Rockbridge e J.D. Vance: o PT pede investigação de suposto dinheiro estrangeiro na campanha
O PT foi ao STF para apurar se um grupo americano co-fundado pelo vice dos EUA financiou a campanha de Flávio; ainda não há prova de que o dinheiro chegou.

Em 13 e 14 de setembro, o PT pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que investigasse um possível financiamento estrangeiro da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O canal suspeito é a Rockbridge Network, grupo americano co-fundado por J.D. Vance, hoje vice-presidente dos Estados Unidos. A informação foi publicada pela CNN Brasil.
Até agora, não há prova de que dinheiro da Rockbridge tenha chegado à campanha. Trata-se de uma suspeita levada ao tribunal pelo principal partido adversário. Ainda assim, a Agência Pública, que investigou o caso, tratou o episódio como possível maior escândalo desta eleição.
Por que a suspeita pesa
A lei eleitoral brasileira proíbe que campanhas recebam doações de governo ou entidade estrangeira. A regra existe para proteger uma escolha que cabe só aos brasileiros. Por isso, qualquer indício de dinheiro de fora numa disputa presidencial é grave, mesmo antes de qualquer prova.
A suspeita também não nasce no vazio. A campanha de Flávio construiu uma relação próxima com a direita americana ao longo de 2026. E essa proximidade está documentada em datas e falas públicas.
Em 28 de março, na CPAC, a conferência anual da direita americana, no Texas, Flávio ofereceu o Brasil como saída dos EUA para a dependência da China em terras raras. No mesmo discurso, pediu que o “mundo livre” vigiasse a eleição brasileira, segundo o Poder360. Terras raras são metais usados em ímãs, baterias e equipamentos de defesa.
Em 26 de maio, Flávio esteve com o presidente Donald Trump na Casa Branca. No dia seguinte, encontrou o secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo a CNN Brasil, prometeu parcerias de longo prazo em terras raras, com “investimento protegido”.
A família também tem histórico com Washington. Em 16 de junho, o STF condenou Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, a 4 anos e 2 meses de prisão por coação. Segundo a Agência Brasil, ele buscou tarifas e sanções americanas para interromper o julgamento do pai.
Essa pressão de fora já teve efeitos concretos. Em 30 de julho de 2025, os EUA aplicaram ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, sanções da Lei Magnitsky. É uma lei americana que permite punir estrangeiros com bloqueio de bens e de vistos. No mesmo período, Trump vinculou uma tarifa de 50% ao julgamento de Jair Bolsonaro, segundo a Universidade de Wisconsin–Madison.
A tarifa de 50% foi depois retirada, segundo o site Axios. Mas o episódio mostrou que decisões tomadas em Washington podem atingir diretamente instituições brasileiras.
O que mostram as contas declaradas
A prestação de contas oficial aponta outra origem para a maior parte do dinheiro. Até 1º de outubro, a campanha de Flávio declarou R$ 61,7 milhões, segundo o Poder360. Desse total, R$ 55,2 milhões vieram do diretório nacional do PL, o que representa 89% da arrecadação.
Entre os doadores individuais, o maior foi Luiz da Rocha Salles Filho, com R$ 1 milhão, de acordo com o Poder360. Erasmo Battistella, da Be8, e Fernando de Castro Marques, da União Química, deram R$ 500 mil cada.
As contas declaradas, porém, só mostram o que foi declarado. O pedido do PT mira justamente o que poderia ter circulado fora delas. Esse é o tipo de dúvida que só uma investigação pode esclarecer, com acesso a dados que a imprensa não tem.
É por isso que o pedido do PT não pode ser descartado nem tratado como prova. Ele é uma suspeita que precisa de resposta. Cabe às instituições brasileiras, e não ao palanque, separar o fato da acusação.
Também vale registrar o que não aconteceu. Segundo o site Axios, Trump não declarou apoio formal a Flávio no segundo turno. Não há, portanto, endosso oficial do governo americano à candidatura.
O que diz a campanha de Flávio: A Revista Soberania não localizou, nas reportagens sobre o pedido do PT, manifestação pública da campanha sobre a Rockbridge. A prestação de contas declarada mostra que 89% da arrecadação veio do fundo do PL, e não há prova de que dinheiro ligado ao grupo tenha chegado à campanha.
O pedido agora está no STF, que decide se ele vira investigação. Para o eleitor, a questão vai além de um suposto repasse. Uma campanha que pediu ao “mundo livre” para vigiar a eleição brasileira precisa mostrar, com clareza, que ninguém de fora está pagando a conta. A 11 dias do segundo turno, essa resposta ainda não veio.
Fontes
- PT aciona STF para apurar suposto custeio estrangeiro à campanha de Flávio — CNN Brasil
- Financiamento de grupo ligado a J.D. Vance pode ser maior escândalo da eleição — Agência Pública
- Assista ao discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA e leia a íntegra — Poder360
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- STF condena Eduardo Bolsonaro à inelegibilidade e 4 anos de prisão — Agência Brasil
- Saiba quais são os principais doadores de Lula e Flávio — Poder360
- US sanctions Brazil’s Supreme Court justice overseeing case against Bolsonaro — UW–Madison LADD
- Brazil election: Lula, Flávio Bolsonaro, Trump and the Amazon — Axios



