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"Não seremos colônia de ninguém": a resposta de Lula

Lula respondeu ao giro de Flávio por Washington com um discurso de soberania, uma lei de minerais críticos e crédito de R$ 30 bilhões aos exportadores.

Vista do alto da rampa do Palácio do Planalto, com os Dragões da Independência perfilados e o Congresso Nacional ao fundo.
O presidente Lula recebe o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, no Palácio do Planalto, em Brasília, em 9 de março de 2026.Foto: Ricardo Stuckert / PR / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

“Não seremos colônia de ninguém.” A frase foi dita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pronunciamento em 6 de setembro, véspera do Dia da Independência, segundo o Poder360. Ela resume a resposta do governo à aproximação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com os Estados Unidos ao longo de 2026.

Dez dias depois, a frase ganhou forma de lei. Em 16 de setembro, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Na cerimônia, criticou adversários que, em suas palavras, “caíram de joelho” aos EUA, registrou o jornal O Tempo.

O que provocou a resposta

O alvo do discurso tem nome e agenda. Em 28 de março, na CPAC, a conferência anual da direita americana, no Texas, Flávio ofereceu o Brasil como saída dos EUA para a dependência da China em terras raras. Terras raras são metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa.

Em 26 de maio, Flávio foi à Casa Branca encontrar o presidente Donald Trump. No dia seguinte, esteve com o secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo a CNN Brasil, prometeu ao governo americano parcerias de longo prazo nesses minerais, com “investimento protegido”. Ele não ocupa cargo que lhe permita assumir compromissos em nome do país.

Ao mesmo tempo, o Brasil enfrentava tarifas americanas. Em 15 de julho, entraram em vigor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, segundo a Reuters.

O valor desses minerais explica a disputa. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, segundo o site MINING.COM. Quem promete esses recursos a um governo estrangeiro mexe com um ativo que pertence a todos os brasileiros.

A resposta em três partes

A primeira parte foi o discurso. Ao falar em colônia, Lula tratou a relação com Washington como questão de soberania, e não só de comércio. A mensagem era que o Brasil negocia, mas não se oferece. Foi também um recado ao eleitor, num ano em que a soberania virou tema de campanha.

A segunda parte foi a lei de minerais. Segundo o JB, ela cria créditos tributários de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034. Cria também um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões. E institui um conselho que pode revisar aquisições estrangeiras de empresas do setor.

Na prática, o conselho funciona como um filtro, e não como uma barreira. Investidores de fora continuam bem-vindos, inclusive os americanos. Mas a compra de uma mina estratégica passa a depender de uma análise do Estado brasileiro. Segundo o jornal O Tempo, a proposta nasceu no Congresso, de autoria de um deputado do União, partido de centro-direita.

A terceira parte foi o socorro a quem pagou a conta das tarifas. O Plano Brasil Soberano ofereceu R$ 30 bilhões de crédito aos exportadores atingidos pelo tarifaço, segundo a Agência Brasil. O plano foi lançado em agosto de 2025.

Juntas, as três partes formam uma doutrina simples. O Brasil aceita investimento e comércio com todos, mas define as próprias regras. E protege quem produz quando a pressão vem de fora.

O efeito na campanha

A estratégia teve impacto eleitoral medido. Uma pesquisa Quaest verificou que 42% dos eleitores ficaram mais inclinados a Lula por causa das tarifas, contra 27% em relação a Flávio, segundo a Reuters. As tarifas, que Flávio tentou atribuir ao governo, acabaram pesando a favor do adversário.

No debate da Band, em 18 de outubro, Lula voltou ao tema. Perguntou diretamente se Flávio entregaria as terras raras aos Estados Unidos, relatou o Correio Braziliense. Os veículos divergem sobre se o candidato negou a acusação de forma direta.

O que diz Flávio: No debate da Band, Flávio chamou de fake news a acusação de que entregaria as terras raras aos EUA. Disse que foi aos Estados Unidos para defender empresas brasileiras, segundo o Correio Braziliense.

A frase de Lula funcionou porque veio acompanhada de atos: uma lei, um conselho e crédito ao exportador. Do outro lado, há promessas feitas em palanques americanos.

A seis dias da votação, o eleitor compara as duas posturas. Uma diz que o Brasil não será colônia e mostra as regras. A outra ainda precisa explicar o que ofereceu em Washington, e em troca de quê.

Fontes