Opinião

Embaixada boa é a que abre mercado para quem produz no Brasil

Aberturas sanitárias como as de Cuba e do México mostram o valor da diplomacia comercial; o próximo passo é cobrar resultados em vendas, e não só em anúncios.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as da Revista Soberania.

Parede do prédio do Ministério da Agricultura, com o nome em letras douradas, na Esplanada dos Ministérios.
Fachada do Ministério da Agricultura (então Pecuária e Abastecimento), em Brasília, em setembro de 2017, em foto de arquivo.Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na segunda-feira (14), o Itamaraty e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) anunciaram duas novas portas para o produtor brasileiro. Cuba autorizou a compra de maçã, uva, pera e laranja frescas do Brasil. O México liberou proteínas de bovinos não hidrolisadas, o colágeno.

Nos dois casos, as autoridades sanitárias estrangeiras aceitaram os requisitos negociados com o Brasil, informa a nota conjunta. É assim que se “abre um mercado”: um país passa a aceitar a garantia sanitária brasileira para um produto específico.

Em 30 de julho, o ministro da Agricultura, André de Paula, disse que o país já soma 660 novos mercados para produtos agrícolas e industriais. A meta é passar de 700 até o fim do ano, segundo a Estadão Conteúdo.

Defendo que esse trabalho seja a primeira prioridade da política externa. E que cada embaixada seja avaliada pelos mercados que ajuda a abrir e a manter.

Gente no lugar certo

O primeiro argumento é que diplomacia comercial depende de especialistas, não de improviso. Segundo o Mapa, o Brasil tem hoje 40 adidos agrícolas nas representações diplomáticas no exterior. Adido agrícola é um servidor do ministério que trabalha dentro da embaixada.

A missão deles, diz o ministério, é a “abertura, manutenção e ampliação de mercados para o agronegócio brasileiro”. Cada missão dura até quatro anos, e alguns adidos cobrem mais de um país. É pouco para um dos maiores exportadores de alimentos do mundo.

Abrir não é vender

O segundo argumento é de medida. Um painel do Mapa contou 78 aberturas em 2023, 222 em 2024 e 225 em 2025, segundo a Rádio Itatiaia. O número impressiona, mas não diz quanto foi vendido depois.

Um mercado aberto que não recebe nenhum embarque é só um troféu. Aqui entra a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), que leva empresas a feiras e compradores. Abertura sanitária, promoção comercial e adido precisam trabalhar com a mesma meta.

A nova barreira é verde

O terceiro argumento é que as exigências mudaram. Em 11 de setembro, Itamaraty e Mapa anunciaram uma resolução da Câmara de Comércio Exterior (Camex) que cria o Relatório de Análise Socioambiental para Operações de Exportação (RASOE).

O documento permite ao exportador mostrar que cumpre a lei socioambiental brasileira. A nota cita o regulamento europeu contra produtos de áreas desmatadas, previsto para entrar em vigor em janeiro de 2027. Defender a certificação brasileira lá fora também é diplomacia comercial, e das mais difíceis.

O que diz o governo: Para o governo, a diplomacia comercial já é prioridade. “O Brasil já celebra 660 novos mercados, e nós vamos bater a meta”, disse André de Paula em 30 de julho, segundo a Estadão Conteúdo. No mesmo evento, o ministro Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, afirmou: “Nossos produtos agrícolas são a porta de entrada para exportar produtos industrializados.”

O governo tem razão ao comemorar os números, mas contar aberturas não basta. Proponho um relatório anual por embaixada, com três dados públicos. Quantos mercados foram abertos, quanto se exportou um ano depois e quais barreiras foram derrubadas. Política externa que serve ao produtor é aquela que presta contas em vendas.

Fontes