Opinião

A política externa precisa ficar acima da eleição

Lula e Flávio Bolsonaro registraram planos distintos para o mundo; quem vencer deve preservar o Itamaraty profissional e os princípios do artigo 4º.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Ilustração provisória e abstrata: losangos concêntricos em dourado sobre azul-escuro.
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 25 de outubro, o eleitor escolhe entre dois programas de política externa bem diferentes. Os planos de governo de Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), e de Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), foram registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Agência Brasil comparou os dois textos em 13 de outubro.

Esta coluna não apoia nenhum dos candidatos. Defende uma ideia anterior ao voto: a diplomacia é política de Estado, e não de governo. Quem vencer deve mudar ênfases, mas preservar o que dá ao Brasil credibilidade no exterior.

Dois programas, duas ênfases

O plano de Lula defende uma política externa considerada “universalista” e “sem alinhamentos automáticos”, segundo a Agência Brasil. Propõe aprofundar os laços com o BRICS e o Sul Global, ampliar as relações com a África e fortalecer o Mercosul. Diz o texto: “A integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil.”

O plano de Flávio afirma que a diplomacia deve seguir o que classifica como interesse nacional, com uma linha “mais pragmática”. Propõe reaproximar o país de Estados Unidos, Israel e Argentina, relações que, segundo o texto, “foram levadas ao limite do rompimento”. Defende ainda a entrada na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

As diferenças são legítimas. Mas os dois planos coincidem em pontos importantes, como buscar novos acordos comerciais e atrair investimento para os minerais críticos.

O que a Constituição já decidiu

Parte da política externa não está em disputa. O artigo 4º da Constituição lista os princípios que regem o país no exterior. Entre eles estão a independência nacional, a não intervenção, a defesa da paz e a solução pacífica dos conflitos.

A Constituição também reparte o poder. O presidente celebra tratados, mas eles dependem do aval do Congresso. E o Senado precisa aprovar cada chefe de missão diplomática permanente, como manda o artigo 52.

O valor da continuidade

O melhor exemplo de política de Estado é recente. O acordo entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor, de forma provisória, em 1º de maio de 2026, após 26 anos de negociação, segundo a Agência Brasil. Atravessou presidentes de partidos e ideias opostas.

A OCDE é outro caso. O convite para o Brasil iniciar a adesão foi aprovado em janeiro de 2022, e o roteiro saiu em junho daquele ano, informou a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Processos assim levam anos e só avançam se sobrevivem às trocas de governo.

Essa continuidade depende de uma carreira profissional. A Lei nº 11.440, de 2006, organiza o Serviço Exterior. Pela lei, os chefes de embaixada saem, em regra, do topo da carreira diplomática, na qual se entra por concurso.

O que dizem os que defendem mudanças a cada governo: Para essa visão, a política externa é uma escolha política como outra qualquer e deve responder às urnas. Os dois programas registrados no TSE partem dessa premissa, ao prometer corrigir ou aprofundar rumos, segundo a Agência Brasil. A Constituição dá ao presidente eleito a competência de manter relações com Estados estrangeiros.

O próximo presidente pode assumir dois compromissos concretos. O primeiro é manter diplomatas de carreira à frente da grande maioria das embaixadas.

O segundo é propor uma lei que obrigue o governo a enviar ao Congresso, a cada quatro anos, um documento público de política externa. Para a defesa, a lei já exige isso desde 2012, com a Política e a Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco. Assim, a mudança de rumo vira debate aberto, e não surpresa a cada posse.

Fontes