Óleo de pequi leva acordo com a UE ao extrativismo do Cerrado
Cooperativa de Minas entregou três toneladas à França com redução tarifária. Caso mostra como o acordo pode chegar a produtos de nicho e renda local.

A Cooperativa Grande Sertão entregou três toneladas de óleo de pequi a um parceiro comercial na França. O embarque saiu de Minas Gerais e foi beneficiado pela redução de tarifas do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE), segundo relato do produtor José Fábio Soares à RFI.
A operação é pequena diante do comércio bilateral, mas mostra um efeito que os totais escondem. Um produto do Cerrado, feito por uma cooperativa, ganhou condições de competir em um nicho europeu. O acordo, portanto, não alcança apenas grandes frigoríficos e exportadores de commodities.
Produto de nicho transforma tarifa em oportunidade
O óleo de pequi é usado na alimentação e na indústria de cosméticos. Soares afirmou que a redução do imposto de importação melhorou o preço oferecido pelo parceiro francês. Para ele, o benefício permite ampliar volumes e gerar renda para famílias ligadas ao extrativismo sustentável.
Extrativismo sustentável combina coleta de recursos naturais e conservação do ambiente. No caso relatado, a atividade envolve mulheres, jovens e trabalhadores rurais. A exportação agrega uma etapa de processamento ao fruto, em vez de vender apenas a matéria-prima.
Três escalas ajudam a medir a oportunidade Dados sobre exportações brasileiras à França e à União Europeia
| Indicador | Valor | O que demonstra |
|---|---|---|
| Óleo de pequi entregue pela cooperativa | 3 toneladas | Operação concreta de produto do Cerrado |
| Oportunidades mapeadas na França | 407 | Produtos com potencial comercial, segundo a ApexBrasil |
| Exportações à UE de maio a setembro | US$ 27,2 bilhões | Total cresceu 30,6% sobre igual período de 2025 |
Fonte: RFI, ApexBrasil e MDIC. Elaboração: redação.
Tarifa menor não elimina outras exigências
O acordo entrou em aplicação provisória em 1º de maio de 2026. Ele reduz ou elimina tarifas de forma progressiva, conforme o produto. Alguns itens recebem benefício imediato; outros seguem cronogramas graduais. Tarifa é o imposto cobrado na importação.
O mercado europeu também exige regras sanitárias, certificações e comprovação de origem. Esses requisitos não desaparecem com o acordo. Para pequenos exportadores, documentação, escala e logística continuam sendo custos relevantes.
A comprovação de origem serve para demonstrar que o produto foi obtido e processado conforme as regras do acordo. Sem ela, a mercadoria pode perder a preferência tarifária. A etapa é decisiva para converter a negociação internacional em desconto efetivo na importação francesa.
A ApexBrasil, agência brasileira de promoção de exportações, identificou 407 oportunidades comerciais na França. O levantamento indica potencial, não vendas garantidas. Transformar oportunidade em receita depende de compradores, capacidade produtiva e cumprimento das normas europeias.
O contraste aparece no setor de carnes. Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), criticou restrições sanitárias que continuam impedindo produtos brasileiros. Ele defendeu uso pleno dos instrumentos do acordo. A posição mostra que abertura tarifária e acesso efetivo não são sinônimos.
O que diz a ApexBrasil: Pedro Neto, gerente de Agronegócios, afirmou à RFI que o acordo oferece oportunidades a cooperativas, microempresas e pequenos negócios. Segundo ele, uma cooperativa do semiárido começou a exportar mel à Alemanha em condições tarifárias mais favoráveis.
Renda local depende de capacidade e continuidade
O exemplo do pequi tem relevância porque combina processamento e organização cooperativa. A redução tarifária melhora a competitividade, mas o ganho social depende de como a renda é distribuída. Também exige continuidade dos pedidos e preservação do Cerrado.
Os próximos indicadores serão novos embarques e compradores, não apenas a primeira entrega. Para o Brasil, o desafio é oferecer suporte técnico e logístico a pequenos exportadores. Assim, o acordo pode ampliar a participação do interior em vez de concentrar ganhos nos grandes polos.
Como fizemos: Usamos o caso documentado pela RFI, os dados do MDIC e o levantamento da ApexBrasil reproduzidos na reportagem, acessados em 28/10/2026. A tabela separa uma operação individual, oportunidades potenciais e o comércio total. Os dados não permitem medir preço, lucro ou renda distribuída pela cooperativa.
Fontes
- RFI: exportações avançam com acordo Mercosul-UE, mas barreiras persistem, 28/10/2026 (acesso em 28/10/2026)
- MDIC: primeiras operações com cotas tarifárias do Acordo Mercosul-União Europeia (acesso em 28/10/2026)
- Wikimedia Commons: pequi do Cerrado, foto de Denibranco (CC BY-SA 4.0) (acesso em 28/10/2026)



