Ensaios

Em 2002, o mercado temeu Lula; a Bolsa subiu cinco anos seguidos

Em 2002, o dólar chegou perto de R$ 4 antes da posse de Lula. Os dados mostram a queda, a alta de 2003 a 2007 e os limites para explicar as causas.

Dois operadores de costas diante de um painel de cotações vermelho e verde da Bolsa de Valores de São Paulo.
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), com painel de cotações, em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 2002, o dólar subiu de R$ 2,31, no fim de 2001, para perto de R$ 4,00 em outubro. No mesmo ano, o Ibovespa, principal índice de ações da B3, a bolsa de São Paulo, caiu 17%. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), o real se desvalorizou mais de 50% em relação ao dólar à medida que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se tornava mais provável.

O medo não foi de um dia. Entre março e o início de outubro de 2002, o Ibovespa caiu de cerca de 14 mil para 8.997 pontos, segundo o Exame. Este texto não prevê o futuro. Ele mostra o que os números registraram depois de 2002, e o que eles não permitem afirmar.

Em 22 de junho de 2002, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro. O texto dizia que “o respeito aos contratos e obrigações do país” seria a premissa da transição. Segundo a FGV, a carta apontava para continuar a política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC).

Em 7 de agosto de 2002, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou um acordo de 15 meses, de cerca de US$ 30 bilhões. A meta era um superávit primário de pelo menos 3,75% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2003. Superávit primário é a sobra do governo antes de pagar juros da dívida. O PIB é a soma de tudo o que o país produz.

Os números de 2002 a 2007

Bolsa caiu até outubro de 2002 e subiu todos os anos até 2007 Dólar em reais e Ibovespa em pontos, valores nominais, pontos-chave de 2001 a 2007

Data Dólar (R$) Ibovespa (pontos)
Fim de 2001 2,31 —
Outubro de 2002 perto de 4,00 8.997 (início do mês)
Fim de 2002 3,53 11.268
Fim de 2003 — 22.236
Fim de 2007 — 63.886

Fonte: FGV (dólar em 2001 e em outubro de 2002); Exame (Ibovespa em outubro de 2002); Banco Central, cotação PTAX (fim de 2002); apresentação sobre os 30 anos do Real (Ibovespa). Média mensal do dólar em outubro de 2002: R$ 3,81 (PTAX). Elaboração: redação.

Depois de outubro, a Bolsa se recuperou em parte. Em 2002, o Ibovespa fechou com queda de 17% no ano. Em 2003, subiu 97%. Entre 2003 e 2007, o índice subiu em todos os anos e fechou 2007 em 63.886 pontos.

Esses valores são nominais, ou seja, não descontam a inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, foi de 9,30% em 2003, 7,60% em 2004, 5,69% em 2005, 3,14% em 2006 e 4,46% em 2007. Juntos, esses anos acumulam cerca de 34% de inflação.

Nossa conta mostra o efeito da inflação. Do fim de 2002 ao fim de 2007, o Ibovespa subiu cerca de 467% no nominal. Descontada a inflação, a alta foi de cerca de 323%. O cálculo não inclui dividendos, a parte do lucro que as empresas pagam aos acionistas.

Por que a Bolsa subiu? Explicações em disputa

Três explicações aparecem na literatura, e elas se misturam no tempo. A primeira é a política. Um artigo do próprio FMI, de 2007, diz que os spreads dispararam em 2002. Spread é a diferença de juros que o país paga em relação aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Segundo o texto, os spreads caíram depois que o governo ganhou credibilidade.

Um estudo de Carlo Favero e Francesco Giavazzi, publicado pela National Bureau of Economic Research (NBER) em 2004, trata o risco de calote como peça central do mecanismo. O spread do EMBI+, índice do banco JP Morgan para títulos de países emergentes, chegou a cerca de 2.400 pontos-base em 2002, segundo o estudo. Isso equivale a 24 pontos percentuais acima dos títulos americanos. Um ponto-base é 0,01 ponto percentual.

A segunda explicação é o ciclo global. Uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) data a alta dos preços de commodities, produtos básicos vendidos ao exterior, de setembro de 2003 a julho de 2008. Esse ciclo coincide com a alta da Bolsa. Coincidir, porém, não prova causa.

A terceira é a própria eleição. O FMI diz que os mercados temiam um vencedor de esquerda, o que provocou saídas relevantes de capital em 2002. Nossa leitura é que os três fatores começaram a agir quase ao mesmo tempo. Os estudos consultados não separam com precisão o peso de cada um.

O que diz Luiz Inácio Lula da Silva: Na Carta ao Povo Brasileiro, de 22 de junho de 2002, ele afirmou que o respeito aos contratos e obrigações do país seria a premissa da transição. A íntegra da carta foi publicada pelo Congresso em Foco.

Na segunda-feira (26), um dia depois da reeleição de Lula, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, e o dólar subiu cerca de 8,2%, para R$ 5,40, segundo o InfoMoney. A comparação com 2002 tem limites: o mercado, segundo o InfoMoney, estava posicionado para uma vitória de Flávio Bolsonaro.

O que os números mostram é uma sequência: medo antes da eleição, um acordo com o FMI e uma alta longa das ações. Uma sequência, porém, não prova que o mesmo roteiro se repete. Cada momento tem juros, dívida e preços internacionais próprios. O medo de 2002 durou de março a outubro, ou seja, cerca de sete meses. Pânicos podem se aprofundar, e ativos podem perder valor, mesmo depois de longos períodos de alta. Este texto é leitura histórica, não previsão nem recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos a FGV (blog do IBRE), o Exame (texto de 2014 com dados de 2002), o FMI (comunicado de 7/8/2002 e artigo de 2007), o Congresso em Foco (íntegra da carta), a NBER (working paper 10390, 2004), o Ipea (nota técnica), o IPCA publicado pela Dados de Mercado, a cotação PTAX do Banco Central e uma tabela do Ibovespa de apresentação sobre os 30 anos do Real, acessados em 26/10/2026. Nossos cálculos: variação do dólar (de R$ 2,31 para R$ 3,53, cerca de 53%), do Ibovespa (de 11.268 para 63.886 pontos) e a correção pelo IPCA acumulado de 2003 a 2007, sem dividendos. Não lemos na íntegra o estudo da NBER, o texto do Ipea nem a apresentação; o pico do spread vem de trecho disponível, e a data do pico varia entre fontes (julho ou setembro). Séries diferentes dão valores de fim de 2007 separados por algumas centenas de pontos. Não enviamos perguntas ao FMI nem a Lula; as posições citadas são públicas.

Fontes