A soberania que Flávio esqueceu na CPAC
No Texas, Flávio ofereceu o Brasil como saída dos EUA para a dependência da China em terras raras. Faltou dizer o que o Brasil pediria em troca.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Em 28 de março, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) subiu ao palco da CPAC, a conferência anual da direita americana, no Texas. Ali, apresentou o Brasil como a saída dos Estados Unidos para a dependência da China em terras raras. A íntegra do discurso foi publicada pelo Poder360. A palavra que faltou foi soberania.
Terras raras são metais usados em ímãs, baterias, motores elétricos e equipamentos de defesa. O Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas, as segundas maiores do mundo, atrás só da China, segundo o site MINING.COM. É um dos poucos trunfos estratégicos que o país tem na disputa entre as duas maiores potências.
Oferecer antes de negociar
Nós, que defendemos a Lava Jato, a polícia e o agro, sabemos como se negocia. Ninguém vende a fazenda anunciando, antes da conversa, que precisa do comprador. Na CPAC, Flávio fez exatamente isso com um recurso que pertence a todos os brasileiros.
O que ficou registrado do discurso foi a oferta: o Brasil como solução para um problema americano. Uma oferta assim, feita em palco partidário estrangeiro, entrega a outra parte a informação mais valiosa da negociação. E Flávio foi além: no mesmo palco, pediu que o “mundo livre” vigiasse a eleição brasileira.
A reação veio rápida. Os políticos de esquerda Guilherme Boulos e Lindbergh Farias acusaram Flávio de oferecer recursos naturais em troca de apoio estrangeiro, segundo o Metrópoles. São adversários do PL, e o leitor de direita tem o direito de desconfiar deles. Mas a pergunta que fizeram não perdeu validade com o tempo.
O que aconteceu depois
O interesse americano não esperou a eleição. Em 20 de abril, a USA Rare Earth acertou a compra da Serra Verde, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões, segundo a Reuters. É a única mina comercial de terras raras do Brasil.
O negócio tem US$ 565 milhões de financiamento do governo americano. Toda a produção irá para um comprador apoiado pelos EUA. Ou seja, a única mina em operação já tem destino certo, antes de qualquer política nacional para o setor.
Em maio, na Casa Branca, Flávio dobrou a aposta. Prometeu parcerias de longo prazo, com “investimento protegido”, segundo a CNN Brasil. Em outubro, a Reuters informou que o acesso americano aos minerais brasileiros virou um dos pontos mais difíceis da negociação sobre tarifas. O que Flávio ofereceu de graça no Texas virou moeda de troca na mesa oficial.
A soberania que a direita deveria defender
Soberania não é fechar a porta ao investimento estrangeiro. A direita sempre defendeu capital privado e parceria com o Ocidente. Soberania é decidir as regras antes de abrir a porta, e cobrar por aquilo que só o Brasil tem.
Esse foi o caminho da lei sancionada no mês passado. Em 16 de setembro, o presidente Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, segundo o JB. A lei cria um conselho capaz de revisar aquisições estrangeiras no setor. Também oferece crédito tributário e um fundo garantidor para quem investir aqui.
É justo reconhecer: o plano de governo de Flávio também fala em processar mais minério dentro do país. Segundo o Brasil de Fato, prevê ainda transferência de tecnologia e o Estado como regulador.
O problema é a ordem dos fatores. No palco americano, a oferta veio antes. As condições ficaram para depois, no papel. Em negociação internacional, quem inverte essa ordem costuma pagar a diferença.
Ninguém aqui pede que você goste de Lula. Pede-se que o eleitor de direita compare atitudes. Um lado escreveu regras para os minerais. O outro foi oferecê-los num palco estrangeiro, em busca de aplauso e apoio.
O que diz Flávio: O candidato apresenta a proposta como parceria estratégica de longo prazo, com o Brasil como alternativa dos EUA à China, segundo a CNN Brasil. Seu plano, segundo o Brasil de Fato, prevê mais processamento no país, transferência de tecnologia e licenciamento mais simples.
A CPAC passou, mas o discurso ficou registrado. Em 25 de outubro, o eleitor vai escolher quem senta à mesa com Washington pelos próximos quatro anos. A direita merece um negociador que lembre da soberania antes de subir ao palco, e não depois.
Fontes
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Fala de Flávio Bolsonaro nos EUA sobre terras raras revolta a esquerda — Metrópoles
- Trump courts Brazil in rare earth supply push — MINING.COM
- USA Rare Earth buys Brazil’s Serra Verde for $2.8 billion — Reuters via Investing.com
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Brazil election to reshape trade with US, with tariffs and minerals at stake — Reuters via Internazionale
- Lula sanciona lei que cria política nacional de minerais críticos — JB
- Quem vai controlar as terras raras do Brasil? — Brasil de Fato



