Tribuna

Vitória de Lula dá mandato para política externa independente

Com 51,79% dos votos válidos, Lula recebeu o mandato para negociar com todos sem trocar soberania por um lugar em Washington.

Comentário assinado. A posição expressa neste texto pertence ao autor e não representa necessariamente a linha editorial da Revista Soberania.

Degraus curvos de concreto iluminados por luz rasante, em detalhe da arquitetura do Palácio do Itamaraty, em Brasília.
Detalhe da arquitetura do Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília.Foto: Fwsbsb / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Lula (PT) foi reeleito no domingo (25) com 51,79% dos votos válidos. Foram 64.256.232 votos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (PL), que teve 48,21%. Os números são da apuração divulgada pela imprensa com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O resultado dá a Lula um quarto mandato. A disputa também mostrou duas formas de o Brasil estar no mundo. Este texto defende que o voto autoriza uma política externa independente: negociar com todos, sem trocar soberania por um lugar em Washington.

Duas formas de estar no mundo

No sábado, 28 de março, na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), nos Estados Unidos, Flávio disse que o Brasil é “a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos”. Ele citou sobretudo as terras raras, um grupo de 17 elementos químicos usados em ímãs, eletrônicos e equipamentos de defesa. Segundo a CNN Brasil, ele afirmou que os americanos dependem da China para cerca de 70% das importações desses minerais.

O plano de governo de Flávio, entregue ao TSE, segue a mesma linha. Segundo a Agência Brasil, o texto diz que “nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento”. A proposta é reaproximar o país desses três.

O plano de Lula aponta para outro centro. Ele afirma que “a integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil” e prevê aprofundar o Mercosul, o bloco do Cone Sul.

Os dois planos prometem negociar com todos. O de Flávio diz: “Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos.” A diferença está na ordem de prioridades e na postura diante da pressão.

Tarifa e OCDE: o que diz o outro lado

Em 1º de junho, o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu que seis práticas do Brasil justificam uma resposta. A investigação usou a Seção 301, uma lei comercial de 1974 que permite ao governo americano punir práticas consideradas injustas. Entre os temas estão o comércio digital, o Pix, o etanol, a corrupção e o desmatamento ilegal.

Em 15 de julho, o USTR anunciou tarifa adicional de 25% sobre certos produtos brasileiros. Ela entrou em vigor em 22 de julho, segundo o escritório de advocacia Greenberg Traurig. Em junho, Flávio já tinha escrito ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo revisão das tarifas. Rubio respondeu que a investigação identificou práticas consideradas irracionais ou discriminatórias.

Lula respondeu com outro caminho. “A gente não vai sair da mesa de negociação”, disse em 22 de julho, no Palácio do Planalto. Segundo o Poder360, ele afirmou que houve “várias” tentativas de negociar, mas não houve “reciprocidade na conversa”.

Flávio tem um argumento que merece resposta. Em 21 de julho, em reunião com embaixadores em Brasília, ele disse que o país vai retomar o caminho de entrada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), clube de países ricos. “Vamos retomar esse caminho, para que o Brasil melhore seu grau de investimento e dê mais segurança”, afirmou, segundo o eixos.com.br. O processo não começa do zero: em 25 de janeiro de 2022, o Conselho da OCDE abriu negociações de adesão com o Brasil.

O que diz Flávio Bolsonaro: No X, em 22 de julho, escreveu: “Eu ainda não desisti de reverter essas tarifas”. Em 21 de julho, disse a embaixadores que o Brasil vai “retomar esse caminho” rumo à OCDE.

A resposta é direta. Entrar no clube exige ajustar normas do próprio país, e isso pode atrair investimento. Mas não obriga a alinhar a diplomacia com um governo estrangeiro. O próprio plano de Flávio promete negociar com a China e a União Europeia, o que mostra que autonomia e investimento podem andar juntos.

O argumento sobre a tarifa é outro. No X, Flávio escreveu que “Lula cavou esse pênalti”, ou seja, atribuiu a medida ao governo atual. Mas o USTR também cita, entre as práticas, ordens de tribunais brasileiros para que plataformas americanas removam conteúdo político. Discutir essas regras é exercício de soberania, não erro diplomático.

A eleição não encerra o debate. Quase metade dos votos válidos, 48,21%, foi para Flávio, e esse eleitorado quer uma relação mais próxima com Washington. Essa posição merece resposta com fatos, não com desprezo.

Mas a maioria deu a Lula o mandato para conduzir a diplomacia do país. O governo precisa mostrar isso na mesa de negociação, com a tarifa em vigor e a OCDE na agenda. O Brasil precisa negociar sem pedir licença a Washington.

Como fizemos: Usamos as reportagens do Poder360 e do Mix Vale, publicadas em 26/10/2026 e acessadas no mesmo dia, para o resultado do segundo turno. Outras manchetes do mesmo dia citam 51,78%, com 99,95% das urnas apuradas; usamos 51,79%, o número das reportagens com a totalização completa. Não contatamos as campanhas, porque as posições citadas são públicas. Não tivemos acesso aos textos integrais dos planos de governo, da carta de Rubio nem da íntegra dos discursos: as citações vêm de reportagens. Não fizemos cálculos próprios.

Fontes