Comércio exterior

Vendas à Argentina caem 25% em setembro; veículos perdem terreno

Exportações do Brasil à Argentina caíram 25,2% em setembro, para US$ 1,36 bilhão, e os veículos perdem mercado para marcas chinesas.

Longa ponte de concreto sobre o Rio Uruguai, com um caminhão atravessando, sob céu cinza e água barrenta.
Ponte internacional que liga Uruguaiana (RS) a Paso de los Libres (Argentina), sobre o Rio Uruguai.Foto: Dario Alpern / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em setembro de 2026, as vendas do Brasil à Argentina caíram 25,2%. Foram US$ 1,36 bilhão, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Os dados foram divulgados em 6 de outubro.

Entre os quatro principais parceiros comparados nessa divulgação, a Argentina teve a maior queda, segundo o Estadão Conteúdo. O saldo ficou quase zerado. O Brasil vendeu apenas US$ 50 milhões a mais do que comprou no mês.

O problema não começou em setembro. No primeiro semestre, as exportações ao país vizinho já tinham caído 19,4%, segundo a Secex, de acordo com o Poder360. A Argentina é um mercado importante para os veículos fabricados no Brasil.

Os carros pesam mais na queda

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o Brasil exportou 158,5 mil veículos para a Argentina de janeiro a setembro. Foi uma queda de 37,7% sobre as 254,4 mil unidades do mesmo período de 2025.

A conta dá cerca de 96 mil veículos a menos em nove meses. Esse cálculo é nosso, feito com os números da entidade. No total das exportações de veículos, a queda foi de 23%, para 334 mil unidades.

Em 8 de setembro, o presidente da Anfavea, Igor Calvet, explicou o motivo. “Com o avanço das marcas chinesas, a concorrência na Argentina está cada vez maior”, disse. Segundo a Bloomberg Línea, ele acrescentou: “Estamos perdendo market share no mercado argentino de maneira muito rápida.” Market share é a parcela do mercado que cada fabricante ocupa.

O trigo e o preço para o produtor

O comércio tem outro lado. O Brasil compra trigo de fora para abastecer os moinhos, e a Argentina segue como principal fornecedora. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o país pode importar 7,1 milhões de toneladas na safra 2026/27.

A colheita brasileira também encolheu. A Conab estimou em 5,8 milhões de toneladas a safra de 2026, queda de 26,2% sobre 2025. Com menos trigo nacional, a dependência do produto importado aumenta.

Os preços também seguem a Argentina. Em 21 de agosto, a Safras & Mercado informou que a referência do trigo argentino subiu 7,8%, de US$ 230 para US$ 248 por tonelada. Segundo a análise, a alta coincide com o dólar mais caro e pressiona a paridade de importação, ou seja, quanto o trigo de fora custaria no mercado brasileiro. No Paraná, as referências ficaram perto de R$ 1.450 por tonelada, sem frete, na mesma análise.

Para o produtor, o efeito chega pelo preço. Segundo a Safras, a valorização argentina e o dólar mais alto deram sustentação aos preços internos do trigo. Não encontramos dados de 2026 que meçam o efeito sobre a renda do produtor.

Do lado argentino, o Instituto Nacional de Estadística y Censos (Indec) registrou em setembro exportações de US$ 1,206 bilhão ao Brasil, alta de 2,7%. As importações vindas do Brasil somaram US$ 1,375 bilhão, queda de 19,2%. Pelos dados do Indec, a Argentina teve déficit de US$ 169 milhões com o Brasil no mês. Os dois países medem o comércio com métodos próprios, por isso os números não coincidem.

O que diz a Secex: Em 3 de julho, ao divulgar o primeiro semestre, o diretor Herlon Brandão atribuiu a queda à demanda menor do país vizinho por produtos brasileiros, segundo o Poder360. A reportagem não traz citação literal. Não enviamos perguntas à Secex para esta matéria.

O que isso significa

Os dados de setembro mostram um comércio que encolhe, com os carros no centro da perda. O superávit brasileiro continua no acumulado do ano, de US$ 1,63 bilhão, mas ficou pequeno no mês. A pergunta para produtores e para a indústria automotiva é se a concorrência chinesa na Argentina continua avançando. A próxima divulgação mensal da Secex trará os dados de outubro.

Como fizemos: Usamos os dados de comércio com a Argentina de setembro de 2026, divulgados pela Secex em 6 de outubro, segundo reportagens do Estadão Conteúdo publicadas pela CNN Brasil e pelo DGABC. Não conseguimos abrir o portal do MDIC diretamente. Os números de veículos vêm da Anfavea, segundo a Carnow e a Bloomberg Línea, e a diferença de cerca de 96 mil unidades é nosso cálculo (254,4 mil menos 158,5 mil). Os dados argentinos vêm do Indec, divulgados em 19 de outubro, e são estimativas. Não encontramos dados públicos de 2026 sobre demissões ou paradas de fábrica ligadas às vendas à Argentina. Acessos em 23 de outubro de 2026.

Fontes