Sem Brics nem Mercosul, com OCDE: a política externa no plano de Flávio
O plano de Flávio Bolsonaro no TSE não cita BRICS nem Mercosul, elege EUA, Argentina e Israel como parceiros centrais e faz da adesão à OCDE prioridade.

O capítulo de política externa do plano de Flávio Bolsonaro chama atenção pelo que não diz. O documento registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não cita o BRICS, o bloco que o Brasil ajudou a fundar. Não cita o Mercosul, a união aduaneira que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Para o ND+, que leu o programa, “o silêncio é uma posição — mas é difícil saber qual”.
As ausências impressionam porque o resto é explícito. O texto elege três eixos, segundo o ND+. O primeiro é a adesão à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Vêm depois a reaproximação com Estados Unidos, Argentina e Israel e a abertura comercial gradual.
O que o plano elege
A OCDE, o clube de padrões econômicos com sede em Paris, aparece como prioridade. O texto promete “retomar a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico”. No pacote de adequação às normas do clube, inclui “o fim gradual do IOF sobre o câmbio” — o imposto sobre operações de câmbio.
Há um detalhe na palavra “retomar”. A adesão nunca parou: o processo seguia em curso no governo Jair Bolsonaro e foi mantido pelo governo Lula, registra o ND+. O Brasil é candidato desde 2022, como esta revista explicou. Flávio apenas eleva à condição de prioridade explícita o que já corria devagar.
Os parceiros nomeados vêm em seguida. Estados Unidos, Argentina e Israel são chamados de “parceiros mais importantes e tradicionais”, com quem o governo “não tratará como adversários”. Segundo o texto, essas relações “foram levadas ao limite do rompimento” e pedem reaproximação. China e União Europeia aparecem como interlocutores, sem o mesmo destaque.
A linha é a diplomacia “mais pragmática”, guiada pelo “interesse nacional”. Em comício em Natal, em 21 de setembro, o candidato definiu a relação com Pequim como “sempre pragmática economicamente” e completou: “A gente não tem que escolher um lado”, registrou o ND+.
As ausências que falam mais alto
Do BRICS, o plano não propõe sair nem ficar — apenas omite. Do Mercosul, idem. Mas a campanha fala.
Flávio referiu-se à perspectiva de “libertar o Brasil das amarras do Mercosul”, frase que circulou amplamente na imprensa, registrou o ND+. O argumento é o de sempre: a tarifa externa comum, o imposto único que os sócios cobram do que vem de fora, limitaria acordos bilaterais.
A diferença entre reformar o bloco e virar-lhe as costas importa a quem exporta. O Brasil acabou de implementar, provisoriamente, um acordo histórico com a União Europeia — negociado em bloco, como bloco. O plano aposta que conversas bilaterais, sobretudo com Washington, valem mais do que a união aduaneira que acaba de entregar um acordo desse tamanho.
O silêncio sobre os blocos contrasta com a minúcia do capítulo mineral. O texto quer mais processamento no Brasil, Estado como regulador e não empresário, capital estrangeiro e licenciamento simplificado, segundo síntese do Brasil de Fato, veículo alinhado à esquerda. Na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, Flávio apresentou o Brasil como a saída dos EUA à dependência da China em terras raras. Segundo a Reuters, o acesso americano aos minerais brasileiros é um dos pontos sensíveis do grupo de trabalho sobre tarifas.
Há ainda uma terceira ausência, segundo o ND+: o plano não menciona o Escudo das Américas, a aliança de segurança hemisférica de Trump, criada em março com 17 países da região — sem o Brasil. O desenho é o de uma aproximação seletiva: com Washington em tudo, menos na aliança que não convida o país.
O que diz o plano de Flávio: O documento promete uma diplomacia “mais pragmática”, guiada pelo “interesse nacional”, e afirma que não tratará Estados Unidos, Argentina e Israel como adversários — relações que, segundo o texto, “foram levadas ao limite do rompimento”. A adesão à OCDE aparece entre as prioridades. Sobre BRICS e Mercosul, o texto não toma posição.
Somados, os eixos desenham um retrato coerente: fora do BRICS, fora do centro de gravidade do Mercosul, na fila da OCDE, ao lado de Washington. Nada disso é proibido — eleições existem para escolher rumos. O problema está no que o retrato omite: um bloco que acaba de entregar um acordo com a União Europeia. E um processo de adesão à OCDE que nunca esteve parado, apesar da palavra “retomar”.
Quem exporta não escolhe clube por gosto, escolhe por mercado. Em 25 de outubro, o eleitor decide o mapa dos próximos quatro anos — e com quem o Brasil senta à mesa.
Fontes
- Lula defende Brics na campanha e Flávio quer saída do Brasil do grupo — Poder360
- O programa de Flávio Bolsonaro não menciona Brics nem Mercosul — ND+
- Quem vai controlar as terras raras do Brasil? Lula e Flávio apresentam caminhos distintos — Brasil de Fato
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Brazil election to reshape trade with US, with tariffs and minerals at stake — Reuters via Internazionale



