Com Milei em silêncio, o Brasil precisa segurar o Mercosul
Milei ainda não felicitou Lula, e as exportações à Argentina caíram 19,4% no semestre. Manter a integração regional depende agora de Brasília.
Comentário assinado. A posição expressa neste texto pertence ao autor e não representa necessariamente a linha editorial da Revista Soberania.

Na segunda-feira (26), um dia depois da reeleição de Lula, o presidente argentino Javier Milei ainda não o havia parabenizado. Segundo o jornal argentino Los Andes, ele evitou saudar Lula no X até a manhã daquele dia.
Na terça-feira (27), o porta-voz do governo, Adrián Ravier, disse que não haveria comunicado oficial “por ahora”. Este texto defende uma tese: com Milei calado, cabe ao Brasil manter a integração regional viva. Os números mostram por quê.
Lula foi reeleito no domingo (25). Vários governos já reconheceram o resultado. O uruguaio Yamandú Orsi disse: “Cumprimentei pelo triunfo e pela festa democrática que representa o processo eleitoral”. Segundo o Los Andes, o chileno José Antonio Kast e o boliviano Rodrigo Paz, ambos de direita, também parabenizaram Lula.
A lista inclui o presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. A ausência de Milei chama atenção porque a Argentina é um dos quatro países fundadores do Mercosul.
O comércio com a Argentina já perdeu terreno
A queda não começou com a eleição. As exportações brasileiras para a Argentina caíram 19,4% no primeiro semestre de 2026, para US$ 7,4 bilhões. No mesmo período de 2025, tinham somado US$ 9,1 bilhões, segundo o MDIC, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Exportações do Brasil para a Argentina caíram no primeiro semestre Valores de janeiro a junho, em US$ bilhões, e participação nas exportações totais do Brasil
| Indicador | 2025 | 2026 |
|---|---|---|
| Exportações para a Argentina (US$ bi) | 9,1 | 7,4 |
| Participação nas exportações totais | 5,5% | 4% |
Fonte: MDIC, citado pela reportagem da Folhapress publicada pelo Diário do Comércio, em 1º/8/2026. Variação de −19,4% publicada na reportagem.
A fatia argentina nas vendas externas do Brasil também encolheu, de 5,5% para 4%. Em 2025, a história era outra. As exportações para o país vizinho cresceram 31,4%, puxadas pelo setor automotivo, segundo o governo federal.
A reportagem da Folhapress aponta mais de uma causa. Ela cita medidas de abertura às importações do governo argentino, que favorecem produtos chineses, e a presença crescente de montadoras chinesas. Cita também a instabilidade da economia argentina. As vendas de veículos de passageiros para o mercado argentino caíram 28,2% em valor no semestre.
Ou seja, o mercado não se perde só para o vizinho. Perde-se para quem chega com preço e com acordo. Quando a Argentina compra menos, quem sente é a montadora, o fornecedor de peças e o trabalhador da linha de produção.
Os acordos existem, mas a crítica tem base
O Mercosul não está parado. A parte comercial do acordo com a União Europeia começou a valer de forma provisória em 1º de maio de 2026, segundo a Comissão Europeia. Somados, os dois blocos têm PIB de US$ 22,4 trilhões e 718 milhões de habitantes, segundo o Senado Notícias.
Em 1º de agosto, entrou em vigor para o Brasil o acordo com Singapura. Pelo Decreto 13.081, de 27 de julho de 2026, Singapura passou a isentar de imediato os produtos do Mercosul, segundo o Atlas Público.
Milei tem um argumento. Em dezembro de 2024, ele disse: “Propuse que cada uno de los países tenga libertad de poder negociar tratados de libre comercio” (tradução nossa), segundo o elDiarioAR. Ele também defendeu baixar a tarifa externa comum (TEC), a taxa que o bloco cobra de produtos de fora. A crítica é séria: a regra conjunta atrasa acordos individuais.
O argumento tem base, mas o bloco já reagiu. Em junho de 2025, o Mercosul ampliou em 50 produtos a lista de exceções à TEC, a pedido da Argentina, segundo a Agência Brasil. Ou seja, parte da flexibilidade que Milei queria já entrou no bloco.
