Opinião

Quem pede ao "mundo livre" para vigiar a eleição não confia no Brasil

Na CPAC, Flávio pediu vigilância estrangeira sobre a eleição; a embaixadores, ligou as urnas à Smartmatic, que nunca as forneceu. A direita merece mais.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Urna eletrônica brasileira modelo 2020, com teclado numérico e teclas branco, corrige e confirma, ao lado do terminal do mesário.
A urna eletrônica modelo UE2020, usada nas eleições brasileiras, em foto do Tribunal Superior Eleitoral de dezembro de 2021.Foto: Antonio Augusto / Secom / TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Em 28 de março, num palco do Texas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu que o “mundo livre” vigiasse a eleição brasileira. Era a CPAC, a conferência anual da direita americana, e a íntegra do discurso foi publicada pelo Poder360. Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, deveríamos ter estranhado na hora.

Patriota não pede tutela estrangeira para o próprio voto. Quem faz isso diz ao mundo que o Brasil não sabe cuidar de si. E diz isso justamente aos governos com quem o país negocia tarifas, minerais e investimentos.

No mesmo discurso, Flávio ofereceu o Brasil como saída dos EUA para a dependência da China em terras raras. Terras raras são metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa. Pedir vigilância e oferecer minerais no mesmo palco passa uma mensagem ruim: a de que o apoio de fora tem contrapartida.

Um padrão, não um deslize

O pedido da CPAC não foi um tropeço isolado. Segundo levantamento do Jornal de Brasília, Flávio alterna ataques e recuos sobre as urnas desde 2022. Naquele ano, disse que a fraude não aconteceu, mas poderia ter acontecido.

Em 8 de janeiro de 2023, dia dos ataques às sedes dos Três Poderes, escreveu num grupo de senadores que o TSE era absurdamente parcial. Na mesma mensagem, negou ligação do pai com os ataques e defendeu a punição dos responsáveis, segundo o Poder360.

Em 2023, foi coautor de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo voto impresso. Em 2024, tratou o tema como página virada. Em março de 2026, voltou a dizer que venceria se os votos fossem contados corretamente.

Em 21 de julho, foi além. Num almoço com embaixadores estrangeiros, ligou falsamente as urnas brasileiras à empresa Smartmatic e pediu observadores, relatou o Metrópoles. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que a Smartmatic nunca forneceu as urnas do país.

O cenário não era inédito. O pai dele, Jair Bolsonaro, ficou inelegível depois de uma reunião parecida com embaixadores. Repetir o roteiro, com a mesma plateia, não foi distração.

O mesmo sistema que elegeu a direita

Aqui está o ponto que todo eleitor de direita precisa encarar. O sistema que Flávio põe em dúvida é o mesmo que deu à direita sua maior força no Congresso. Segundo a Agência Brasil, o PL elegeu a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e terá 28 senadores.

É também o sistema que pôs Flávio na liderança do primeiro turno. Na ocasião, a Bolsa bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5, segundo o Estado de Minas. Ninguém na campanha dele pediu observadores para conferir esse resultado.

Desconfiança seletiva não é princípio. É conveniência. A urna só é suspeita quando o resultado pode não agradar.

Observação internacional de eleições, em si, não é problema. O próprio TSE costuma receber missões estrangeiras. O problema é pedir vigilância a um governo estrangeiro com base numa informação falsa, e em palanque partidário.

A conta chega para a direita

O TSE já mostrou que a régua vale para todos. Em 8 de outubro, mandou retirar três postagens de Flávio no X. Uma era uma imagem de Lula feita com inteligência artificial sem identificação. As outras duas ligavam Lula ao PCC e ao CV sem base nos fatos.

Cada episódio desses vira munição contra toda a direita. Quem desacredita as urnas entrega ao adversário o discurso da defesa da democracia. E afasta o eleitor moderado, que quer mudança, mas não quer confusão.

Ninguém aqui pede que você goste de Lula. O que se pede é coerência. A direita que confia na polícia, nos tribunais e no Exército não pode tratar a urna como inimiga só quando convém.

O que diz a campanha de Flávio: Após o almoço com os embaixadores, a campanha afirmou que Flávio confia no sistema eleitoral, segundo o Metrópoles. A informação falsa sobre a Smartmatic, porém, não foi corrigida.

Soberania começa em casa. Começa por confiar nas instituições que o próprio país construiu e que a própria direita usou para vencer. Em 25 de outubro, o voto de direita mais firme é o de quem não terceiriza a eleição brasileira ao “mundo livre”.

Fontes