Flávio pediu que os EUA tratassem PCC e CV como terroristas
O candidato levou a Washington um pedido que amplia o papel dos EUA no combate ao crime brasileiro e expõe o custo para a soberania.

Em 26 de maio, Flávio Bolsonaro pediu a Donald Trump que os Estados Unidos classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O pedido ocorreu durante uma visita do candidato à Casa Branca, segundo a CNN Brasil.
A cena resume uma escolha de política externa. Em vez de apresentar uma estratégia brasileira de cooperação policial, Flávio levou a Washington uma decisão sobre duas facções que atuam no território nacional. No plano de governo, ele também promete declarar PCC, CV e milícias “narcoterroristas” e congelar seus bens.
O pedido feito em Washington
A classificação americana não foi uma frase lateral da viagem. A CNN registrou que Flávio prometeu parcerias estratégicas com os Estados Unidos em minerais críticos e, na mesma agenda, pediu a designação das facções. São dois assuntos diferentes, mas a ordem revela a dependência que o candidato aceita criar.
No discurso da Conservative Political Action Conference (CPAC), em março, Flávio já tinha dito que o Brasil seria a saída dos Estados Unidos. A meta era reduzir a dependência americana da China em terras raras. Em maio, após o encontro com Trump, falou em parceria de longo prazo e investimento protegido. O pedido sobre as facções foi apresentado ao mesmo governo estrangeiro.
A soberania, nesse caso, não é uma palavra abstrata. É a capacidade de o Brasil definir sua política de segurança, seus critérios de investigação e a forma de cooperar com outros países. Quando o candidato pede a Washington uma etiqueta para grupos brasileiros, ele aceita que a primeira decisão política venha de fora.
O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) repete a lógica. Ele prevê que PCC, CV e milícias sejam tratados como “narcoterroristas”, com bloqueio de patrimônio. Também diz que criminosos armados com fuzis devem ser “abatidos”. O texto fala em cinco presídios de segurança máxima, no modelo de El Salvador, e em 500 mil novas vagas em quatro anos.
O que o plano de Flávio promete para as facções Medidas descritas no programa apresentado ao TSE
| Medida | Formulação do plano |
|---|---|
| Classificação | PCC, CV e milícias como “narcoterroristas” |
| Finanças | Bloqueio dos bens das organizações |
| Uso da força | Criminosos com fuzis devem ser “abatidos” |
| Prisões | Cinco unidades de segurança máxima e 500 mil vagas |
Fonte: plano de governo de Flávio, reproduzido por SBT News e Metrópoles. Elaboração: redação.
A promessa externa e a contradição interna
O candidato diz que a classificação estrangeira fortaleceria o combate ao crime. O registro disponível, porém, mostra a parte mais fácil da política: pedir uma medida de outro país e anunciar que ela resolverá o problema. Não há, no dossiê, proposta detalhada para ampliar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), reforçar a Receita ou regular fintechs usadas em investigações.
A lacuna aparece quando se olha para o dinheiro. Na operação Carbono Oculto, a Polícia Federal investigou mais de mil postos que movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma fintech descrita como banco paralelo movimentou mais de R$ 46 bilhões. A promessa de guerra aos fuzis não explica como o governo rastrearia esse fluxo.
A política externa deveria servir a essa investigação, com acordos de cooperação e troca de provas. O gesto de maio fez o contrário: transformou a classificação americana em troféu de campanha. O país passou a discutir a palavra “terrorista” antes de explicar qual autoridade brasileira conduziria o caso.
O que diz Flávio Bolsonaro: Em Washington, ele afirmou que pediu a Trump a classificação do PCC e do CV. Seu plano também promete tratar as facções como “narcoterroristas”. Em 16 de outubro, disse que qualquer vínculo comprovado com as organizações deve ser punido “dentro da lei”, segundo o dossiê.
A eleição de 25 de outubro decidirá se esse método chega ao Planalto. O eleitor pode querer uma política firme contra o crime e, ainda assim, perguntar quem define os termos da operação. Entregar a decisão inicial a Washington não é estratégia de soberania. É terceirização com bandeira nacional.
Como fizemos: Conferimos as declarações de maio, o discurso da CPAC, o plano de segurança e os dados das operações financeiras nas fontes listadas abaixo. As fontes foram acessadas em 21 de outubro de 2026. A tabela reproduz medidas descritas no plano. Ela não estima o custo das prisões nem o efeito de uma designação estrangeira. O dossiê não registra proposta específica de Flávio para Coaf, Receita ou regulação de fintechs. Por isso, a lacuna é apresentada como ausência documental, não como prova de que nenhuma medida exista.
Fontes
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com os EUA — CNN Brasil
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Segurança pública: veja as propostas de Flávio na íntegra — SBT News
- Flávio Bolsonaro defende classificar PCC e CV como terroristas — Metrópoles
- Flávio x Lula: o que defendem para segurança pública — SBT News
- Plano de governo de Flávio Bolsonaro — leitura
- Faria Lima: Flávio mira fintechs de fachada contra crime organizado — Gazeta do Povo
- Flávio se diz surpreso com prisão de aliados no RJ: “pagar dentro da lei” — Metrópoles