O problema, então, é outro. Em 5 de fevereiro deste ano, a Argentina assinou um acordo com os Estados Unidos. O governo brasileiro levou dúvidas ao Grupo Mercado Común em março, por temer distorções no comércio interno do bloco. Pediu que as concessões aos EUA passem pelas exceções já previstas no Mercosul, segundo o La Capital, de Mar del Plata.
Sair do bloco ou negociar sozinho não resolve o problema de escala. Um acordo com a União Europeia ou com Singapura pesa mais quando o Brasil negocia em conjunto. O desafio é dar à Argentina espaço para flexibilizar sem romper as regras que protegem os dois países.
O que diz o governo argentino: Na terça-feira (27), o porta-voz Adrián Ravier disse que o governo tomou nota do resultado eleitoral brasileiro e que, por ora, não haverá comunicado. Ele afirmou, segundo o LM Neuquén, que Lula também não cumprimentou Milei pessoalmente quando este foi eleito, em 2023. A redação não procurou o governo antes da publicação; a posição vem de declarações públicas.
O que isso significa
O governo argentino ainda não se manifestou oficialmente. A próxima eleição argentina é em 2027, e uma fonte libertária disse ao Los Andes que “falta un año para la elección”. Milei pode mudar de tom.
A integração regional não depende de uma declaração no X. Depende de regras claras, de prazos para os acordos e de um governo brasileiro que trate a Argentina como sócio, e não como problema.
Como fizemos: Reunimos reportagens da Agência Brasil, da Agência Gov, do Los Andes, do LM Neuquén, do elDiarioAR, do La Capital e do Diário do Comércio, acessadas em 27/10/2026. Os números de comércio vêm do MDIC, citado pelo Diário do Comércio, e do governo federal (Secom). Não consultamos o Comex Stat diretamente, nem os textos oficiais de Singapura e do acordo Argentina–EUA; usamos os resumos da imprensa. A participação de 2025 e 2026 e a variação vêm das reportagens; não fizemos cálculos próprios.
Fontes
- Agência Brasil: Líderes estrangeiros reconhecem vitória e parabenizam Lula, 26/10/2026 (acesso em 27/10/2026)
- Agência Gov: Líderes europeus e latino-americanos parabenizam Lula, 26/10/2026 (acesso em 27/10/2026)
- Los Andes: Milei se llamó al silencio: qué dijeron en Casa Rosada sobre el triunfo de Lula en Brasil, 26/10/2026 (acesso em 27/10/2026)
- LM Neuquén: La justificación del gobierno de Milei sobre su silencio sobre Lula, 27/10/2026 (acesso em 27/10/2026)
- Diário do Comércio (Folhapress): Concorrência cresce, e vendas do Brasil à Argentina despencam no 1º semestre, 01/08/2026 (acesso em 27/10/2026)
- Secom/gov.br: Brasil alcança US$ 349 bilhões em exportações durante 2025 e bate recorde histórico, 01/2026 (acesso em 27/10/2026)
- Senado Notícias: Sonhado há 30 anos, acordo Mercosul-UE entra em vigor, 04/2026 (acesso em 27/10/2026)
- Comissão Europeia (Representação em Portugal): Acordo comercial provisório UE-Mercosul entra em aplicação, 30/04/2026 (acesso em 27/10/2026)
- Atlas Público: Decreto promulga acordo de livre comércio entre Mercosul e Singapura (acesso em 27/10/2026)
- Agência Brasil: Presidentes vão flexibilizar tarifas comerciais do Mercosul, 26/06/2025 (acesso em 27/10/2026)
- elDiarioAR: Milei insiste en flexibilizar el Mercosur para permitir acuerdos bilaterales de libre comercio, 23/12/2024 (acesso em 27/10/2026)
- La Capital (Mar del Plata): Brasil advierte que el acuerdo comercial entre Argentina y EE.UU. podría tensar al Mercosur, 26/06/2026 (acesso em 27/10/2026)



