Ensaios

Em 2008 e 2020, a bolsa caiu mais depois do circuit breaker

Em 2008 e em 2020, o Ibovespa caiu mais depois de pausas da B3, e os dados mostram por que ninguém acerta o fundo de uma queda.

Operadores cercados por colegas em um pregão de bolsa de valores, com telefones nas mãos e papéis espalhados no chão, em foto em preto e branco.
Operadores em pregão da bolsa de valores, com papéis espalhados no chão, em foto de arquivo.Foto: Núcleo Editorial / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na segunda-feira (26), a B3, bolsa de valores de São Paulo, acionou o circuit breaker logo na abertura. No fim do pregão, o Ibovespa, principal índice de ações da bolsa, fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. Segundo o InfoMoney, foi a primeira pausa desde março de 2020.

Um dia depois da reeleição de Lula, o dólar subiu cerca de 8%, para perto de R$ 5,40, segundo o Money Times. A pergunta que muitos investidores fazem é o que costuma acontecer depois de uma pausa como essa.

Como funciona a pausa

O circuit breaker é uma parada automática das negociações. Pelas regras publicadas pela B3, a queda é medida em relação ao fechamento do dia anterior. Se o Ibovespa cair 10%, as negociações param por 30 minutos.

Se a queda chegar a 15% na retomada, a pausa dura uma hora. Em 20%, a B3 pode determinar a suspensão por um período que ela mesma anuncia. Essas regras não valem nos últimos 30 minutos do pregão.

Por que ninguém acerta o fundo

Em outubro de 2008, durante a crise financeira global, a parada veio em 10 de outubro. Às 10h35, o índice caía 10,19%, e a negociação foi suspensa, segundo o Jornal do Brasil. Era a terceira parada daquela semana.

A queda não terminou ali. Em 15 de outubro, o Ibovespa fechou em baixa de 11,39%. Em 22 de outubro, caiu 10,18%. Os dados são da consultoria Economatica, citados pelo portal Suno.

Em março de 2020, a pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, pesou sobre os mercados. Em 9 de março, o índice caiu mais de 10% logo após a abertura, segundo o Poder360. Em 12 de março, houve duas paradas no mesmo dia, e o fechamento foi de queda de 14,78%, segundo A Gazeta.

Em 16 de março, a pausa veio às 10h24, com o índice em queda de cerca de 12,5%, segundo o Money Times. O fechamento foi de queda de 13,92%, segundo o InvestNews. Em 18 de março, a parada veio às 13h18, com queda de 10,26%, aos 66.961 pontos, segundo a Forbes Brasil.

Mesmo assim, o índice ainda caiu. Em 23 de março, chegou a 63.569 pontos, a menor pontuação do ano, segundo o Poder360. No mês, a bolsa perdeu 29,91%, a pior queda mensal desde agosto de 1998, segundo o InfoMoney.

Em 18 de maio de 2017, o Joesley Day também trouxe uma pausa. A divulgação de uma gravação de Joesley Batista, dono da JBS, derrubou o índice. O Ibovespa fechou em queda de 8,80%, aos 61.597 pontos, a maior queda diária desde outubro de 2008, segundo o InfoMoney. O dólar subiu de R$ 3,14 para R$ 3,38. Não localizamos o fechamento da sessão seguinte, por isso não afirmamos se a queda continuou.

Em 2002, a queda durou meses. O Ibovespa caiu de cerca de 14 mil pontos, em março, para 8.997, no início de outubro, segundo o Exame. O mercado temia a eleição de Lula, como mostra o texto desta revista sobre aquele ano.

Em setembro de 2022, Greg Davis, diretor de investimentos da Vanguard, gestora de fundos dos Estados Unidos, disse: “Successfully timing the stock market is near impossible, partly because the best trading days tend to cluster around the worst ones.” Em tradução livre: acertar o momento do mercado é quase impossível, em parte porque os melhores pregões tendem a se concentrar perto dos piores. A declaração foi publicada pela ThinkAdvisor em 27 de setembro de 2022.

Esse padrão tem uma consequência. Alguns investidores que compraram cedo perderam mais antes de a bolsa se recuperar. Em 2020, o Ibovespa fechou o ano com alta de 2,92%, aos 119.017 pontos, segundo o Poder360.

O que diz a B3: A bolsa descreve as regras da pausa em sua página oficial sobre o circuit breaker. Não localizamos comunicado da B3 sobre o pregão de 26 de outubro de 2026.

Os dados não dizem quando a queda termina, nem se a de agora vai se repetir. Cada episódio teve causas próprias: o medo de uma eleição em 2002, a crise global em 2008, a pandemia em 2020 e uma gravação de delação em 2017. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Esta reportagem descreve o que os números registraram. Não é recomendação de compra ou venda.

Como fizemos: Usamos as regras do circuit breaker publicadas pela B3 (versão em inglês da página oficial), o Jornal do Brasil (10/10/2008), a lista de quedas da consultoria Economatica citada pelo Suno, reportagens de março de 2020 (Poder360, Money Times, A Gazeta, InvestNews e Forbes Brasil), o InfoMoney sobre o Joesley Day e sobre março de 2020, o Exame sobre 2002, a ThinkAdvisor sobre a Vanguard e os números de 26/10/2026 do InfoMoney e do Money Times, acessados em 26/10/2026. Não localizamos a série histórica da B3 para conferir os fechamentos de 9, 12 e 16 de março de 2020, nem a sessão seguinte ao Joesley Day. Não fizemos cálculos novos. Não conseguimos abrir a página da Vanguard; a declaração de Greg Davis vem da reportagem da ThinkAdvisor. Não enviamos perguntas à B3 nem à Vanguard; as posições citadas são públicas.

Fontes