Geopolítica

Dark Horse: o filme sobre Bolsonaro bancado por Vorcaro via fundo no Texas

Segundo o Intercept, Vorcaro prometeu US$ 24 milhões ao filme e pagou ao menos US$ 10,6 milhões a um fundo no Texas; a PF pediu ajuda aos EUA.

O senador Flávio Bolsonaro fala a jornalistas cercado de microfones, em close.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) dá entrevista a jornalistas no Senado, em Brasília, em 30 de abril de 2026.Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para “Dark Horse”, um filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo o Intercept Brasil, ao menos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. O valor depois foi rastreado em US$ 12,3 milhões. Quem negociou o dinheiro foi o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato à Presidência.

O destino do dinheiro dá ao caso uma dimensão internacional. Os recursos foram para a Havengate, um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, segundo o Intercept. Por isso, a Polícia Federal (PF) agora precisa da ajuda dos Estados Unidos para seguir a trilha.

Um fundo parado no Texas

Segundo o Intercept, a Havengate era uma empresa de fachada, sem atividade. Foi registrada em 2020 para um projeto imobiliário que nunca conseguiu licenças. O primeiro pagamento do lado de Vorcaro foi de US$ 2 milhões, em 14 de fevereiro de 2025.

As mensagens reveladas mostram o tom da relação. Em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrou de Vorcaro pagamentos atrasados. Em 16 de novembro de 2025, véspera da prisão do banqueiro, enviou uma promessa de lealdade: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

O dinheiro não saiu de um patrocinador qualquer. Vorcaro comandava um banco que está no centro de investigações. E a quantia prometida equivale a dezenas de milhões de reais, enviados para fora do país por um caminho pouco transparente.

O inquérito no STF

Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça abriu inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido foi da PF, com o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR), segundo a Agência Brasil. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas, que é a saída ilegal de dinheiro do país.

Eduardo também é alvo do inquérito. Flávio é investigado, e não réu. Ou seja, ainda não há denúncia contra ele, apenas uma apuração em curso.

Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse a cooperação dos EUA para rastrear o dinheiro, informou a CNN Brasil. É o caminho formal para obter dados bancários de outro país.

Esse detalhe explica por que o caso interessa à política externa. Quando o dinheiro atravessa a fronteira, os documentos que contam a história ficam fora do alcance da polícia brasileira. Extratos, contratos e registros do fundo estão sob a lei de outro país. Sem a colaboração de Washington, a investigação anda devagar ou para.

A conta não fecha, segundo a polícia. A PF chama de “severa” a divergência: mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas só US$ 2,8 milhões aparecem registrados na volta. Em 16 de outubro, a PF pediu mais 90 dias de investigação. Ainda não há decisão sobre o pedido, segundo o ConJur.

As versões do candidato

Flávio mudou de versão no mesmo dia. Em 13 de maio, de manhã, chamou a reportagem de mentira. À noite, confirmou ao Poder360 que buscou patrocínio privado para um filme privado. Negou ter oferecido algo em troca e negou o uso de dinheiro público.

As versões seguintes também tiveram problemas. O Aos Fatos, agência de checagem, contou ao menos 43 declarações falsas dele sobre o caso Vorcaro. É um número difícil de ignorar para quem pede o voto em nome da verdade.

O candidato sustenta que tudo foi um negócio entre particulares. Mas um negócio entre particulares não costuma exigir um fundo inativo no Texas, cobranças por mensagem e juras de lealdade a um banqueiro às vésperas da prisão. São esses fatos, e não adjetivos, que a PF quer explicar.

O que diz Flávio: Em 16 de outubro, afirmou que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que o mandato de senador não deu nada ao banqueiro. Ele atribui a diferença nas contas a um contrato que não foi cumprido, segundo a CNN Brasil.

Para a política externa, o caso tem um custo concreto. O pedido de cooperação com os EUA passa pelo Ministério da Justiça, e o próximo ministro será escolhido pelo próximo presidente. Se eleito, Flávio nomeará quem conduz a ponte com Washington numa investigação que o tem como alvo. Em 25 de outubro, o eleitor decide se aceita esse conflito no coração do Estado.

Fontes