Geopolítica

Terras raras: valor está no refino, não apenas na reserva

Brasil tem a segunda maior reserva, enquanto China concentra 85% do refino. Disputa pode atrair investimento, mas exige capacidade industrial nacional.

Vista aérea de mina a céu aberto e instalações de processamento de terras raras entre montanhas.
Mina e unidade de processamento de terras raras de Mountain Pass, na Califórnia, em fevereiro de 2022.Foto: Tmy350 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas a China concentrava cerca de 85% do refino global em 2025. A comparação resume o desafio brasileiro: possuir minério não equivale a dominar a tecnologia nem a reter o valor da cadeia.

Terras raras são 17 elementos químicos usados em carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. A disputa entre China e Estados Unidos pode atrair recursos e empregos ao país. O resultado dependerá de quanto processamento, pesquisa e produção industrial será instalado aqui.

Extração e refino são etapas diferentes

A extração retira o minério da jazida. O refino separa e purifica os elementos para que possam ser usados pela indústria. Depois vêm etapas como fabricação de ligas, ímãs e componentes. Cada fase exige investimento, conhecimento técnico e controle ambiental próprios. Por isso, uma reserva abundante não produz automaticamente um ímã pronto para uso.

O preço varia conforme o elemento e o grau de processamento. Em 2025, o quilo do óxido de neodímio processado custou, em média, US$ 73, segundo o g1. O dado não pode ser multiplicado por toda a reserva brasileira. As jazidas contêm elementos e concentrações diferentes, além de custos de produção.

Cadeia global combina reserva brasileira e refino concentrado Indicadores divulgados em 28 de outubro de 2026

Ponto da cadeia Dado Significado
Reserva brasileira 2ª maior do mundo Potencial geológico, não produção garantida
Refino mundial na China Cerca de 85% em 2025 Dependência tecnológica e industrial
Financiamento americano à Serra Verde US$ 565 milhões Expansão da produção em Goiás
Óxido de neodímio processado US$ 73 por kg em 2025 Preço médio de um produto específico

Fonte: g1 Explica. Elaboração: redação.

Investimento externo não define destino industrial

Uma agência do governo americano firmou financiamento de US$ 565 milhões com a Serra Verde, empresa que produz terras raras em Goiás. O aporte demonstra o interesse dos Estados Unidos em diversificar fornecedores. Não informa, por si só, quanta tecnologia ou processamento adicional ficará no Brasil.

Essa diferença importa para trabalhadores e regiões produtoras. A mina gera atividade econômica, mas etapas posteriores podem criar fornecedores especializados e empregos técnicos. Exportar concentrado mantém o país na ponta menos complexa da cadeia, enquanto outros mercados produzem componentes de maior valor.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) anunciaram R$ 5 bilhões em 2025 para transformar minerais estratégicos. A iniciativa inclui terras raras e prevê apoio à produção de células de baterias, células fotovoltaicas e ímãs permanentes, segundo a CNN Brasil.

Financiamento e reserva não devem ser comparados como se fossem a mesma grandeza. O primeiro é recurso para projetos; a segunda é estimativa geológica. Avaliar política industrial exige acompanhar projetos contratados, capacidade instalada e conteúdo nacional.

O que diz o BNDES: O banco defende ampliar a atuação para além da extração, segundo a CNN Brasil. O programa com a Finep destina R$ 5 bilhões à transformação de minerais estratégicos, incluindo a fabricação de ímãs e outros produtos finais.

O que o Brasil deve medir daqui em diante

A disputa internacional oferece uma janela, mas não garante desenvolvimento. O país precisa medir onde ocorre o refino, quem compra a produção e quais fornecedores nascem ao redor dos projetos. Também precisa avaliar impactos ambientais e cumprimento das regras de mineração.

Soberania mineral não significa recusar todo capital estrangeiro. Significa negociar com regras claras e transformar recursos naturais em capacidade nacional. Para o leitor, o sinal mais importante não será apenas o volume exportado. Será a quantidade de processamento, tecnologia e emprego qualificado criada no Brasil.

Como fizemos: Consultamos os dados reunidos pelo g1 Explica e o programa do BNDES e da Finep noticiado pela CNN Brasil, acessados em 28/10/2026. A tabela separa geologia, refino, financiamento e preço. Não calculamos valor das reservas, pois composição mineral, custos e viabilidade econômica variam por jazida.

Fontes