Sair do Brics: a ideia de Flávio
Flávio Bolsonaro disse que considera tirar o Brasil do BRICS; o plano de governo que registrou no TSE simplesmente ignora o bloco e o Mercosul.

Em 3 de junho, Flávio Bolsonaro disse que considera tirar o Brasil do BRICS. “Vamos considerar deixar o bloco”, declarou ao podcast da Prager University, nos Estados Unidos. A frase, registrada pelo Poder360, abriu a diferença mais nítida entre os dois projetos de política externa do segundo turno.
Na entrevista, o candidato do Partido Liberal (PL) disse: “vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que, hoje, é muito ideológico”. Na avaliação dele, o grupo é usado por Lula “para provocar, inclusive, os Estados Unidos e o presidente Trump”. O bloco, na versão do candidato, propõe que o dólar deixe de ser moeda de transações internacionais.
O BRICS reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — hoje, mais outros países emergentes. O Brasil é fundador. O plano de governo que Flávio registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não menciona o bloco uma única vez, noticiaram o Poder360 e o ND+. Cita os Estados Unidos seis vezes e a China duas.
O contraste com Lula é total. O plano do presidente menciona o grupo três vezes, segundo o Poder360, e promete: “Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20”. Lula participou das duas primeiras cúpulas do grupo, em 2009 e 2010, e defende o bloco na campanha.
O que o bloco movimenta
A discussão não é abstrata para quem exporta. De janeiro a setembro de 2026, os países fundadores do grupo compraram US$ 95 bilhões em exportações brasileiras, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio compilados pelo Poder360.
O bloco também entrega posição. Na cúpula de Nova Délhi, em setembro, a declaração final reiterou o apoio de China e Rússia ao Brasil. Os dois países endossam a pretensão brasileira de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Para o ND+, o grupo é “um dos eixos centrais da inserção brasileira no Sul Global”.
Há precedente em casa, e ele pesa contra a saída. O governo de Jair Bolsonaro, alinhado a Washington, nunca propôs deixar o grupo. Em 2019, o ex-presidente foi anfitrião de uma cúpula do BRICS e falou em cooperação entre governos e sociedades, lembrou o Poder360.
A despedida tem modelo na região. O argentino Javier Milei anunciou, ao assumir em dezembro de 2023, que o país não ingressaria no bloco — e reverteu o aceite do antecessor. A próxima cúpula, em 2027, refletirá a escolha brasileira: mudança ou reforço da posição do país no grupo, segundo o Poder360.
O jogo com Washington
O presidente americano, Donald Trump, é abertamente crítico. Em 2025, chamou a cúpula do Rio de “esvaziada” e ameaçou taxar países ligados ao bloco, registrou o Poder360. A Axios nota que ele não deu endosso formal a nenhum dos dois candidatos no segundo turno.
Flávio escolheu a aproximação. Em maio, foi à Casa Branca, encontrou Trump e, no dia seguinte, o secretário de Estado, Marco Rubio. Prometeu parcerias estratégicas de longo prazo com os EUA em minerais, com investimento protegido, segundo a CNN Brasil. Na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas, apresentou o Brasil como a saída americana à dependência da China em terras raras.
Resta o silêncio do plano. “Para o analista, o silêncio é uma posição — mas é difícil saber qual”, resumiu o ND+. O documento promete negociar “com todos os que interessam ao Brasil”, sem dizer se a mesa do BRICS segue posta para o próximo presidente.
O que diz Flávio: O candidato diz que vai “reavaliar” a permanência no BRICS e que decidirá pelo “interesse nacional”. Seu plano promete uma diplomacia “mais pragmática” e negociar “com todos os que interessam ao Brasil”, sem anunciar rompimentos — apenas a omissão do bloco.
Sair de um bloco é decisão de Estado, não de palanque. Exige calcular o custo de US$ 95 bilhões em vendas. E o preço de perder o foro em que o Brasil se senta com Pequim e Moscou. Sair é abrir mão da mesa que o país ajudou a fundar — e o plano de Flávio não faz essa conta.
Em 25 de outubro, o eleitor decide se o Brasil continua sentado onde sempre esteve ou se recolhe a cadeira.
Fontes
- Lula defende Brics na campanha e Flávio quer saída do Brasil do grupo — Poder360
- O programa de Flávio Bolsonaro não menciona Brics nem Mercosul — ND+
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Trump e a eleição presidencial brasileira, com tarifas e Amazônia — Axios



