Flávio apoia aliados acusados enquanto promete cooperação contra facções
Bacellar e Canella foram presos ou indiciados pela PF após receberem apoio político; o contraste expõe a fragilidade da promessa de segurança.

Em 15 de outubro, a Polícia Federal (PF) prendeu Márcio Canella, deputado estadual eleito no Rio de Janeiro. Quatro meses antes, Flávio Bolsonaro havia dado a ele “apoio integral, 100%” para uma vaga no Senado, segundo a CNN Brasil.
Em outra frente de investigação, a PF acusa Rodrigo Bacellar de vazar informações de uma operação ao Comando Vermelho (CV). Flávio o apoiou como sucessor do governador Cláudio Castro. O registro não prova vínculo pessoal de Flávio com a facção. Prova, porém, que o candidato escolheu os dois aliados antes de eles virarem alvo da polícia.
Dois apoios, dois inquéritos
Bacellar, do União Brasil, presidiu a Assembleia Legislativa do Rio. O relatório final da PF afirma que ele exercia a liderança do “núcleo político” do CV e teria vazado dados da Operação Zargun. Ele foi indiciado em fevereiro de 2026 por obstrução e voltou a ser preso em março. Seus advogados chamam a acusação de arbitrária.
Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e deputado eleito, foi preso em 15 de outubro. A PF investiga um grupo que teria lavado cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis entre 2020 e 2026. Um áudio citado no inquérito mostra um capitão negociando barricadas com integrantes do CV e dizendo ter influência na prefeitura.
O caminho político dos dois passou por Flávio. Em maio de 2025, o senador sinalizou apoio a Bacellar para suceder Castro. Em abril de 2026, declarou apoio integral a Canella para o Senado. Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, chegou a ser anunciada como suplente de Canella. Depois, retirou o nome.
O que mudou depois dos apoios Situação documentada pela PF e posição de Flávio
| Aliado | Apoio atribuído a Flávio | Situação registrada no dossiê |
|---|---|---|
| Rodrigo Bacellar | Sucessor de Castro; nome do PL para o governo | Indiciado e acusado de vazar dados ao CV; advogados contestam |
| Márcio Canella | “Apoio integral, 100%” para o Senado | Preso em 15/10; investigação sobre lavagem e acordos com o CV |
Fontes: PF, CNN Brasil, Poder360 e Jornal de Brasília. Elaboração: redação.
A tabela não transforma acusação em condenação. Ela mostra outra coisa: a distância entre a seleção política de Flávio e a verificação policial posterior. Esse intervalo importa para quem promete cooperação internacional contra o crime organizado.
A promessa que não chega à fronteira
Em maio, Flávio pediu a Donald Trump que os Estados Unidos classificassem PCC e CV como organizações terroristas. No plano de governo, promete declarar as facções “narcoterroristas”, congelar bens e usar força contra criminosos armados com fuzis. A cooperação externa aparece como atalho para a segurança.
A experiência do Rio mostra o ponto cego desse atalho. O crime atravessa municípios, empresas e fronteiras, mas a investigação depende de informação local, controle de armas e escolha de parceiros políticos. Um governo que não filtra seus próprios aliados pode pedir listas estrangeiras, mas não substitui a triagem brasileira.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aplicou o mesmo critério aos dois lados. Em 8 de outubro, mandou retirar posts de Flávio que ligavam Lula ao PCC e ao CV sem base factual. Em 15 de outubro, manteve a remoção de uma publicação que associava o próprio Flávio ao CV. A corte registrou que não havia prova para a associação pessoal.
Flávio disse, em 16 de outubro, que ficou surpreso com as prisões. Afirmou que os acusados têm direito de defesa e que qualquer vínculo comprovado com PCC ou CV deve ser punido “dentro da lei”. A resposta é juridicamente correta, mas não explica por que os dois receberam seu apoio antes das prisões.
O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo a Metrópoles, ele afirmou que foi surpreendido pelas prisões de Canella e Bacellar. Disse que ambos têm direito à defesa e que vínculos comprovados com facções devem ser punidos “dentro da lei”.
O segundo turno será em 25 de outubro. O eleitor pode defender uma política dura contra facções e cobrar coerência na escolha de aliados. A fronteira que Flávio promete proteger começa antes do posto policial: começa no filtro político de quem recebe seu aval.
Como fizemos: Reunimos as datas de apoio, prisões e indiciamento descritas no dossiê e conferimos a cobertura indicada nas fontes, acessadas em 21 de outubro de 2026. A tabela separa apoio político de estágio investigativo. Não afirmamos vínculo pessoal de Flávio com o CV, porque o dossiê registra que não há prova documentada dessa ligação.
Fontes
- Bacellar e TH Joias são indiciados por vazamento de dados ao CV — Poder360
- Bolsonarista Bacellar atua como liderança do núcleo político do Comando Vermelho, diz PF — Jornal de Brasília
- Com apoio de Flávio Bolsonaro, Bacellar ganha força como sucessor de Castro no RJ — Diário do Rio
- Flávio diz que foi surpreendido com prisões de Canella e Bacellar — CNN Brasil
- Canella é investigado por vínculo com a milícia e acordos com o Comando Vermelho — TMC
- “Competente, amigo, sabe trabalhar”: os elogios de Flávio a Márcio Canella, preso pela PF — CartaCapital
- Flávio se diz surpreso com prisão de aliados no RJ: “pagar dentro da lei” — Metrópoles
- TSE mantém remoção de publicação que associa Flávio Bolsonaro a organizações criminosas — TSE



