Comércio exterior

Minerais no plano de Flávio: capital estrangeiro entra, Estado regula

O programa promete licenças mais rápidas e capital externo para minerais críticos; a lei vigente cria filtros, garantias e controle sobre aquisições.

Seis montes de óxidos de terras raras em pó, de cores diferentes, sobre uma bancada.
Óxidos de terras raras em amostras de laboratório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.Foto: Peggy Greb / Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) / Wikimedia Commons (domínio público)

Em 15 de outubro, uma síntese do plano de Flávio Bolsonaro para minerais propôs licenciamento mais simples, capital estrangeiro e transferência de tecnologia. O documento também reserva ao Estado o papel de regulador, não de proprietário, segundo o Brasil de Fato.

A escolha ganhou peso depois do debate da Band, em 18 de outubro. Luiz Inácio Lula da Silva perguntou se Flávio entregaria terras raras aos Estados Unidos. Flávio chamou a pergunta de “fake news” e disse que viajou para defender empresas brasileiras, segundo o Correio Braziliense.

O ponto verificável está no desenho institucional. O plano acelera a entrada do investidor e deixa o Estado como árbitro. A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em 16 de setembro, cria incentivos e também filtros para aquisições estrangeiras.

Duas formas de abrir o setor

Terras raras são matérias-primas usadas em tecnologias como baterias, chips e celulares. O Brasil tem uma das maiores reservas do mundo, e a mina da Serra Verde, em Goiás, é a única operação comercial citada no dossiê. Em abril, a empresa americana USA Rare Earth acertou a compra do projeto por US$ 2,8 bilhões, com financiamento de US$ 565 milhões do governo dos Estados Unidos.

Esse contexto ajuda a ler a promessa de “investimento protegido” feita por Flávio após encontrar Donald Trump, em maio. Na Conservative Political Action Conference (CPAC), em março, ele havia dito que o Brasil poderia ser a saída dos Estados Unidos para a dependência da China.

A lei sancionada por Lula não fecha o setor ao capital estrangeiro. Ela oferece créditos tributários de até R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034 e um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões. Também cria um conselho capaz de revisar contratos e parcerias com empresas ou governos estrangeiros.

O que muda entre o plano e a lei vigente Elementos documentados nas propostas e no texto sancionado

Tema Plano de Flávio Política nacional sancionada
Papel do Estado Regulador, não proprietário Conselho pode revisar aquisições e parcerias
Capital externo Facilitação e investimento protegido Capital aceito com filtro institucional
Licenciamento Mais simples e rápido Incentivos ligados a projetos aprovados
Tecnologia Transferência para o Brasil Créditos e fundo para projetos estratégicos
Salvaguarda Não detalhada nas fontes Conselho pode barrar contratos estrangeiros

Fontes: Brasil de Fato, CNN Brasil, Estado de Minas, JB e O Tempo. Elaboração: redação.

A comparação não diz que a lei impedirá uma venda. Mostra quem decide antes da venda. No modelo da lei, o governo cria um filtro e oferece dinheiro público para desenvolver o projeto. No plano, a prioridade descrita é simplificar a licença e atrair o investidor.

A oferta antes da regra

O documento de 22 páginas marcado “Flávio Bolsonaro, 2026 Campaign” propôs uma aliança mineral com os Estados Unidos e até US$ 100 bilhões em investimento. André Marinho, apontado como autor, disse que fez um exercício pessoal e nunca o enviou. Não há resposta registrada de Flávio sobre o documento.

A sequência importa. A oferta de parceria veio antes da lei brasileira que criou o conselho. Não é prova de que o candidato venderia terras raras. É prova de que seu método começa pelo acordo externo e deixa o poder de veto para depois.

O mesmo padrão aparece na negociação tarifária. Em 9 de outubro, a Reuters informou que o acesso dos Estados Unidos aos minerais brasileiros era um ponto de disputa no grupo de trabalho sobre tarifas. A política comercial e a política mineral passaram a caminhar no mesmo pacote.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na CNN Brasil, ele prometeu parcerias estratégicas de longo prazo com os Estados Unidos e “investimento protegido” em minerais. No debate de 18 de outubro, chamou de “fake news” a pergunta sobre entregar terras raras e disse que defendia empresas brasileiras.

O segundo turno ocorre em 25 de outubro. O eleitor não precisa escolher entre isolamento e entrega. Pode cobrar a pergunta que o plano não responde: quem terá a palavra final quando uma empresa estrangeira pedir a licença, o crédito e o minério?

Como fizemos: Comparamos os elementos do plano resumidos pelo Brasil de Fato com os incentivos e o conselho descritos nas fontes da lei, acessadas em 21 de outubro de 2026. Não tratamos o documento de campanha como programa oficial, porque seu autor o chamou de exercício pessoal. Também não afirmamos que Flávio venderia terras raras, hipótese que o dossiê não sustenta.

Fontes