Itamaraty

Vieira vê 'péssimo sinal' em equipe de transição com os EUA

Chanceler Mauro Vieira critica plano de Flávio Bolsonaro para coordenar a transição com Washington, oferta que Rubio agradeceu por carta em junho.

Fachada do Palácio do Itamaraty, em Brasília, com colunas de concreto, painéis de vidro escuro e guardas cerimoniais de uniforme branco e vermelho segurando bandeiras.
Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília.Foto: Luís Tajes / SETUR-DF / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na quarta-feira (21), o chanceler Mauro Vieira disse ao jornal O Estado de S. Paulo que a proposta de uma equipe de transição com os Estados Unidos é um “péssimo sinal”. A entrevista saiu a poucos dias do segundo turno, marcado para domingo (25).

A fala responde a duas questões. A primeira é a oferta de Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal (PL), de colocar uma equipe de transição à disposição do governo americano. A segunda é a ameaça de uma “faxina” no Itamaraty, nome pelo qual é conhecido o Ministério das Relações Exteriores.

Contexto

Uma transição de governo no Brasil é regulada pela Lei 10.609, de 2002. Segundo a Rádio Senado, a equipe pode começar a atuar no segundo dia útil depois do anúncio do vencedor, com até 50 cargos temporários. Em junho, Flávio escreveu a Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA: “estou preparado para colocar minha equipe de transição imediatamente à sua disposição”, segundo o Istoé. Rubio respondeu em 23 de junho e agradeceu “sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição, caso seja eleito”.

O Partido dos Trabalhadores (PT) levou o caso à Procuradoria-Geral da República (PGR) em 30 de junho. Segundo o jornal O Povo, o partido pede investigação por possíveis crimes contra a soberania nacional e violação de sigilo funcional. Não encontramos decisão da PGR sobre o pedido.

Uma transição entre governos brasileiros

Vieira contestou a ideia em termos diretos. “Agora, com um país estrangeiro, para quê? Para entregar antes do tempo, para se submeter? Isso eu acho que é um péssimo sinal”, disse, segundo o Diário do Centro do Mundo. Ao site O Mundo Diplomático, ele afirmou nunca ter visto iniciativa semelhante em 50 anos de carreira.

A descrição da lei ajuda a entender a crítica. Segundo o Istoé, a equipe é formada pelo eleito para receber informações do governo que sai e preparar a nova administração. O interlocutor previsto é, portanto, o governo brasileiro em fim de mandato. A carta de Flávio aponta outro destinatário: um governo estrangeiro.

A faxina e a resposta de Vieira

Em vídeo publicado em 30 de setembro, Eduardo Bolsonaro prometeu uma “faxina” no Itamaraty se Flávio vencer. Ele disse que “um dos primeiros a sair do posto será o embaixador do Brasil na Espanha”, segundo o SBT News. A declaração veio depois de um suposto áudio, ainda não comprovado, sobre ajuda consular a familiares de Lulinha, filho do presidente Lula.

Vieira respondeu que, em uma democracia, “você não ameaça, você dialoga, conversa, negocia”, segundo o O Sul. Sobre a promessa de faxina, disse: “É péssimo, né?”, de acordo com o Poder360. Ele também afirmou que aguardará o resultado da eleição para decidir se continua no cargo.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em carta a Marco Rubio, ele escreveu que “estou preparado para colocar minha equipe de transição imediatamente à sua disposição”, segundo o Istoé. Até a publicação, não localizamos resposta dele ou da campanha às críticas de Vieira.

O que fica em aberto

O segundo turno é no domingo (25). Até lá, a lei e a carta são os documentos públicos para comparar as promessas. Depois da eleição, a transição segue o calendário previsto em lei, e o pedido à PGR continua sem decisão conhecida. A lei descreve um canal entre governos do Brasil. A carta descreve um canal com Washington.

Como fizemos: Checamos as falas de Mauro Vieira publicadas em 21 de outubro de 2026 em reportagens que citam a entrevista ao Estado de S. Paulo (Poder360, O Sul, Diário do Centro do Mundo e O Mundo Diplomático), acessadas em 23 de outubro de 2026. Não conseguimos abrir a entrevista original. Quando as reportagens divergiam, usamos apenas as falas que aparecem em mais de uma. A carta de Flávio e a resposta de Rubio vêm de reportagem do Istoé, e a descrição da lei, da Rádio Senado; não lemos o texto integral da carta nem da lei. Não houve contato direto com Vieira, Itamaraty, Flávio Bolsonaro ou Eduardo Bolsonaro para esta versão.

Fontes