Tribuna

A bolsa não é placar de legitimidade da eleição

O Ibovespa caiu 13,88% após a reeleição de Lula. Mas a B3 tem 5,7 milhões de CPFs em renda variável, e isso não dá ao mercado poder de veto.

Comentário assinado. A posição expressa neste texto pertence ao autor e não representa necessariamente a linha editorial da Revista Soberania.

Fachada do prédio da Bovespa, no centro de São Paulo, com arcos de pedra, a placa BOVESPA na parede e a bandeira do Brasil.
Entrada do prédio da Bovespa, no centro de São Paulo, que hoje é a sede da B3. Foto recortada no formato paisagem.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. O Ibovespa é o índice que reúne as ações mais negociadas da B3, a bolsa de valores de São Paulo. A queda veio um dia depois da reeleição de Lula.

Foi o primeiro circuit breaker desde março de 2020, segundo a InfoMoney. Circuit breaker é a trava automática que suspende as negociações. A Bloomberg Línea informou que o índice caiu 10% logo na abertura. O dólar comercial fechou perto de R$ 5,40, com alta de cerca de 8%.

Uma leitura possível trata essa queda como um veredito sobre a eleição. Ela confunde duas coisas. Uma é a aposta de quem compra ações. A outra é a escolha de milhões de eleitores. A bolsa não é um placar da democracia.

Quem vota e quem investe

O resultado da urna foi claro. Lula teve mais de 4,4 milhões de votos a mais que Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), segundo a Agência Brasil. Flávio recebeu mais de 59 milhões de votos.

O voto é secreto e é apurado pela Justiça Eleitoral, sob o comando do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A bolsa tem outra função: organizar a negociação de papéis entre quem compra e quem vende. Não foi desenhada para decidir quem governa.

Agora, o outro lado da conta. Em 17 de setembro, a B3 informou 5,7 milhões de CPFs de pessoas físicas em renda variável no segundo trimestre de 2026. CPF é o número que identifica cada pessoa no país. Renda variável reúne aplicações cujo preço muda todo dia, como ações e fundos.

Esses 5,7 milhões equivalem a cerca de 2,7% dos 214,2 milhões de habitantes estimados pelo IBGE para 1º de julho de 2026. Ou seja, cerca de uma pessoa em cada 38. O número de votos de Flávio é mais de dez vezes maior que o de investidores pessoas físicas.

Isso não tira o direito de quem investe de reagir. Mas a bolsa mede apostas de uma minoria, e não a vontade da maioria. Antes da votação, a maior parte dos investidores já tinha se posicionado para uma vitória de Bolsonaro, segundo a Bloomberg Línea. A queda reflete a frustração dessa aposta.

Onde a crítica tem razão

Dizer que a bolsa não é placar não significa ignorar a queda. Ela atinge quem tem ações e fundos, e pode se espalhar. Um dólar mais caro tende a encarecer produtos importados. Juros mais altos encarecem empréstimos e financiamentos. Esses efeitos chegam a quem nunca comprou uma ação.

O argumento mais forte contra nossa posição é o risco fiscal, ou seja, o risco de as contas públicas saírem do controle. Segundo a InfoMoney, William Jackson, economista da Capital Economics, avaliou que a vitória deve frustrar esperanças de reformas que melhorariam as finanças públicas. Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, disse que o governo precisa dar sinais fiscais consistentes.

Esse risco é real, e quem o aponta tem um ponto. Um governo que sinaliza gasto sem controle pode encarecer a própria dívida. A dívida pública já está acima de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz, segundo a Bloomberg Línea. Mas a resposta está no Orçamento, no Congresso e no Banco Central, onde a política econômica é decidida. Pressão de mercado não substitui esse debate.

O que diz a B3: Em comunicado de 17/09/2026, a bolsa informou os 5,7 milhões de CPFs em renda variável no segundo trimestre. Não localizamos comunicado da B3 sobre a queda desta segunda-feira. A redação não enviou perguntas à bolsa antes da publicação.

O que isso significa

A bolsa mostra o que os investidores temem e o que apostaram. Não mostra quem tem legitimidade para governar. Isso se decide nas urnas e nas instituições que as garantem.

Na noite de domingo (25), Flávio Bolsonaro disse: “Vamos usar nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições”, segundo a Agência Brasil. Contestar um resultado passa pela Justiça Eleitoral, e não pelo pregão. Às 17h48 desta segunda, a Folha de S.Paulo, reproduzida pelo jornal A Gazeta, informou que ele desistiu do pedido de anulação e deve apresentar uma ação por suposto abuso de poder contra Lula.

A pergunta útil não é se o mercado aprova a eleição. É se o país consegue sustentar suas contas com crescimento e com renda para quem vive do próprio trabalho.

Ativos podem perder valor, e pânicos podem aprofundar as quedas. Este texto é opinião, e não recomendação de compra ou venda.

Como fizemos: Usamos a InfoMoney (26/10/2026) para o fechamento do Ibovespa, o dólar e o primeiro circuit breaker desde 2020; a Bloomberg Línea (26/10/2026) para a queda de 10% na abertura, a posição dos investidores e a dívida acima de 80% do PIB; e a Agência Brasil (25/10/2026) para a diferença de votos e a fala de Flávio. A B3 (17/09/2026) forneceu os CPFs, e o IBGE, via Poder360, a população. Todas as fontes foram acessadas em 26/10/2026. Cálculos nossos: 5,7 milhões sobre 214,2 milhões, cerca de 2,7% ou uma pessoa em 38, e a comparação com mais de 59 milhões de votos. A base da B3 conta só pessoas físicas, sem fundos e outros investidores institucionais. Não encontramos o total exato de votos válidos nas fontes consultadas.

Fontes