Tribuna

Entre o pânico e a aposta, a educação financeira é política pública

Após a queda de 13,88% do Ibovespa, o pequeno investidor precisa separar investir de apostar. Proteger o poupador é questão pública.

Comentário assinado. A posição expressa neste texto pertence ao autor e não representa necessariamente a linha editorial da Revista Soberania.

Uma mulher com microfone fala a uma plateia lotada de professores em um auditório, enquanto três pessoas observam do palco.
Auditório lotado no 1º Seminário de Educação Financeira, Inovação e Empreendedorismo do Rio Grande do Sul, em Pelotas, em 11 de novembro de 2022.Foto: Gustavo Vara / Prefeitura de Pelotas / Wikimedia Commons (Domínio Público)

Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. O índice reúne as ações mais negociadas na B3, a bolsa de valores brasileira. A queda veio um dia depois da reeleição de Lula, no domingo (25), segundo o InfoMoney.

Às 9h57, a B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações por 30 minutos quando o índice cai 10%. O dólar comercial subiu 8,21%, para R$ 5,403, no mesmo dia. Para quem tem ações ou fundos, a perda apareceu logo no primeiro pregão.

Este texto propõe outra pergunta. O que separa investir de apostar, e de quem é a responsabilidade de ensinar essa diferença?

A parcela de quem investe em bolsa é pequena. A B3 contou 5,7 milhões de CPFs de pessoas físicas em renda variável no segundo trimestre de 2026. CPF é o cadastro de cada pessoa no país. Esse número equivale a cerca de 2,7% dos 214,2 milhões de habitantes estimados pelo IBGE.

Renda variável reúne aplicações cujo preço muda todo dia, como ações e fundos imobiliários. Em renda fixa, como os títulos públicos, a B3 contou 107,1 milhões de pessoas físicas no mesmo trimestre.

Investir não é apostar

Investir é colocar dinheiro em um ativo conhecendo o prazo, o custo e o risco, com a chance de perder. Apostar é depender de um resultado que a pessoa não controla, com a casa cobrando sua parte. A diferença está menos no nome do produto e mais no que a pessoa faz depois de perder.

A confusão tem custo. Em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões com apostas via Pix. O número vem de um estudo do Banco Central, pedido pelo senador Omar Aziz. Segundo a Rádio Senado, o valor equivale a 21% do total repassado às famílias no mesmo período.

O endividamento completa o quadro. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), com dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), 81,6% das famílias tinham dívidas em maio de 2026. A fatia de famílias inadimplentes era de 29,9%. Os dados não provam que as apostas causem essas dívidas. Mostram que as duas pressões pesam sobre o mesmo orçamento.

Proteger o poupador é política pública

O país já tem uma estrutura para isso. O Decreto 10.393, de 2020, criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) e o Fórum Brasileiro de Educação Financeira (FBEF). Entre os membros do fórum estão o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que fiscaliza o mercado de capitais, e a Superintendência de Seguros Privados (Susep).

O que diz o Decreto 10.393/2020: a estratégia tem a finalidade de “promover a educação financeira, securitária, previdenciária e fiscal no País”, segundo o texto publicado no Planalto.

O Banco Central mantém o Aprender Valor, programa para escolas públicas. Em abril de 2022, segundo o Poder360, o BC tinha cerca de 1,2 milhão de estudantes inscritos, em 17 mil escolas. São os números mais recentes que encontramos, e têm mais de três anos.

O acesso aos produtos públicos também é barato. A página oficial do Tesouro Direto, operacionalizado pela B3, anuncia investimento mínimo acessível, com o valor exato divulgado no próprio site. Mas entrada barata não elimina o risco. Um título pode valer menos que o valor pago se for vendido antes do vencimento, segundo o InfoMoney.

O argumento contrário merece resposta. Ele diz que o próprio mercado ensina: quem perde dinheiro aprende, e o Estado não precisa tutelar adultos. Essa tese tem parte de razão, porque o prejuízo ensina. Mas quem não tem reserva de emergência não aguenta pagar essa lição.

Em audiência pública no Senado, segundo reportagem da Brasil 247 de 25 de maio de 2026, o especialista em finanças José Kobori afirmou: “Só a educação financeira não será suficiente”. Para ele, a fiscalização cabe ao Estado e aos órgãos reguladores, porque o pequeno investidor não consegue identificar certas fraudes sozinho.

Os números não dizem se alguém deve comprar ou vender nada, e este texto também não diz. Eles mostram uma base pequena de investidores diretos e uma base grande de famílias com dívidas. Ações e fundos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar, como mostrou a queda desta segunda-feira.

Por isso, educação financeira e proteção ao poupador devem ser política permanente, com orçamento e avaliação, e não campanha de um dia. A decisão sobre o orçamento cabe ao governo e ao Congresso. Nossa posição é que a prioridade deve ser ensinar a diferença entre investir e apostar, com dinheiro público e fiscalização.

Como fizemos: Usamos o InfoMoney (cobertura de 26/10/2026), a B3 (comunicado de 17/09/2026), a Rádio Senado (25/09/2024), O Povo, com dados da CNC e da Peic (10/06/2026), o Decreto 10.393/2020 (Planalto), o Poder360 (13/04/2022), a Brasil 247 (25/05/2026) e a página do Tesouro Direto, acessados em 26/10/2026. Os cálculos são nossos: 5,7 milhões sobre 214,2 milhões de habitantes, cerca de 2,7%. Não encontramos a página do Aprender Valor atualizada, e uma página do governo estava desativada por causa da legislação eleitoral; por isso o alcance do programa vem de 2022. Não enviamos perguntas ao Banco Central, à CVM ou à CNC, porque as posições citadas são públicas.

Fontes