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) chamou para consultas o embaixador Julio Bitelli. A nota citava as “ofensas proferidas pelo presidente argentino ontem”.

Dias antes da votação, Milei voltou a chamar Lula de “esquerdista ladrão”, segundo a Bloomberg Línea.

Quem parabenizou e quem não

O presidente paraguaio, Santiago Peña, escreveu: “Parabéns, Lula, pela sua eleição como presidente do Brasil.” O uruguaio Yamandú Orsi disse ter falado com o petista, “um amigo”. O boliviano Rodrigo Paz afirmou que Bolívia e Brasil são “países vizinhos e irmãos”. Chile, Equador e Panamá também se manifestaram.

Na Argentina, o ex-presidente Alberto Fernández comemorou a vitória nas redes sociais. Milei, não. Até a noite de domingo, ele não havia parabenizado o petista. Segundo a Bloomberg Línea, o presidente passou o dia em silêncio na residência de Olivos.

O que diz o governo argentino: Não localizamos declaração pública de Milei ou da Casa Rosada, sede do governo argentino, sobre o resultado até a publicação. Não enviamos perguntas à Casa Rosada; as declarações citadas nesta reportagem são públicas.

O que dizem os números do comércio

Os dados do Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC), órgão oficial de estatísticas da Argentina, apontam para o mesmo lado. Entre janeiro e setembro de 2026, a Argentina comprou US$ 12,005 bilhões do Brasil, uma queda de 17%. Vendeu ao Brasil US$ 9,789 bilhões, alta de 4,5%.

Comércio entre Argentina e Brasil, janeiro a setembro de 2026 Valores em US$ bilhões, segundo o INDEC argentino

Fluxo Valor Variação
Compras argentinas do Brasil 12,005 -17,0%
Vendas argentinas ao Brasil 9,789 +4,5%
Saldo para a Argentina -2,216 —

Fonte: INDEC. Elaboração: redação.

Do lado brasileiro, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) divulgou os dados de vendas. Pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as vendas à Argentina caíram 25,2% em setembro, para US$ 1,36 bilhão. O INDEC registra queda menor, de 19,2%, nas compras argentinas do Brasil no mesmo mês, para US$ 1,375 bilhão.

As contas não batem, porque cada país mede o comércio por critérios próprios. Mesmo assim, as duas estatísticas indicam recuo. A queda coincide com a tensão política entre os dois governos. Os dados disponíveis, porém, não provam que a disputa causou o recuo.

O que vem a seguir no bloco

A presidência pro tempore, função rotativa que coordena a agenda do Mercado Comum do Sul (Mercosul) por seis meses, está com o Uruguai desde 30 de junho de 2026. A troca ocorreu na 68ª Cúpula, no Paraguai, segundo o El Observador.

Para o segundo semestre, o governo uruguaio listou três frentes. A primeira reunião do Conselho do Acordo Interino com a União Europeia e o primeiro fórum empresarial Mercosul-UE estão previstos para dezembro. Seguem as negociações com Canadá, Emirados Árabes, Índia e Vietnã, e a plena incorporação da Bolívia.

Não encontramos data nem sede da próxima cúpula. Pela sequência de rotação, a vez seria da Argentina no primeiro semestre de 2027, segundo a lista da Wikipédia em inglês. Não localizamos confirmação oficial.

O que isso significa

Reeleito, Lula terá de tocar a agenda do bloco com um vizinho que o chamou de “esquerdista ladrão” e não o parabenizou. Os números argentinos mostram que as compras argentinas do Brasil recuaram 17% até setembro.

O que está em aberto é se a agenda comercial, sobretudo a com a União Europeia, seguirá separada da disputa política. Os dados de outubro e a cúpula de dezembro vão mostrar se a tensão chega ao comércio.

Como fizemos: Usamos o INDEC (Intercambio Comercial Argentino, Bienes, setembro de 2026, cifras estimadas, publicado em 19/10/2026) e a nota mensal da Secex, reportada pelo Jornal do Comércio em 06/10/2026, acessados em 26/10/2026. Não corrigimos valores pela inflação, porque comparamos variações anuais já publicadas pelas fontes. Não fizemos cálculos próprios. Os números do INDEC e da Secex usam critérios diferentes e não são idênticos. A eleição foi apurada pela imprensa com base no TSE; algumas reportagens citaram 51,77% em apurações parciais. Os dados não mostram a causa da queda.

Fontes