Ensaios

Em 1926, o Brasil deixou a Liga das Nações por uma cadeira permanente

O governo Artur Bernardes vetou a entrada da Alemanha no Conselho, ficou isolado em Genebra e anunciou a saída da organização em junho de 1926.

Fachada de grande edifício histórico de estilo francês, às margens do lago de Genebra, sob céu azul.
O Palais Wilson, em Genebra, na Suíça, que foi a sede da Liga das Nações na época em que o Brasil integrava a organização, em foto de 2023.Foto: Nick-D / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 12 de junho de 1926, o governo de Artur Bernardes anunciou que o Brasil deixaria a Liga das Nações. Três meses antes, em Genebra, o país tinha vetado a entrada da Alemanha como membro permanente do Conselho da organização. O Brasil queria uma cadeira permanente para si e não a conseguiu.

Um fundador com assento

A Liga nasceu em 1919, com o Tratado de Versalhes, que encerrou a Primeira Guerra Mundial. O Brasil, que tinha lutado ao lado dos Aliados, foi membro fundador. O Pacto da Liga, o tratado que a criou, citava o Brasil entre os quatro primeiros membros não permanentes do Conselho, com Bélgica, Espanha e Grécia.

O Conselho era o órgão mais poderoso da Liga. Em 1926, tinha quatro membros permanentes: Reino Unido, França, Itália e Japão. Os Estados Unidos nunca entraram, porque o Senado americano não ratificou o tratado.

O Brasil foi reeleito ano após ano para uma vaga temporária, segundo a Agência Senado. Em 13 de março de 1924, o governo criou uma delegação permanente em Genebra, chefiada por Afrânio de Melo Franco. Hoje, ela é a missão multilateral mais antiga do país, informa o Itamaraty.

A campanha por um assento fixo já estava em curso. O argumento era simples: as Américas precisavam de ao menos um representante permanente no Conselho.

O veto

Em 1925, os Acordos de Locarno, assinados entre potências europeias, abriram caminho para a Alemanha entrar na Liga. Os alemães pediam um assento permanente no Conselho. O tema foi levado a uma assembleia extraordinária em março de 1926.

Pelo Pacto, as decisões do Conselho exigiam a concordância de todos os membros. Em 17 de março, a delegação brasileira usou esse poder e vetou a entrada alemã. O veto paralisou a Liga por semanas, relata a Agência Senado.

No Senado brasileiro, a decisão dividiu opiniões. Antônio Muniz criticou a política externa de Bernardes. Antônio Azeredo a defendeu e reclamou que Locarno tinha resolvido a entrada alemã fora da Liga, sem ouvir os membros temporários.

A saída

Isolado, o Brasil preferiu sair a ser afastado de sua vaga pelas grandes potências, segundo a Agência Senado. O Pacto previa que a retirada só valia dois anos depois do aviso. Por isso, a saída formal só se completou em 1928.

A Alemanha foi admitida em setembro de 1926, com o assento permanente que pedia. O Brasil nunca voltou à Liga, dissolvida em 1946 e substituída pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A saída não cortou todos os laços. O médico e cientista Carlos Chagas, que integrava o Comitê de Saúde da Liga, continuou no posto como especialista independente.

O que diz o historiador Eugênio Vargas Garcia: Em entrevista à Agência Senado, em 3 de junho de 2026, Garcia considerou fraca a tese de que Bernardes buscava popularidade interna, pois a campanha começou antes. Para ele, a diplomacia da época oscilava entre a autocrítica excessiva e a ambição de ser grande potência. Nos anos 1920, disse, o Brasil “errou a mão”.

Cem anos depois, o Brasil volta a pedir uma cadeira permanente, agora no Conselho de Segurança da ONU. Desta vez, faz isso em grupo, no G4, ao lado de Alemanha, Índia e Japão. Garcia avalia que o país não deixaria a ONU hoje, muito mais influente que a Liga. A lição de 1926 é que ambição sem aliados termina em isolamento.

Fontes