Geopolítica

Flávio mira facções, mas deixa o dinheiro do crime sem regra

Operações da PF rastrearam dezenas de bilhões em postos e fintechs; o plano de Flávio promete força, mas não detalha como seguir o dinheiro.

O senador Flávio Bolsonaro fala a jornalistas, cercado por celulares e microfones.
O senador Flávio Bolsonaro concede entrevista no Senado, em Brasília, em 30 de abril de 2026.Foto: Ton Molina / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto abriu mais de 350 mandados em oito estados. A Polícia Federal (PF) investigou mais de mil postos que movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

Uma fintech, empresa que oferece serviços financeiros por tecnologia, teria movimentado mais de R$ 46 bilhões como “banco paralelo”. O caso expõe o contraste central da campanha de Flávio Bolsonaro: discurso de guerra contra fuzis e pouca regra para o dinheiro que sustenta as facções.

O fluxo que chega à Faria Lima

A Carbono Oculto mirou postos, portos e empresas de pagamento. Os fundos investigados somavam cerca de R$ 30 bilhões, segundo a PF e a Transparência Internacional. A investigação incluiu a Reag Investimentos e o BK Bank.

Em maio de 2026, a Operação Fluxo Oculto acrescentou seis fintechs ao mapa. A apuração aponta movimentação superior a R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. As empresas negam irregularidades, e a investigação ainda não equivale a condenação.

O número mais importante não é uma prisão. É a escala. O dinheiro circula por empresas com aparência regular, atravessa estados e pode chegar a fundos, combustíveis e contas digitais. A fronteira entre crime organizado e mercado formal passa por sistemas que exigem fiscalização financeira.

As cifras das investigações financeiras Valores aproximados citados pelas fontes; não são somados porque os casos podem se sobrepor

Investigação ou etapa Valor citado Situação descrita
Carbono Oculto, postos (2020–24) R$ 52 bi Movimentação investigada pela PF
Fintech tratada como “banco paralelo” R$ 46 bi+ Movimentação investigada
Fundos sob investigação R$ 30 bi Patrimônio citado no caso
Fluxo Oculto, fintechs (2022–25) R$ 26 bi+ Empresas negam irregularidades
Fundos Reag e PCC R$ 250 mi Alegação da PF; Reag nega

Fontes: PF, Transparência Internacional, Agência Brasil, CNN Brasil e Agência Pública. Elaboração: redação.

A tabela não calcula um total do crime. As operações são diferentes, e as próprias fontes alertam para sobreposição. Ela mostra por que a política de segurança precisa seguir contas, fundos e empresas, além de ocupar territórios.

A promessa de Flávio e o vazio regulatório

Em 18 de junho, num evento na Faria Lima, Flávio pediu ao mercado financeiro ajuda para “asfixiar financeiramente” grupos narcoterroristas. O aliado Guilherme Derrite falou em combater “fintechs de fachada”. O dossiê não registra proposta específica para ampliar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), reforçar a Receita ou regular essas empresas.

O plano de governo dá prioridade a presídios, penas mais duras e criminosos armados com fuzis “abatidos”. Também promete declarar PCC, Comando Vermelho (CV) e milícias como “narcoterroristas” e bloquear seus bens. A parte financeira aparece como slogan, sem procedimento de rastreamento.

O registro exige uma distinção. Nenhuma fonte consultada liga o dinheiro de Flávio ao PCC. As acusações financeiras contra ele, no caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master, não são apresentadas como dinheiro da facção. O problema é outro: ele pede confiança ao mercado enquanto não apresenta controles para o mercado que deseja mobilizar.

A resposta regulatória já mudou durante as investigações. A Receita Federal retomou a exigência de informações de fintechs após reconhecer que uma revogação, em janeiro de 2025, enfraquecera o acompanhamento. O Banco Central limitou Pix e TED a R$ 15 mil para instituições de pagamento não autorizadas.

O que diz Flávio Bolsonaro: No evento da Faria Lima, ele pediu que o mercado ajudasse a “asfixiar financeiramente” grupos narcoterroristas. Segundo o dossiê, seu aliado Derrite citou “fintechs de fachada”, mas nenhuma medida específica de Coaf, Receita ou regulação foi apresentada.

O segundo turno acontece em 25 de outubro. Para quem quer combater o crime organizado, a pergunta é simples: quem seguirá o dinheiro quando ele sair da favela e entrar na conta digital? Sem resposta, a promessa de força termina onde começa a Faria Lima.

Como fizemos: Organizamos valores e períodos já publicados nas fontes do dossiê, acessadas em 21 de outubro de 2026. Não somamos as cifras porque as investigações podem se sobrepor. Mantivemos a diferença entre alegação da PF, negativa das empresas e ausência de qualquer vínculo documentado entre o dinheiro de Flávio e o PCC.

Fontes