Tribuna

Contagem de votos cabe ao TSE, não a governos estrangeiros

Trump questionou a eleição sem provas. Contar e proclamar o voto cabe ao TSE e às instituições brasileiras, não a governos estrangeiros.

Comentário assinado. A posição expressa neste texto pertence ao autor e não representa necessariamente a linha editorial da Revista Soberania.

Urna eletrônica modelo UE2020, da Justiça Eleitoral, com a tela apagada, teclado numérico e um aparelho menor ao lado, sobre uma superfície branca.
Urna eletrônica modelo UE2020, da Justiça Eleitoral. Foto de arquivo, feita em 2021, e não da votação de 2026.Foto: Antonio Augusto / Secom/TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

No domingo (25), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou Lula reeleito para um quarto mandato, de 2027 a 2030. No mesmo dia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pôs o resultado em dúvida. Segundo a agência espanhola EFE, ele disse: “Acabaram de aplicar no Brasil o manual de Joe Biden.”

Segundo a mesma agência, Trump não apresentou provas de irregularidades. Um governo estrangeiro não tem papel na contagem dos votos brasileiros.

A contagem, a totalização e a proclamação de uma eleição são tarefas de instituições brasileiras. Quando um chefe de Estado estrangeiro duvida do resultado sem prova, ele pressiona quem conta os votos. Isso fere a soberania do país, que decide sozinho quem governa.

Não é a primeira vez que Washington se mete na disputa. Em julho, o Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores, rejeitou pedidos de visto de dois funcionários do Departamento de Estado americano. Segundo o Washington Post, citado pela coluna do SBT News, eles viriam avaliar “a lisura e a integridade do sistema eleitoral brasileiro”.

Em agosto, uma autoridade americana, sob anonimato, disse que o resultado seria respeitado por meio de “eleições livres e justas no Brasil”. O Departamento de Estado negou que queira interferir na disputa.

Quem conta os votos no Brasil

A urna eletrônica, a máquina de votação usada em todo o país desde 1996, imprime o Boletim de Urna (BU) ao fim da votação. O boletim é entregue aos partidos, e qualquer pessoa pode compará-lo com o resultado oficial. A informação é do TSE, na reportagem do O Povo de 29 de julho de 2026.

A fiscalização é longa. Segundo o TSE, as urnas passam por cerca de 40 etapas de fiscalização e auditoria. O código-fonte, o texto de programação do sistema, fica disponível a órgãos credenciados cerca de um ano antes da eleição. Desde 2009, o Teste Público de Segurança (TPS) busca falhas no sistema, com ataques propostos por especialistas e por qualquer brasileiro maior de 18 anos.

Júlio Valente, secretário de Tecnologia da Informação do TSE, resume o histórico: “não temos, desde 1996, nenhum caso comprovado de fraude nas urnas eletrônicas”. A frase está em reportagem do O Povo de 30 de julho de 2026.

Observadores internacionais também olharam. Em 6 de outubro, a Organização dos Estados Americanos (OEA) divulgou o relatório preliminar do primeiro turno, feito com 91 observadores. Segundo o NC News, a missão chamou as urnas brasileiras de “exemplo de excelência para o mundo”.

Em 20 de outubro, o Itamaraty respondeu a novas críticas do presidente argentino, Javier Milei, ao sistema eleitoral. Em nota, a chancelaria afirmou que o voto eletrônico é “comprovadamente seguro, nunca registrou irregularidades”.

Os argumentos contrários, e a resposta

Flávio Bolsonaro, do PL, não reconhece o resultado. Em pronunciamento, disse: “É impossível reconhecer o resultado dessa eleição no contexto em que essas coisas aconteceram.” Ele também afirmou: “Nossos fiscais do PL foram retirados de dentro da sala-cofre.”

O primeiro argumento tem base no calendário. No domingo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin prorrogou a votação até as 19h em todo o país. Flávio diz que a decisão mudou as condições depois que parte das urnas já havia encerrado. Segundo a InfoMoney, a prorrogação foi pedida por partidos.

A própria reportagem da InfoMoney traz o outro lado. A suspensão da totalização, anunciada às 17h20, “não significa cancelamento dos votos registrados nas urnas”. Os votos já registrados nas urnas não se perdem com a pausa.

Sobre os fiscais do PL, as reportagens consultadas não trazem prova pública. A resposta do sistema está no boletim: cada urna imprime o seu BU, e qualquer pessoa pode conferi-lo com o resultado oficial.

Antes, em julho, Flávio associou a empresa Smartmatic às urnas. A Justiça Eleitoral já havia desmentido a informação. Em agosto, ele reconheceu que pode ter se equivocado. As urnas são fabricadas pela Positivo, e, segundo ele, a Smartmatic participou de etapas do processo.

Em 2 de agosto, no programa Canal Livre, da Band, ele afirmou: “Eu vou aceitar. Eu vou concorrer com essas regras”. Quase três meses depois, a frase de agosto não resistiu ao resultado.

O que diz Donald Trump: Segundo a EFE, em espanhol, ele afirmou: “Acaban de aplicar en Brasil el manual de Joe Biden.” A agência não registra prova apresentada por ele. Não localizamos posição oficial da Casa Branca sobre o resultado até o fechamento deste texto.

Flávio disse que vai pedir a anulação da eleição. A contestação existe dentro das instituições brasileiras, e é nelas que deve ser decidida. Trump, até agora, não apresentou nenhuma prova.

O Brasil pode receber observadores e ouvir críticas. Não deve aceitar que um governo estrangeiro diga quem venceu. Quem conta os votos são os brasileiros, por meio de suas urnas, partidos, órgãos de fiscalização e do TSE.

Como fizemos: Usamos a EFE, publicada pelo Times Brasil e pela Infobae em 25 e 26 de outubro de 2026, para as falas de Trump, com o original em espanhol. Usamos a TV Senado para a proclamação, a InfoMoney para o placar de 51,79% (número da própria InfoMoney, que não conferimos em outra fonte) e para as falas de Flávio, o O Povo para os mecanismos de fiscalização e para as falas de Júlio Valente e de Flávio em agosto, o DGABC para a Smartmatic e a posição do Departamento de Estado, o SBT News para a nota do Itamaraty e a coluna sobre os vistos, e o NC News para o relatório da OEA. Tudo acessado em 26/10/2026. O relatório da OEA citado é o preliminar do primeiro turno; não localizamos o do segundo. Não encontramos, nas fontes consultadas, posições públicas de governos vizinhos sobre o resultado, por isso o texto não as cita. Não fizemos cálculos próprios. Não enviamos perguntas ao TSE, à Casa Branca, ao Itamaraty nem a Flávio Bolsonaro antes da publicação; as falas citadas são públicas.

Fontes