Fronteiras

Flávio apoia aliados acusados enquanto promete cooperação contra facções

Bacellar e Canella foram presos ou indiciados pela PF após receberem apoio político; o contraste expõe a fragilidade da promessa de segurança.

Rodrigo Bacellar fala diante do prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio, em entrevista diante do prédio da Alerj, em 4 de janeiro de 2023.Foto: TV ALERJ / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Em 15 de outubro, a Polícia Federal (PF) prendeu Márcio Canella, deputado estadual eleito no Rio de Janeiro. Quatro meses antes, Flávio Bolsonaro havia dado a ele “apoio integral, 100%” para uma vaga no Senado, segundo a CNN Brasil.

Em outra frente de investigação, a PF acusa Rodrigo Bacellar de vazar informações de uma operação ao Comando Vermelho (CV). Flávio o apoiou como sucessor do governador Cláudio Castro. O registro não prova vínculo pessoal de Flávio com a facção. Prova, porém, que o candidato escolheu os dois aliados antes de eles virarem alvo da polícia.

Dois apoios, dois inquéritos

Bacellar, do União Brasil, presidiu a Assembleia Legislativa do Rio. O relatório final da PF afirma que ele exercia a liderança do “núcleo político” do CV e teria vazado dados da Operação Zargun. Ele foi indiciado em fevereiro de 2026 por obstrução e voltou a ser preso em março. Seus advogados chamam a acusação de arbitrária.

Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e deputado eleito, foi preso em 15 de outubro. A PF investiga um grupo que teria lavado cerca de R$ 7,6 bilhões em postos de combustíveis entre 2020 e 2026. Um áudio citado no inquérito mostra um capitão negociando barricadas com integrantes do CV e dizendo ter influência na prefeitura.

O caminho político dos dois passou por Flávio. Em maio de 2025, o senador sinalizou apoio a Bacellar para suceder Castro. Em abril de 2026, declarou apoio integral a Canella para o Senado. Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, chegou a ser anunciada como suplente de Canella. Depois, retirou o nome.

O que mudou depois dos apoios Situação documentada pela PF e posição de Flávio

Aliado Apoio atribuído a Flávio Situação registrada no dossiê
Rodrigo Bacellar Sucessor de Castro; nome do PL para o governo Indiciado e acusado de vazar dados ao CV; advogados contestam
Márcio Canella “Apoio integral, 100%” para o Senado Preso em 15/10; investigação sobre lavagem e acordos com o CV

Fontes: PF, CNN Brasil, Poder360 e Jornal de Brasília. Elaboração: redação.

A tabela não transforma acusação em condenação. Ela mostra outra coisa: a distância entre a seleção política de Flávio e a verificação policial posterior. Esse intervalo importa para quem promete cooperação internacional contra o crime organizado.

A promessa que não chega à fronteira

Em maio, Flávio pediu a Donald Trump que os Estados Unidos classificassem PCC e CV como organizações terroristas. No plano de governo, promete declarar as facções “narcoterroristas”, congelar bens e usar força contra criminosos armados com fuzis. A cooperação externa aparece como atalho para a segurança.

A experiência do Rio mostra o ponto cego desse atalho. O crime atravessa municípios, empresas e fronteiras, mas a investigação depende de informação local, controle de armas e escolha de parceiros políticos. Um governo que não filtra seus próprios aliados pode pedir listas estrangeiras, mas não substitui a triagem brasileira.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aplicou o mesmo critério aos dois lados. Em 8 de outubro, mandou retirar posts de Flávio que ligavam Lula ao PCC e ao CV sem base factual. Em 15 de outubro, manteve a remoção de uma publicação que associava o próprio Flávio ao CV. A corte registrou que não havia prova para a associação pessoal.

Flávio disse, em 16 de outubro, que ficou surpreso com as prisões. Afirmou que os acusados têm direito de defesa e que qualquer vínculo comprovado com PCC ou CV deve ser punido “dentro da lei”. A resposta é juridicamente correta, mas não explica por que os dois receberam seu apoio antes das prisões.

O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo a Metrópoles, ele afirmou que foi surpreendido pelas prisões de Canella e Bacellar. Disse que ambos têm direito à defesa e que vínculos comprovados com facções devem ser punidos “dentro da lei”.

O segundo turno será em 25 de outubro. O eleitor pode defender uma política dura contra facções e cobrar coerência na escolha de aliados. A fronteira que Flávio promete proteger começa antes do posto policial: começa no filtro político de quem recebe seu aval.

Como fizemos: Reunimos as datas de apoio, prisões e indiciamento descritas no dossiê e conferimos a cobertura indicada nas fontes, acessadas em 21 de outubro de 2026. A tabela separa apoio político de estágio investigativo. Não afirmamos vínculo pessoal de Flávio com o CV, porque o dossiê registra que não há prova documentada dessa ligação.

Fontes