Geopolítica

Brasil importa 21,5% menos ureia, mas a tonelada segue a US$ 470

Itaú BBA vê queda de 21,5% nas compras de ureia até setembro, enquanto a ONU diz que o tráfego em Ormuz caiu para cerca de 5 navios por dia.

Navio azul chamado Balkan atracado em um cais de carregamento, com guindastes no alto e mar azul-turquesa ao fundo, sob céu claro.
Navio Balkan atracado no terminal de carregamento de Garabogaz, no Turcomenistão, onde há uma fábrica de ureia.Foto: Allan Mustard / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Até setembro, o Brasil comprou 3,5 milhões de toneladas de ureia do exterior. A queda foi de 21,5% frente ao mesmo período de 2025, segundo o banco Itaú BBA. No relatório de outubro, o adubo era negociado a US$ 470 por tonelada, com o frete até o porto brasileiro incluído.

A ureia é um adubo rico em nitrogênio, nutriente essencial para o crescimento das plantas. Antes da guerra, cerca de um terço da ureia vendida no mundo passava pelo Estreito de Ormuz, a passagem entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. A informação é da Reuters, publicada pela Forbes Brasil.

A guerra começou em 28 de fevereiro, com ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) reunidos pelo site Mix Vale, o tráfego de navios caiu de cerca de 130 por dia para 5 na primeira quinzena de outubro.

Quanto o Brasil depende do adubo de fora

Em 2022, a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) estimava que mais de 85% dos fertilizantes usados no país eram importados. Nesse mesmo ano, o governo federal lançou o Plano Nacional de Fertilizantes. A meta é reduzir essa fatia para 45% até 2050. Não encontramos dado atualizado sobre a participação.

Na ureia, o Irã também aparece como fornecedor. Segundo o Terra, o país respondeu por 18% da ureia importada pelo Brasil em 2025. Com a passagem restrita, esse fornecimento ficou incerto.

Compras de adubo caem em 2026; ureia chega a US$ 470 por tonelada Volumes e variações, por período informado, e preço em US$ por tonelada

Indicador Período Valor
Importação de ureia Janeiro a setembro 3,5 mi t (-21,5%)
Importação de ureia Janeiro a agosto -25%
Importação de todos os fertilizantes Janeiro a setembro 28,5 mi t (-15,7%)
Entregas de fertilizantes Janeiro a julho 22,99 mi t (-8,8%)
Preço da ureia, com frete até o Brasil Outubro US$ 470/t (+3% desde setembro)

Fontes: Itaú BBA, via Revista Cultivar; StoneX, via Brasilagro; Anda, via Sou Agro. Elaboração: redação. Cada fonte usa método próprio, e os números não se somam.

Menos compra, mas não só por causa de Ormuz

Segundo a Anda, citada pelo Sou Agro, a queda nas entregas tem causas como crédito restrito, juros altos e preços do adubo pouco favoráveis ao agricultor. A entidade também cita incertezas internacionais. Para ela, a queda não prova falta generalizada de adubo. Ou seja, a guerra é um fator, mas não o único.

Os preços contam outra parte da história. A consultoria de preços Argus Media apresentou, em 6 de abril, a média de US$ 745 por tonelada de ureia no Brasil. Desde o fim de fevereiro, a alta chegou a US$ 300 por tonelada, segundo a empresa. Como cada fonte usa uma base própria, não dá para dizer o que aconteceu entre abril e outubro.

Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA), descreve o efeito no bolso do agricultor. Segundo ele, em reportagem da Pensar Agro de 26 de julho, “o produtor acaba exposto dos dois lados: paga mais para plantar e pode colher menos”.

No plano internacional, a ONU tenta abrir um corredor para fertilizantes. O subsecretário-geral Jorge Moreira da Silva lidera o mecanismo. Em Bangkok, em 14 de outubro, ele disse que o acordo precisa sair nas próximas semanas. Caso contrário, a época de plantio será perdida.

A proposta prevê cinco navios por dia, com um centro de coordenação em Omã. O corredor só começaria a funcionar de sete a dez dias após um acordo entre Estados Unidos e Irã. A força-tarefa criada em março ainda não operou.

O que diz o governo federal: Em 2022, o Plano Nacional de Fertilizantes previu reduzir de 85% para 45% a fatia importada até 2050, segundo a Revista Cultivar. Não encontramos manifestação pública do governo sobre a ureia e a crise em Ormuz até a publicação desta reportagem.

O que isso significa

Os dados mostram menos adubo importado e um preço que segue alto. Eles não mostram, sozinhos, a causa. Crédito, juros e a guerra aparecem juntos nas explicações.

O que está em aberto é um acordo entre Estados Unidos e Irã. Sem ele, o corredor da ONU não sai do papel. Segundo a Pensar Agro, o banco holandês Rabobank projeta entregas de 47,2 milhões de toneladas de fertilizantes em 2026. Lavouras plantadas no segundo semestre sentiriam primeiro uma eventual perda de produtividade.

Como fizemos: Usamos o relatório de outubro do Itaú BBA, citado pela Revista Cultivar em 14/10/2026; a StoneX, citada pela Brasilagro em 25/08/2026; a Anda, citada pelo Sou Agro em 11/10/2026; a Argus, apresentada em 6/4/2026 e citada pelo Terra; e a Pensar Agro, de 26/7/2026. Os dados da ONU vêm do Mix Vale (21/10/2026) e da Reuters, via Forbes Brasil (14/10/2026). Acessados em 24/10/2026. Não fizemos cálculos próprios. Não conseguimos abrir o Comex Stat nem os boletins originais da Anda, por isso os números vêm das fontes citadas. Não enviamos perguntas ao governo, à Anda, à Argus ou ao Itaú BBA antes da publicação.

Fontes