Opinião

O BRICS ampliado dilui o peso do Brasil dentro do bloco

O grupo que o Brasil ajudou a fundar dobrou de tamanho desde 2024, ficou mais difícil de pôr de acordo e mais exposto à leitura de bloco anti-Ocidente.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Ilustração provisória e abstrata: losangos concêntricos em dourado sobre azul-escuro.
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 12 de setembro, os líderes do BRICS aprovaram a Declaração de Nova Délhi, que também trata da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo a agência indiana UNI, China e Rússia “reiteram seu apoio às aspirações de Brasil e Índia de desempenhar um papel maior na ONU”. A tradução é livre. O presidente Lula não foi à Índia, e o chanceler Mauro Vieira o representou, como anunciara o Itamaraty.

O trecho foi recebido como vitória, mas a palavra-chave é “reiteram”. É uma fórmula repetida, sem nenhum compromisso concreto com uma reforma da ONU. Enquanto isso, o bloco cresceu, e o Brasil passou a pesar menos dentro dele. A tese deste artigo é simples: a expansão diluiu o interesse brasileiro e deveria ser freada.

De cinco para dez

O BRICS nasceu com Brasil, Rússia, Índia e China, e incorporou a África do Sul em 2011. Em 2024, entraram Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos. Em janeiro de 2025, o governo brasileiro, então na presidência do grupo, anunciou a Indonésia como membro pleno, segundo a Agência Brasil.

A mesma reportagem registrou que a Arábia Saudita participava das reuniões sem ter assinado a adesão. Há ainda os chamados países parceiros. Para a cúpula de Nova Délhi, o Itamaraty informou que dez países parceiros integrariam a sessão ampliada.

O bloco decide por consenso. Com mais sócios, cresce o número de países capazes de travar o que não lhes interessa. O Brasil, que era um entre cinco, virou um entre dez.

Quando a diluição custa caro

O efeito apareceu cedo. Em abril de 2025, no Rio de Janeiro, os chanceleres do bloco não conseguiram aprovar um comunicado conjunto, informou a agência Reuters. Segundo a agência, Egito e Etiópia recusaram parte da linguagem sobre a reforma da ONU.

Era justamente o tema que mais interessa ao Brasil. O país anfitrião terminou a reunião com uma simples declaração da presidência, sem o aval de todos. Um bloco de cinco dificilmente teria travado a principal bandeira de um de seus fundadores.

O preço de parecer anti-Ocidente

O segundo problema é a imagem. Com Rússia e Irã à mesa, o BRICS passou a ser lido em Washington como um clube hostil. Em julho de 2025, durante a cúpula do Rio, o presidente americano Donald Trump ameaçou cobrar 10% a mais de quem se alinhasse às “políticas antiamericanas do BRICS”.

O Brasil não precisa concordar com essa leitura para pagar por ela. Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás da China. Cada parágrafo que o bloco assina sobre sanções ou conflitos é lido também como posição brasileira.

O interesse do Brasil é ter boas relações com todos os polos. Um bloco que caminha para a confrontação reduz essa margem, em vez de ampliá-la.

O que dizem os defensores do BRICS: Para o Itamaraty, o bloco é um foro central para os países em desenvolvimento coordenarem posições. O objetivo é uma ordem global mais justa, segundo a Nota à Imprensa nº 290, de 10 de setembro. Os defensores lembram que a declaração de Nova Délhi apoia o papel do Brasil na ONU. Citam também o Novo Banco de Desenvolvimento, o banco do BRICS, presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff.

O Brasil não precisa sair do BRICS, mas pode usar a regra do consenso a seu favor. A proposta é condicionar qualquer nova adesão plena a critérios escritos, como o apoio explícito à reforma do Conselho de Segurança. Ao mesmo tempo, o país deve concentrar sua energia no banco e na agenda econômica, onde ganha mais do que arrisca.

Fontes