Ensaios

Quedas fortes da Bolsa foram seguidas de altas, mas nem sempre

Estudos e episódios brasileiros mostram recuperações após quedas fortes, mas também anos de espera. Os limites dessa comparação importam.

Fachada de pedra do prédio da B3 no centro de São Paulo, com três arcos de entrada, placas com a palavra Bovespa e a bandeira do Brasil.
Entrada do prédio da B3 (antiga Bovespa), no centro de São Paulo, em foto de setembro de 2014.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Na segunda-feira (26), o Ibovespa fechou em 176.608 pontos, com queda de 13,88%. Segundo o InfoMoney, a B3 acionou o circuit breaker às 9h57, e as negociações à vista ficaram suspensas por 30 minutos. O dólar subiu cerca de 8%, para perto de R$ 5,40.

A pergunta que muita gente faz é simples: o que aconteceu depois de quedas assim? A história responde em partes. Ela mostra recuperações, mas também longas esperas e casos em que a espera durou décadas. Este texto não prevê o que vai acontecer agora e não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar.

O que dizem os estudos

Em 1994, Cox e Peterson publicaram no Journal of Finance um estudo sobre ações que caíram muito em um único dia. Segundo o resumo publicado em base bibliográfica, a reversão de curto prazo se explica por efeitos de negociação e de liquidez, e não por exagero do mercado. Ações com grandes quedas, porém, tiveram desempenho pior em prazos mais longos.

A Hartford Funds analisou as dez maiores quedas diárias do S&P 500, índice de ações dos Estados Unidos, de 1981 a 2025. Após a queda de 19 de outubro de 1987, de 20,47%, o índice subiu 23,19% em um ano. Após a de 29 de setembro de 2008, de 8,79%, caiu 4,14% no ano seguinte. Os dados não incluem dividendos.

A própria Hartford lembra que “past performance does not guarantee future results”, ou seja, o desempenho passado não garante resultados futuros.

O caso brasileiro

Quedas grandes e o tempo até a recuperação Ibovespa, variação e pontos no fechamento da data indicada

Episódio Queda Depois
2008, crise global (30/12/2008) -41,22% no ano, para 37.550 pontos Primeiro fechamento acima do pico de 2008 em 11/09/2017
Joesley Day (18/05/2017) -8,8%, para 61.597 pontos Não localizamos a data em que o índice voltou ao nível anterior
Pandemia (12/03/2020) -14,78%, para 72.582 pontos Voltou ao melhor fechamento pré-pandemia em janeiro de 2021

Fontes: Diario Financiero (2008), Seu Dinheiro (2017), Poder360 (2020), Jornal do Brasil (2017) e Revista Oeste (2021). Elaboração: redação.

Em 2009, o índice subiu 82,66%, segundo o InfoMoney. Mas o pico nominal de maio de 2008, de cerca de 73,5 mil pontos, só foi superado em fechamento em 11 de setembro de 2017, segundo o Jornal do Brasil. Corrigido pela inflação, o patamar de 2008 só foi superado em 15 de abril de 2026, segundo a Poder360.

No Japão, o Nikkei 225 fechou acima do recorde de 1989 somente em 22 de fevereiro de 2024, segundo a agência AP. Foram 34 anos.

Média não é garantia

Um cálculo da J.P. Morgan Asset Management, citado pelo Motley Fool, mostra o peso dos melhores dias. Entre 2000 e 2019, US$ 10 mil investidos no S&P 500 e mantidos viraram US$ 32.421, ou 6,06% ao ano. Sem os dez melhores pregões do período, viraram US$ 16.180, ou 2,44% ao ano.

O livro Triumph of the Optimists, de Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton, cobre 16 países desde o fim do século XIX. Segundo a editora Princeton University Press, alguns índices históricos superestimam o desempenho de longo prazo por causa do viés de sobrevivência, e isso ocorre em grande parte dos países.

O que diz a B3: Segundo o InfoMoney, a bolsa informou o acionamento do circuit breaker no mercado à vista, mecanismo que suspende as negociações quando o índice cai 10%. Não localizamos declaração da B3 sobre o que o episódio significa para quem investe.

O que isso significa

Os episódios têm causas diferentes: crise financeira global, pandemia e eleição. Por isso, a história não indica o prazo de uma recuperação. Em 2020, o Ibovespa voltou ao pico pré-pandemia em cerca de dez meses. Em 2008, levou quase uma década para superar o recorde nominal.

O que está em aberto é quanto tempo a queda de agora vai durar. Os dados passados não respondem essa pergunta. Investimentos em bolsa podem perder valor, e quedas fortes podem se aprofundar.

Como fizemos: Usamos o InfoMoney (26/10/2026) para o fechamento e o circuit breaker; o resumo de Cox e Peterson (1994), em base bibliográfica, sem acesso ao texto completo; a tabela da Hartford Funds sobre o S&P 500 (dados até 31/12/2025, sem dividendos); reportagem do Motley Fool (2020) sobre um guia da J.P. Morgan, que não consultamos diretamente; a descrição do livro pela Princeton University Press; e o Diario Financiero, Seu Dinheiro, Poder360, Jornal do Brasil, Revista Oeste (apenas trecho disponível) e AP, acessados em 26/10/2026. O único cálculo nosso é o intervalo entre 20/05/2008 e 11/09/2017, de cerca de nove anos e quatro meses. Não enviamos perguntas à B3 nem aos autores citados.

Fontes