Comércio exterior

Dólar a R$ 5,40 melhora a conta do exportador e encarece o insumo

Com dólar a R$ 5,40, a saca de soja do porto de Paranaguá vale cerca de R$ 12,50 a mais em reais, mas a ureia importada também fica mais cara.

Três caminhões graneleiros com carga coberta por lona seguem por uma rodovia de pista dupla, sob céu azul com nuvens grandes.
Caminhões que transportam soja em rodovia de Rondonópolis (MT), em foto de março de 2009.Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Na segunda-feira (26), o dólar comercial fechou a R$ 5,4029, com alta de 8,21%, depois da reeleição de Lula. Para o agro, o movimento tem dois lados. Quem vende em dólar recebe mais reais. Quem compra insumo importado paga mais.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), citado pelo Times Brasil, Lula teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O Ibovespa, principal índice da Bolsa, fechou em 176.608,23 pontos, com queda de 13,88%. A Bolsa acionou o circuit breaker, mecanismo que suspendeu as negociações por 30 minutos.

Quanto vale a saca em reais

O Indicador Cepea/Esalq da soja em Paranaguá (PR) marcou R$ 152,41 por saca de 60 quilos em 23 de outubro. Na mesma data, a saca valia US$ 30,53. O indicador é calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP. A divisão dos dois valores dá cerca de R$ 4,99 por dólar.

Se o preço em dólar ficasse igual e o câmbio fosse a R$ 5,40, a saca valeria R$ 164,95. A conta é US$ 30,53 vezes R$ 5,4029. A diferença é de R$ 12,54 por saca, ou 8,2%. Em 1.000 sacas, seriam cerca de R$ 12.540 a mais em receita bruta, antes de frete e impostos.

O preço em dólar, porém, também caiu. Às 13h30 de segunda-feira, o contrato de novembro da soja na Bolsa de Chicago recuava quase 20 centavos, para US$ 12,376 por bushel, segundo a Reuters. Com uma queda de cerca de 1,5%, a saca em dólar iria a US$ 30,07. A R$ 5,40, valeria cerca de R$ 162,47. O ganho cairia para R$ 10,06, ou 6,6%.

Essa é uma conta de exemplo. Ela não inclui frete, impostos, contratos antigos nem o prêmio que cada porto paga sobre a bolsa. O preço muda a cada sessão.

O custo que sobe do outro lado

O mesmo dólar encarece o que o produtor compra de fora. A ureia é um adubo nitrogenado. Em 14 de outubro, a Revista Cultivar informou que ela era negociada a US$ 470 por tonelada na condição CFR Brasil, que inclui o frete até o porto, citando relatório do Itaú BBA.

Com dólar a R$ 4,99, essa tonelada custa cerca de R$ 2.346. A R$ 5,40, custa cerca de R$ 2.539. A diferença é de R$ 193 por tonelada, ou 8,2%. A conta mantém o mesmo preço em dólar e não considera prazos de compra nem estoques.

O que diz Jack Scoville: vice-presidente e analista de mercado da The Price Futures Group, em Chicago, comentou à Reuters: “Certamente a eleição foi uma surpresa, e isso está ligado à desvalorização da moeda.”

A Grainsights, citada pelo The AgriBiz, descreve um efeito de mão dupla: o grão vale menos em dólar, mas cada dólar compra mais reais no interior. Quem vende soja ou café com preço ligado ao dólar ganha em reais. Quem compra adubo para a próxima safra paga mais. O efeito chega com atraso, conforme o calendário de compras e os contratos de cada produtor.

O que isso significa

O dólar a R$ 5,40 melhora a receita do exportador no curto prazo, mesmo com a soja mais barata em Chicago. Ao mesmo tempo, o produtor que compra adubo importado paga mais. O saldo no interior depende do que cada produtor vende e do que compra.

Ainda está em aberto se o câmbio se mantém nos próximos pregões. Se o dólar recuar, a vantagem do exportador diminui. Se o insumo ficar caro, o custo da safra seguinte aumenta.

Este texto não é recomendação de investimento. Moedas e ações podem perder valor, e uma queda de mercado pode se aprofundar.

Como fizemos: Usamos a cotação do dólar comercial de fechamento de 26/10/2026 (R$ 5,4029, alta de 8,21%), publicada pelo Times Brasil, e o registro de R$ 5,403 do InfoMoney às 17h29 do mesmo dia. Para a soja, usamos o Indicador Cepea/Esalq de Paranaguá de 23/10/2026 (R$ 152,41 e US$ 30,53 por saca), acessado em 26/10/2026. A taxa de R$ 4,99 é nossa, obtida pela divisão desses valores. O cenário de Chicago usa a queda de quase 20 centavos, medida pela Reuters às 13h30 de 26/10 sobre a cotação de cerca de US$ 12,57 (valor em US$ 12,376 por bushel). A ureia (US$ 470 por tonelada) é da Revista Cultivar, de 14/10/2026. A citação de Jack Scoville é a versão em português publicada pela Reuters no Investing.com Brasil. Não consultamos as empresas citadas. A conta ignora frete, impostos, contratos e estoques, e os preços mudam durante a sessão.

Fontes