Governo diz ter recusado pedido dos EUA sobre investimento em minerais
Em julho, o governo disse ter recusado limitar investimentos em minerais. Em setembro, o Estadão revelou pedido de aviso prévio sobre vendas.

Em 16 de julho de 2026, o ministro Márcio Elias Rosa disse que os Estados Unidos pediram ao Brasil limites a investimentos em minerais críticos. O pedido, segundo ele, surgiu na negociação para evitar a tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. O governo afirma que recusou.
O relato foi publicado pela Agência O Globo em 17 de julho. Em 17 de setembro, o Estadão revelou o conteúdo de uma minuta americana com pedidos sobre o mesmo tema. Juntos, os dois episódios mostram que a disputa vai além da tarifa.
Minerais críticos são elementos usados em celulares, carros elétricos, sistemas militares e data centers, segundo a Agência Câmara. Terras raras são um grupo de elementos usados em ímãs e componentes eletrônicos. A reportagem d’O Globo cita a participação do Brasil nas reservas mundiais de lítio e de nióbio.
O que a minuta pedia
Segundo o Estadão, a minuta é datada de 16 de outubro de 2025. Ela trazia pedidos sobre minerais, eleições e comércio. Um deles: o Brasil informaria antecipadamente os EUA sobre possíveis transferências de controle de ativos ligados a minerais críticos. Empresas americanas teriam chance de disputar esses negócios.
Segundo o Istoé, a minuta também restringia investidores classificados como “não orientados pelo mercado”. Autoridades brasileiras leram a expressão como referência sobretudo à China, país que não é citado nas falas do ministro. A Forças Terrestres, que reproduz a minuta, coloca a expressão em um item sobre cadeias de suprimento, e não sobre minerais. Os relatos não concordam nesse ponto.
Aviso prévio não é proibição. Mas muda a ordem das decisões. Se a regra valesse, Washington saberia de uma venda de mina antes do fim do negócio e poderia disputá-la. A pergunta central é quem decide sobre o patrimônio mineral brasileiro.
O que o governo disse
Em julho, Rosa afirmou: “Isso chegou a nos ser apresentado formalmente. E obviamente não aceitamos.” Ele acrescentou: “Não aceitaremos porque terras raras e minerais críticos pertencem ao povo brasileiro.” O governo diz querer um acordo equilibrado, mas não aceitará medidas que considera unilaterais.
Em 17 de setembro, Lula disse à Rádio Itatiaia, em Montes Claros (MG): “Esse documento não foi discutido, não será discutido e não está sendo discutido.” Ele chamou a minuta de documento antigo. Segundo a Acessa, Lula disse que a lei não proíbe empresas estrangeiras, mas exige processamento no Brasil.
A Lei 15.506, sancionada em 16 de setembro, cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Ela prevê um fundo garantidor com aporte inicial de R$ 2 bilhões da União, segundo a Agência Câmara.
O que diz o governo dos EUA: Não encontramos manifestação pública de Washington sobre os termos divulgados em julho e em setembro. Esta reportagem não enviou perguntas à representação americana.
O que fica em aberto
Os dois discursos do governo brasileiro rejeitam a proposta. Mas um diz que ela chegou formalmente à mesa; o outro diz que nunca foi discutida. A diferença importa para o leitor.
Se a negociação tarifária passar a tratar de aviso prévio ou de investidores, a decisão sobre minas brasileiras entra no acordo comercial. Por enquanto, pelos relatos disponíveis, o governo diz que não aceita.
Como fizemos: Usamos reportagens da Agência O Globo (republicada pelo InfoMoney e pela Tribuna do Sertão), do Istoé, da Acessa, da Times Brasil, da Revista Sociedade Militar e da Forças Terrestres, além da Agência Câmara e de notícia do Itatiaia, acessadas em 22 de outubro de 2026. Não tivemos acesso ao texto original do Estadão nem ao documento, por isso os termos da minuta aparecem como relatados por esses veículos, e as datas variam entre as fontes. Não há cálculos próprios com números.
Fontes
- EUA queriam acordo que limitava investimentos em minerais críticos – Brasil recusou (Agência O Globo, via InfoMoney)
- EUA queriam acordo que limitava investimentos em minerais críticos. Brasil recusou (Agência O Globo, via Tribuna do Sertão)
- EUA pediu para Brasil limitar investimentos em minerais críticos, diz Márcio Elias — Acessa.com
- EUA tentaram limitar investimentos do Brasil em minerais críticos, afirma Márcio Elias — Times Brasil
- EUA queriam aviso prévio sobre venda de minerais críticos do Brasil — ISTOÉ
- Lula sobre exigências dos EUA em minerais críticos: Não foi discutido e não será — Acessa.com
- Governo Trump apresentou exigências ao Brasil para negociar tarifaço, incluindo minerais críticos — Revista Sociedade Militar
- EUA pediram mudanças em eleições, comércio e minerais para aliviar tarifas sobre o Brasil — Forças Terrestres
- Nova lei cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos — Agência Câmara
- Lula nomeia Márcio Elias Rosa para o MDIC após saída de Alckmin — Itatiaia
- Márcio Fernando Elias Rosa (foto) — Wikimedia Commons



