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Sair do Brics: a ideia de Flávio

Flávio Bolsonaro disse que considera tirar o Brasil do BRICS; o plano de governo que registrou no TSE simplesmente ignora o bloco e o Mercosul.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante sessão plenária da cúpula do BRICS no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro.
Sessão plenária da cúpula do BRICS no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, em 6 de julho de 2025, quando o Brasil sediou o encontro do bloco, em foto de arquivo.Foto: Ricardo Stuckert / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC0)

Em 3 de junho, Flávio Bolsonaro disse que considera tirar o Brasil do BRICS. “Vamos considerar deixar o bloco”, declarou ao podcast da Prager University, nos Estados Unidos. A frase, registrada pelo Poder360, abriu a diferença mais nítida entre os dois projetos de política externa do segundo turno.

Na entrevista, o candidato do Partido Liberal (PL) disse: “vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que, hoje, é muito ideológico”. Na avaliação dele, o grupo é usado por Lula “para provocar, inclusive, os Estados Unidos e o presidente Trump”. O bloco, na versão do candidato, propõe que o dólar deixe de ser moeda de transações internacionais.

O BRICS reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — hoje, mais outros países emergentes. O Brasil é fundador. O plano de governo que Flávio registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não menciona o bloco uma única vez, noticiaram o Poder360 e o ND+. Cita os Estados Unidos seis vezes e a China duas.

O contraste com Lula é total. O plano do presidente menciona o grupo três vezes, segundo o Poder360, e promete: “Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20”. Lula participou das duas primeiras cúpulas do grupo, em 2009 e 2010, e defende o bloco na campanha.

O que o bloco movimenta

A discussão não é abstrata para quem exporta. De janeiro a setembro de 2026, os países fundadores do grupo compraram US$ 95 bilhões em exportações brasileiras, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio compilados pelo Poder360.

O bloco também entrega posição. Na cúpula de Nova Délhi, em setembro, a declaração final reiterou o apoio de China e Rússia ao Brasil. Os dois países endossam a pretensão brasileira de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Para o ND+, o grupo é “um dos eixos centrais da inserção brasileira no Sul Global”.

Há precedente em casa, e ele pesa contra a saída. O governo de Jair Bolsonaro, alinhado a Washington, nunca propôs deixar o grupo. Em 2019, o ex-presidente foi anfitrião de uma cúpula do BRICS e falou em cooperação entre governos e sociedades, lembrou o Poder360.

A despedida tem modelo na região. O argentino Javier Milei anunciou, ao assumir em dezembro de 2023, que o país não ingressaria no bloco — e reverteu o aceite do antecessor. A próxima cúpula, em 2027, refletirá a escolha brasileira: mudança ou reforço da posição do país no grupo, segundo o Poder360.

O jogo com Washington

O presidente americano, Donald Trump, é abertamente crítico. Em 2025, chamou a cúpula do Rio de “esvaziada” e ameaçou taxar países ligados ao bloco, registrou o Poder360. A Axios nota que ele não deu endosso formal a nenhum dos dois candidatos no segundo turno.

Flávio escolheu a aproximação. Em maio, foi à Casa Branca, encontrou Trump e, no dia seguinte, o secretário de Estado, Marco Rubio. Prometeu parcerias estratégicas de longo prazo com os EUA em minerais, com investimento protegido, segundo a CNN Brasil. Na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, apresentou o Brasil como a saída americana à dependência da China em terras raras.

Resta o silêncio do plano. “Para o analista, o silêncio é uma posição — mas é difícil saber qual”, resumiu o ND+. O documento promete negociar “com todos os que interessam ao Brasil”, sem dizer se a mesa do BRICS segue posta para o próximo presidente.

O que diz Flávio: O candidato diz que vai “reavaliar” a permanência no BRICS e que decidirá pelo “interesse nacional”. Seu plano promete uma diplomacia “mais pragmática” e negociar “com todos os que interessam ao Brasil”, sem anunciar rompimentos — apenas a omissão do bloco.

Sair de um bloco é decisão de Estado, não de palanque. Exige calcular o custo de US$ 95 bilhões em vendas. E o preço de perder o foro em que o Brasil se senta com Pequim e Moscou. Sair é abrir mão da mesa que o país ajudou a fundar — e o plano de Flávio não faz essa conta.

Em 25 de outubro, o eleitor decide se o Brasil continua sentado onde sempre esteve ou se recolhe a cadeira.

Fontes